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As pontes de Nova Iorque

02.10.08

por Daniel Oliveira

O visitante

(The visitor, EUA, 2007)

Dir.: Tom McCarthy
Elenco: Richard Jenkins, Hiam Abbass, Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira, Richard Kind, Marian Seldes

Princípio Ativo:
Jenkins, um tambor, os EUA

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Música é poder. Não fui eu quem disse. Foi Richard Ashcroft: é uma resposta às perguntas não feitas. É um convite à festa da vida... e é essa música de que ele falou que traz de volta à vida o professor universitário Walter Vale em “O visitante”.

No início do filme do diretor Tom McCarthy (O agente da estação), Walter finge que trabalha, finge que come, finge que conversa – e provavelmente finge que respira. Ele não vive. Após ouvir de uma professora de piano que “não tem talento para a música”, Walter vai a um congresso em Nova Iorque apresentar um livro que não escreveu. Lá, encontra dois imigrantes, o sírio Tarek e a senegalesa Zainab, morando em seu apartamento.

Num ato inesperado de humanidade, Walter deixa que eles permaneçam até encontrarem um lugar para onde ir. Uma ligação ainda mais inesperada acaba se formando entre o protagonista e Tarek, quando esse último resolve lhe ensinar a tocar tambor. A amizade dos dois preenche o vazio da existência de Walter e culmina em um incidente que muda os rumos do filme - num comentário nada original, mas honesto, sobre os EUA pós-11/9.

A música em “O visitante” não só é a metáfora do desejo de viver de Walter, mas também tem um poder de atravessar pontes e unir esses personagens altamente improváveis. O protagonista se fechou para o mundo quando sua esposa, uma pianista clássica, morreu - e suas aulas de piano são uma forma de viver a morte dela ou de tentar ‘ressuscitá-la’. É na alegria e na novidade trazidas pelo ritmo de Tarek que Walter volta a existir.

Essa transformação é marcada pela própria trilha do filme e pela atuação contida e o rosto expressivo de Richard Jenkins (o pai-fantasma de “A sete palmos”), como Walter. Além dele, McCarthy conta com um elenco afinadíssimo – destaque para a árabe-israelense Hiam Abbass (Munique, A história do nascimento) como Mouna, mãe de Tarek. Isso implica num uso e abuso pouco inventivo de close-ups. O que não incomoda tanto quanto a presença de algumas seqüências e diálogos desnecessários, como a cena em que Mouna entrega um presente a Walter no aeroporto.

São deslizes típicos de um diretor apaixonado por seu próprio roteiro, mas que não estragam o produto final. O que realmente fica da história escrita por McCarthy é esse pequeno tratado de como a música (a arte) pode unir culturas tão diferentes. E de como os EUA são um palco ambíguo para isso: um lugar que exporta obras de força simbólica tão grande para o mundo todo; mas que recentemente tem barrado a própria nascente de onde surgiu esse poder: sua histórica formação imigrante e sua tradição multicultural.

Mais pílulas:
- Apenas uma vez
- A vida dos outros
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Walter e Tarek se preparando para os testes do Olodum.

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