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Rastros (quase esquecidos) de ódio

25.11.08

por Mariana Souto

Terra vermelha

(Birdwatchers – La terra degli uomini rossi, Itália/Brasil, 2008)

Dir.: Marco Bechis
Elenco: Leonardo Medeiros, Matheus Nachtergaele, Taiane Arce, Chiara Caselli, Alicélia Batista Cabreira

Princípio Ativo:
pequeno lembrete histórico

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Há algo de bom e atrativo em “Terra Vermelha”, que não necessariamente sua qualidade como filme. O longa de Marco Bechis nos faz atentar para o fato de que vivemos em uma terra originariamente indígena - tema raramente tratado em nosso cinema. Tanto sob um enfoque histórico ou contemporâneo, taí um tópico que daria bons épicos, filmes de aventura, dramas – entre outras possibilidades - e levaria o público a olhar com atenção para algo que é muito nosso.

Ao conferir ao índio um lugar central, “Terra Vermelha” subverte a sua representação marginalizada pela sociedade, retratada nos próprios brancos do filme. Bechis assume o ritmo indígena, coloca-os para falar em sua própria língua, improvisando e deixando a equipe e os demais atores, brancos, a seu serviço. Essa inversão de poderes é de fato um ponto alto do filme, embora ele ainda caia em algumas representações estereotipadas.

Apesar de sua visão humanista a favor da questão indígena, Bechis transmite uma visão por vezes bastante negativa dos índios. Seu “Terra Vermelha” os representa como extremamente sexualizados, brutos e ambiciosos. Faz lembrar as aulas de História, quando aprendíamos que os portugueses desistiram da mão-de-obra indígena, que consideravam “preguiçosa para o trabalho”.

Ao mesmo tempo, o longa possibilita entender que vários dos males sofridos pelos índios se deve à própria intervenção branca: consumismo, álcool, ganância. No entanto, essas questões aparecem no filme de forma didática e por um roteiro, este sim, preguiçoso, com falas pobres, repetitivas, especialmente as de Leonardo Medeiros. Já sua esposa, a italiana que agencia índios para serem vistos por turistas, parece estar ali apenas para representar a visão do externo, do estrangeiro e discutir a exploração das nossas belezas – ainda que a cena inicial seja bastante forte, e bem construída, nesse sentido.

As atuações do elenco indígena, formado de não-profissionais, são igualmente fortes e potentes. “Terra Vermelha” tem o grande mérito de tratar uma questão relevante por um prisma relativamente original, com a colaboração dos próprios índios na construção da narrativa, mas que por conta de alguma ingenuidade e didatismo não se sustenta como obra contundente.

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Elenco nativo: defendendo o que é seu.

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