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Um cineasta inconveniente

14.06.08

por por Daniel Oliveira

Fim dos tempos

(The happening, EUA, 2008)

Dir.: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez, Betty Buckley, Spencer Breslin, Robert Bailey Jr., Jeremy Strong

Princípio Ativo:
a câmera e o inesperado inevitável

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M. Night Shyamalan tenta nos fazer pensar mais do que sentir. A apreensão e o envolvimento de seus filmes se dão mais através da busca por entender o que está acontecendo do que por uma identificação com seus personagens – desde “O sexto sentido” até “A Dama na Água”.

Ele quer que nos indaguemos sobre aquele mundo, mas acabemos achando respostas sobre o nosso. É por isso que suas fábulas morais são tão interessantes: Shyamalan tem algo a dizer com seus filmes. E esse algo costuma ser bem pertinente e oriundo de sua condição de estrangeiro quase nativo nos EUA.

Com “O fim dos tempos”, não é diferente. O longa narra os estranhos eventos de um dia em que pessoas por toda a costa leste norte-americana começam inesperadamente a se suicidar. Claro que o acontecimento é logo encarado como um ataque terrorista, já que a atitude é atribuída a um agente químico espalhado pelo ar que, aparentemente, inibe o instinto de sobrevivência. E nesse ‘mecanismo’ – a perda do senso de preservação – está a chave da metáfora do filme.

Shyamalan acompanha uma família na evacuação da Filadélfia (como sempre) e coloca o espectador no meio de pessoas comuns, banais até, tentando entender o que se passa. Há cenas sangrentas, chocantes para alguns, e se prepare para uns bons sustos. Outro diferencial do cineasta: seus sustos não irritam. Ele consegue criar uma ambientação tão convincente em suas histórias que o inesperado parece quase inevitável – vide a cena do protagonista Elliott (Wahlberg) no quarto da velha estranha Mrs. Jones (a ótima Betty Buckley).

Há sérios problemas, principalmente no que diz respeito ao elenco, atuação e diálogos. Mark Wahlberg é uma escolha totalmente equivocada para interpretar um professor de ciências. E Zooey Deschanel apresenta uma das performances mais preguiçosas do ano como sua esposa, Alma.

Shyamalan é claramente alguém educado audiovisualmente. Seus roteiros não possuem elaboração literária, não há diálogos sofisticados ou off’s grandiosos – quando ele quer ter certeza de que esclareceu seu argumento no final do filme, deixa a TV de um personagem falando sozinha. “Fim dos tempos” é construído, assim, com belos movimentos de câmera (a seqüência do revólver é um bom exemplo) e filmado como um longa dos anos 40 ou 50. “Os pássaros” de Hitchcock é a referência mais óbvia (apesar de ser de 1963). Enfim, é feito como cinema – puro e sem ostentação.

Se fosse qualquer outro cineasta estreante, seria considerado um longa pertinente e promissor. Em se tratando de Shyamalan, espere ouvir por aí que é pretensioso – ou simplesmente que não é “O sexto sentido”.

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Wahlberg e Deschanel vêem gente morta.

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