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Olhos (puxados) de ressaca

12.10.08

por Taís Oliveira

Tabu

(Gohatto, Japão, 1999)

Direção: Nagisa Oshima
Com: Takeshi Kitano, Shinji Takeda, Tadanobu Asano e Ryuhei Matsuda

Princípio Ativo:
ambigüidade

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Nem todas as histórias de amor homossexual são histórias de amor proibido. Algumas são de poder. Talvez essa seja a história de “Tabu”. Quando Sozaburo Kano entra em cena, tudo muda: reações, atitudes - as pessoas não são mais as mesmas. O jovem de dezoito anos (que insiste em manter as longas madeixas) entra numa milícia de samurais após se provar bom na luta de espadas. E a câmera insiste em evidenciar o que já se havia notado: seus olhos, sua boca, seus traços, extremamente femininos.

Por sua aparência andrógina, Kano é cortejado pelos outros samurais, a começar pelo outro novato, Tashiro. O fato não é segredo na milícia e, cada vez mais, fica evidente o interesse de alguns homens por Kano. Homossexualidade entre “militares” no Japão de 1865 é sinal de uma história sobre preconceito, com muito drama e luta pelo direito de ser quem você é, certo? Não.

Mais uma vez, a história aqui não é sobre o amor homossexual e suas conseqüências. Os problemas são desencadeados por ele, mas não existem por causa dele. É apenas uma maneira de trazer à tona o lado mais podre da milícia. Em nenhum momento a homossexualidade é vista como tabu; pelo contrário; é tratada com naturalidade - quase uma questão de “gosto”, no máximo um motivo de piada. Numa análise superficial, o filme revela a suscetibilidade das pessoas à atração, seja por qualquer sexo, e como a paixão vive distante da razão. Mas o que é revelado realmente, o verdadeiro tabu, é o comportamento da milícia, com favorecimentos, perda de foco na causa e, principalmente, fomento aos instintos assassinos.

A ambigüidade no olhar de Kano, indecifrável e inquietante, é acompanhada de cenas de lutas “conceituais” e belíssimos cenários (seria impossível filmar no Japão e ficar feio?). A narrativa é contada com textos que de tempos em tempos interrompem a cena, com um narrador que ora parece ler um livro, ora é onisciente, oblíquo e sarcástico de maneira angustiante.

“Tabu” é crescentemente denso e profundo – o buraco é sempre mais embaixo. Impossível captar todas as nuances do filme, as entrelinhas, impossível sair sem várias dúvidas perturbando a cabeça. E no final, mais uma vez aquela pergunta: quais as palavras tão poderosas, a ponto de serem ocultas? Mais intrigante que Charlotte e Bob Harris.

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Decifra-me ou te devoro.

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