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Quase tudo é amor

15.11.04

por Rodrigo Campanella

O Clã das Adagas Voadoras

(Shi Mian Mai Fu/ House of Flying Daggers, China/2004)

Direção: Zhang Yimou
Elenco: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Zhang Ziyi, Song Dandan

Princípio Ativo:
Os vôos. Todos eles.

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Quando se é criança, as imagens do cinema impressionam pela grandiosidade, pela força e ânimo da ilusão, gigantesca na tela. Há a impressão de sonho, mas com o grande susto de ser parte da realidade. Crescendo, na maior parte das vezes o espanto diminui, um certo cinismo aumenta. Passa a ser tão interessante saber como é que se faz a mágica do que só se encantar por ela. Virada em que se perde algo, mas indispensável para abrir novos mundos.

Mas, diante desse Clã das Adagas Voadoras, eu lembrei exatamente do que é aquela sensação de sonho. Ao final de tudo, de algum jeito eu estava agradecido por ter persistido amando o cinema. Agradecido pelo cinema existir.

Não, Clã das Adagas Voadoras não mudou a minha vida. (Se bem que talvez sirva de catalisador de paixão pelo cinema para algum dos moleques que vão aventurar suas resenhas daqui uma década mais ou menos.) Mas foi sim um reencontro indispensável com uma imagem em especial: a que é sonho. E não vá pensando aí em um filme parado e introspectivo: há lutas a cada 10 minutos, isso nos momentos em que demoram tanto.

A história se passa em uma China onde a dinastia no poder está corrupta e decadente. Entre os tantos grupos rebeldes, cresce o nome do Clã das Adagas Voadoras, o mais poderoso. Os planos do exército são de se infiltrarem nele para destruí-lo. A chance aparece quando Mei, uma revolucionária cega, é presa ao tentar matar um oficial do exército. É aí que Jin, soldado, recebe a missão de se disfarçar de revolucionário e se envolver com ela, buscando pistas.

Ele a acompanha rumo a sede do clã e os inimigos se sucedem. Cada batalha é um pequeno épico, com gosto particular. Inesquecível talvez seja a que acontece em meio aos bambus, onde Mei e Jin têm que se esquivar do ataque de centenas de pequenas lanças de madeira, lançadas do alto das árvores.

Claro que o amor sorrateiramente vai se esgueirar por todas as frestas da história. E, surpresa, em certo momento se percebe que, como no pop-épico Kill Bill, todo o sangue derramado ali é também a expressão de uma história de amor. Desde Caim, desde Julieta, tempos estranhos esses, ainda que cada vez mais explícitos graficamente.

Impossível separar as partes da poesia, visual e de movimento, criadas por Yimou. O diretor viaja entre imagens de dois mundos: o das paisagens, que parecem eternas, e o dos objetos, presos ao instantâneo do movimento (é junto dos objetos que a imagem faz lindos vôos). Na violenta (e apaixonada) luta final, ambas se encontram. Juntas, criam o palco onde se põe em xeque o que, realmente, é amor.

“Você tem dois minutos pra dizer que me ama”

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