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O Apocalipse segundo Saramago & Meirelles

12.09.08

por Daniel Oliveira

Ensaio sobre a cegueira

(Blindness, Canadá/Brasil/Japão, 2008)

Dir.: Fernando Meirelles
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Don McKellar, Alice Braga, Gael García Bernal, Danny Glover

Princípio Ativo:
a coisa sem nome, que é o que nós somos

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Ao sair da sessão de “Ensaio sobre a Cegueira”, você não vai estar feliz, inspirado ou exclamando “que filme bonito!”. É um longa cru, cruel, o elenco usa roupas sujas, ocupa espaços feios e, muitas vezes, faz coisas que envergonham o que entendemos por humanidade. Então, mais provavelmente, você vai estar exausto, nauseado e um tanto deprimido.

Desse ponto de vista, Fernando Meirelles alcançou o objetivo - quase inatingível - de transpor uma história sobre ‘não ver’ para o cinema. Os cheiros, a náusea, os ambientes sufocantes (o aspecto macro) do universo (des)truído por José Saramago estão ali. Faltou o micro: o detalhismo e o escrutínio dos personagens conseguido na literatura e não alcançado no filme.

Em “Ensaio sobre a cegueira”, as pessoas passam a enxergar um branco leitoso que, na visão (com o perdão do trocadilho) do roteiro, é uma metáfora para o fato de que enxergamos, mas não nos vemos. A falta de comunicação é um dos temas centrais do filme. A epidemia branca acaba sendo o ápice de nosso individualismo: passamos a olhar literalmente para dentro de nós mesmos – e descobrir o vazio que lá se encontra. Não por acaso, os personagens não têm nome, nem a cidade.

Meirelles traduz a sintaxe de Saramago, sem pontos nem traços separando narração e fala, na fotografia cuidadosamente descuidada de César Charlone. Regras de composição tradicionais não são seguidas – são raros os planos ‘bonitos’ – como se tivessem sido feitas, realmente, por um cego. A edição ainda joga esses planos num turbilhão que torna bastante difícil ‘ver’ alguma coisa. Num filme sobre cegueira, nada mais natural que o áudio comunique tanto ou mais que as imagens – sentimos e ouvimos mais do que vemos.

E a edição de som é primorosa: dos ruídos que impedem os diálogos no início do filme à belíssima trilha de Marco Antônio Guimarães e o grupo mineiro Uakti – com sonoridades multinacionais, assim como o elenco. Junto às reações da expressiva Julianne Moore, como a única pessoa que mantém a visão, a música é o único respiro de vida em meio à decadência que o filme retrata.

Contudo, há falhas. “Ensaio sobre a cegueira” foca mais nas relações entre os personagens que no delineamento deles. Alguns desdobramentos – como a relação entre os personagens de Alice Braga e Danny Glover – parecem forçados e funcionam melhor para quem leu o livro. A objetividade de Meirelles torna o filme mais dinâmico, mas menos orgânico que sua fonte – a transição da saída da quarentena para a volta à cidade é um bom mau exemplo disso.

Falhas que não comprometem um todo impactante, que toca uma das notas da sinfonia composta por Saramago. E em terra de melodias medíocres, quem alcança uma nota de “Ensaio sobre a cegueira” está bem próximo do rei.

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Chegou a minha vez, pensou.

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