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Road movie a pé

29.08.08

por Renné França

Andarilho

(Brasil, 2007)

Dir.: Cao Guimarães
Elenco: Gaúcho, Nercino, Paulão

Princípio Ativo:
andar

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Andar faz bem para pensar. Seja apressado e preocupado, ou com tempo de sobra e pondo as idéias no lugar, andar (com rumo ou sem rumo) parece nos colocar em algum lugar de sentido, traçando uma linha objetiva para qualquer que seja a direção.

“Andarilho”, novo filme de Cao Guimarães, acompanha como um observador curioso três solitários em trajetórias diferentes pelo nordeste mineiro. O andar e o pensar encontram-se com a solidão e a loucura, em imagens e sons que buscam não julgar, apenas contemplando o fluxo constante daqueles homens.

Das estradas sempre compondo o fundo dos enquadramentos ao pensamento fluído revelado na fala de seus personagens, tudo no filme se refere à idéia de passagem. Abusando dos espaços vazios, em que a imagem se demora sobre longos e incômodos planos silenciosos de paisagem, “Andarilho” causa reflexão sobre a mente humana e seu embate com a solidão.

A questão sobre o que levou esses homens a se afastarem da sociedade é rapidamente substituída por uma constatação de que ninguém escolhe ser sozinho. E que o silêncio excessivo pode ser devastador para o pensamento que busca desesperadamente por algum tipo de diálogo. As frases sem nexo, misturadas a gestos obsessivamente repetidos, expõem a fragilidade de uma mente solitária belamente fotografada em planos onde a sombra na terra ou o reflexo na água constroem a metáfora dessas personalidades múltiplas, fragmentadas. Se é pelo outro que tenho uma dimensão do que eu sou e do que é o real, a ausência de companhia pode fazer da imaginação a pura realidade.

Em uma época de eterno passar que nunca cessa, a velocidade dos meios trouxe uma quase instantaneidade em que o percurso já não mais importa, podemos ir de um lugar a outro num piscar de olhos. “Andarilho” mostra, entretanto, que o andar permite a reflexão em meio a essa modernidade fluída, trazendo uma nova dimensão temporal distante da tecnologia de carros e aviões.

E é somente quando um dos andarilhos abre um mapa que constatamos que aqueles nômades também caminham em busca de algum objetivo. Eles seguem o fluxo, como todos nós. A diferença, a fundamental diferença, é que eles estão à margem do caminho. Como nos faz questão de lembrar a toda hora a câmera de Cao Guimarães, os andarilhos de seu filme estão sempre na beira da estrada, ocupando o único espaço que lhes é permitido e fazendo dele seu mundo. Andando pelo lado de fora dos nossos caminhos, eles nos mostram que saber para onde ir não quer dizer que sabemos onde estamos.

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Solidão: quando o outro sou eu.

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