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Um natal farto e vazio

30.11.04

por Daniel Oliveira

Um natal muito, muito louco

(Christmas with the Kranks - Estados Unidos, 2004)

Direção: Joe Roth
Elenco: Tim Allen, Jamie Lee Curtis, Dan Aykroyd, Julie Gonzalo

Princípio Ativo:
Um natal etnocentrista e sem significado

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Talvez daqui a uns dois ou três anos “Um natal muito, muito louco” passe a fazer mais sentido nos cinemas brasileiros. Nesse tempo, provavelmente conseguiremos igualar nosso natal ao caos consumista, obeso e ostensivo em que se tornou a comemoração nos EUA. No ritmo em que publicidade, shoppings, luzinhas e papais noéis de roupa barata a cada esquina se transformam no cenário de uma festa cada vez mais vazia, o filme de Joe Roth (“Os queridinhos da América”) pode vir a ser uma ótima sessão da tarde pra assistir enquanto se prepara a ceia.

Tim Allen é Luther Krank, um sujeito que decide viajar com a esposa (Jamie Lee Curtis) para o Caribe, ao invés de comemorar o natal. O que parece ser uma escolha boba é encarada como afronta pelos vizinhos, liderados por um Dan Aykroyd saído dos anos 80, que prezam os “valores natalinos”. A idéia de “pular o natal” é um argumento baseado num livro de John Grisham (Skipping Christmas). Furado, já que na metade do filme a possibilidade de aproveitar o período de festas com algo que não a ostentação gastronômica e comercial do white christmas é vencida pela chegada da filha do casal (a bela Julie Gonzalo), vinda do Peru.
A oposição criada pelo roteiro, aliás, é representativa do etnocentrismo do filme: EUA – natal branco, rico e farto; América Latina – selva, ignorância e abandono, já que a pobre filha não poderia comemorar as festas no meio de “selvagens”; e seu pobre namorado peruano nunca conhecera a bela festa que é o natal norte-americano.

A interpretação de Tim Allen e Jamie Lee Curtis (essa principalmente) à la Zorra Total, exagerando em cenas sem a mínima graça não ajuda. O elenco de coadjuvantes também é fraco, com Dan Aykroyd passando longe dos dias de “Caça Fantasmas”. A direção tem bons momentos, como naqueles em que mostra como é assustadora e agressiva a investida dos vizinhos contra a atitude dos Kranks de não comemorar o natal. A trilha ajuda nessa construção e é outro ponto melhorzinho do filme, com releituras punk-chiclete de clássicos como “White Christmas”.

Sobram belas imagens dos vários símbolos defendidos pelos vizinhos de Luther. No entanto, são imagens vazias e símbolos sem significado. “Um natal muito, muito louco” mostra como a celebração capitalista do natal se tornou um fim em si mesmo, esquecendo-se do conteúdo por trás dela. Se eu me lembro bem, o natal é a história de um menino que veio trazer uma esperança nova para o mundo. E de novo, o filme não tem nada.

Tim Allen e Jamie Lee Curtis: ”Nossa, o preço do peru tá ótimo!”

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