Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Prova de um cineasta bem educado

15.11.04

por Daniel Oliveira

A Má Educação

(La mala educación, Espanha, 2004)

Direção: Almodóvar
Elenco: Gael García Bernal, Fele Martínez, Daniel Giménez Cacho, Lluís Homar, Francisco Maestre, Francisco Boira e Juan Fernández.

Princípio Ativo:
Diretor, roteiro e ator com camadas

receite essa matéria para um amigo

Um filme de Almodóvar sem uma personagem feminina central? Ao sair de “A Má Educação”, ainda anestesiado pelas imagens emboladas e desemboladas na minha cabeça, esse foi o primeiro pensamento que tive. Na hora, a resposta veio à mente: um filme de Almodóvar sem mulheres fortes, mas com Gael García Bernal (Diários de motocicleta) – uma massa de modelar que o diretor usa das mais diversas formas.

O espanhol virou praticamente uma marca pop no cinema atual e qualquer projeto dele gera muita especulação. Ainda mais se tratando de um filme sobre dois sujeitos, que estudaram num colégio católico e sofreram abuso por um padre. Um deles cresce e se torna um cineasta. Quando Almodóvar anunciou a sinopse, os cinéfilos tinham assunto para mais de ano.

Junte-se ao caldo o ator mais hype do momento e de repente todo mundo começa a comentar: que era uma autobiografia, mesmo que o diretor não admitisse; que Gael faria cenas picantes com um homem; que não faria; que se travestiria, que não...

Mas é tudo balela. O filme estreou em Cannes e provou que o diretor é um dos mais geniais de nossa época. Se “A má educação” não tem a sensibilidade e a delicadeza de “Tudo sobre minha mãe” ou “Fale com ela”, tem a paixão do bardo espanhol pelo cinema e sua linguagem. Mais: comprova o talento de Almodóvar em criar personagens extremamente complexos, impossíveis de se julgar. Nele, não existem vilões ou mocinhos, existem pessoas com visões exageradas ou distorcidas do amor – pessoas que erram, enganam, se machucam e têm suas vidas marcadas por isso. Numa determinada cena, um dos personagens chora convulsivamente ao encenar na ficção um assassinato que cometeu na “vida real” dentro do filme.

Não estranhe a complexidade. Se os personagens de Almodóvar não são fáceis, a estrutura da estória reflete isso. A película é um filme-cebola, em que o roteiro apresenta uma nova camada a cada dez minutos. Baseado nos filmes noir americanos, essa técnica ganha, nas mãos do cineasta espanhol, uma função metalingüística deliciosa, em que o espectador se perde nas emoções de estórias dentro de estórias, de versões de versões e de repente pode não reconhecer mais os personagens, mas sabe o sentimento que permeia sua estória. Em um dado momento, um personagem diz: “Todos os filmes parecem falar de nós”. Almodóvar sabe que falar de sua vida não é fazer uma autobiografia, é falar de cinema com paixão, como ele sempre faz. Se isso, para alguns, é autobiografia, tudo bem. Para mim, parece retrógrado demais.

Nem eu sei mais quantos papéis eu faço nesse filme

» leia/escreva comentários (0)