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A mãe

11.10.08

por Daniel Oliveira

O silêncio de Lorna

(Le silence de Lorna, Bélgica/Reino Unido/França/Itália/Alemanha, 2008)

Dir.: Jean Pierre e Luc Dardenne
Elenco: Arta Dobroshi, Jérémie Renier, Fabrizio Rongione, Alban Ukaj, Morgan Marinne

Princípio Ativo:
obsessão pela p(m)aternidade

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Lorna é boa ou má?
Essa é a pergunta que pode passar pela cabeça do espectador e que “O silêncio de Lorna” não quer responder. Assim como os protagonistas dos filmes anteriores dos irmãos belgas Jean Pierre e Luc Dardenne, Lorna caminha em um universo cinza – não há pretos ou brancos, certo ou errado. Há momentos e as escolhas a que eles nos levam.

Lorna é uma imigrante albanesa que se casou com um drogado, Claudy (Jérémie Renier, protagonista de “A criança”), para conseguir a cidadania belga. Agora a quadrilha que a ajudou quer que ela se case com um russo, passando à frente o favor que recebeu. Não seria nada demais, se o tempo não corresse e o divórcio não demorasse. Lorna precisa da (boa) grana que vai receber do russo. Claudy tem que sair da jogada.

Só que ele está tentando se recuperar e, se a protagonista sente uma antipatia pelo rapaz, também nutre uma responsabilidade por ele. E esses sentimentos paradoxais são velhos conhecidos dos Dardenne. Lorna desenvolve uma responsabilidade m(p)aternal por Claudy - a mesma que impulsionava “O filho”, “A criança” e que, em “O silêncio...”, os dois irmãos levam a um outro nível de obsessão.

O estilo de filmagem da dupla continua o mesmo, com a câmera muito próxima dos atores – e a opção de sempre elipsar as revelações melodramáticas em favor da reação dos personagens a elas. Para isso, os dois continuam extraindo atuações impressionantes de seu elenco. E o destaque aqui é, sem dúvida, Arta Dobroshi. Como Lorna, ela nos faz abraçar a humanidade da protagonista – função importantíssima porque parte essencial da experiência pelo qual os Dardenne querem fazer o espectador passar é (quase inconscientemente) torcer por Lorna, mesmo que ela caminhe pelos mais tortuosos dos caminhos.

O único porém é que em “O silêncio...”, os Dardenne optam por uma decupagem que, não fosse pelo realismo obtido na encenação (especialmente nos confrontos físicos entre Lorna e Claudy), poderia ser considerada convencional. Os longos e aflitivos planos dos filmes anteriores são substituídos pelo foco no roteiro (vencedor da categoria em Cannes 2008), que vai deixar muitos insatisfeitamente incomodados ao final da sessão. Jean Pierre e Luc estão, mais uma vez, discutindo questões éticas tão próximas a todos nós quanto complexas - e não é qualquer um que se dispõe a digerir a pedra que eles oferecem. Talvez a questão do início do texto devesse ser:

Lorna é humana ou é boa?
Talvez ela seja as duas coisas. E talvez isso não seja fácil e/ou simples.

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