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O velhinho e a moça

20.09.08

por Braulio Lorentz

Marcelo Camelo - Sou

(Sony BMG, 2008)

Top 3: “Doce solidão”, “Janta” e “Liberdade”.

Princípio Ativo:
Saia, areia e bengala

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É um teste para ver se os fãs do Los Hermanos estão mesmo dispostos a seguir com serpentes e fanatismo nesta trajetória solo; ou se pretendem abandonar o barco – ou barquinho, dada a introspecção de parte dos temas de Sou. Só pode. Marcelo Camelo, o Chico Buarque do Tom Zé que seu parceiro Rodrigo Amarante pensa ser, nunca escondeu sua predileção por "velhinhos" (um casal deles, não necessariamente músicos ou tampouco de seu exaltado Bairro Peixoto, protagonizou uma de suas mais belas músicas, “Conversa de botas batidas”) e moças (o modo carinhoso com o qual se refere às mulheres que o cercam, já ouvido em “Além do que se vê”). Os dois tipos que tanto o agradam são peça-chave no debute: um disco acima de tudo boa-praça e envolto em afeto.

Desta vez parece ter resolvido escancarar nas novas composições aquilo do que mais gosta. Quando salpica uma canção com confetes, o faz do modo mais fanfarrão possível, na marchinha “Copacabana”, dos versos "O shopping da Siqueira é um colosso e as gordinhas (!?) um alvoroço" e “O bairro do Peixoto é um barato e os velhinhos são bons de papo”. A mesma voz que aos berros motivou pontapés e socos no ar em shows de hardcore, no fim dos anos 90, agora vai ser trilha sonora da famosa dança em que não é preciso muito mais do que dois indicadores apontados para cima num infinito sobe-e-desce.

Professores de dança de ritmos caribenhos podem desde já incluir “Vida doce” e “Menina bordada” na programação de seus cursos. Ambas deixam de brinde a imagem de um Camelo com uma saia gigante, imitando uma das tantas moças que gravaram suas canções. Orfãos dos Hermanos, por sua vez, devem bater os cílios por “Mais tarde” e “Tudo passa”.

No momento em que resolve cantar baixinho e produzir melodias colantes, o faz munido dos assobios de “Doce solidão”, a mais memorável do álbum; ou em “Téo e a gaivota”, que coloca areia no pé e brisa no rosto do ouvinte. As participações não poderiam ser mais coerentes: uma cantora folk de 16 anos em “Janta” (Mallu Magalhães) e um sanfoneiro de 67 em “Liberdade” (Dominguinhos).

3X4

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