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Luz, sombra, angústia e Dostoiévisky

15.11.04

por Daniel Oliveira

Nina

(Brasil, 2004)

Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Guta Stresser, Myriam Muniz, Selton Mello, Juliana Galdino, Wagner Moura

Princípio Ativo:
Um diretor que promete

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Então você é como um mártir dos anos 90. Se mudou para a cidade grande, sonhando com faculdade, sucesso, revolução – você iria mudar o mundo. Só que as coisas não são bem assim. Foi morar numa espelunca de quinta, com uma tia chata te enchendo o saco, ou alguns colegas de pensão pentelhos. A faculdade é um monte de baboseira teórica, com um monte de gente falando sobre coisas que não conseguem resolver na prática. Você tem idéias geniais, mas tem problemas em expressá-las e ninguém reconhece o talento que sua mãe venerava.

Renegado e deprimido, resta-lhe vagar num submundo de prostitutas, homossexuais e drogas. Nele, tudo parece mais verdadeiro que no teatro sociopata da sociedade yuppie e workaholic. Você é uma célula perdida no organismo doente e ininterrupto do “Terceiro Milênio”. Você é ordinário ou extraordinário?

Ok, pode-se até não se identificar com o cenário degradado e sombrio criado pelo diretor Heitor Dhalia em “Nina”, mas é impossível negar sua força. Co-roteirista do ótimo e ignorado “As Três Marias”, ele faz direitinho a lição de casa e busca nas vanguardas artísticas, principalmente no expressionismo alemão, e na literatura de Dostoiévisky a luz (e a sombra) para dar seu pontapé inicial no cinema.

Protagonizado por Guta Stresser, o filme narra a estória da personagem-título – uma jovem que mora numa pensão com uma velha insuportável, perambula pelo submundo de São Paulo e desabafa sua depressão desenhando quadrinhos. Se a atriz principal não consegue dosar a cara de dó com a força/revolta interior de Nina, Dhalia conta com ótimos coadjuvantes, com destaque para Myriam Muniz, no papel de Eulália, a carrasca de sua protagonista. Além dela, o cineasta conseguiu toda a trupe do cinema nacional em pequenas pontas: Selton Mello, Wagner Moura, Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele batem ponto na produção.

Marcado pelo contraste expressionista de luz e sombra e pela boa mão do diretor, o filme envolve o espectador no forte clima de angústia vivido internamente por Nina. De “Crime e castigo”, de Dostoiévisky, vem a noção perturbada e perturbadora de violência como última solução, expressa graficamente nas animações de Lourenço Mutarelli. Bela estréia de Dhalia, que vai fazer seu próximo filme com Selton Mello, Nina é um filme bem resolvido e despretensioso, que transforma a neurose e o submundo da cidade grande num misto de David Lynch e o mais gótico das estórias de Batman. Bacana.

Vou precisar de 6 meses de análise depois do filme

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