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Cidade sem Deus

19.12.08

por Daniel Oliveira

Gomorra

(Itália, 2008)

Dir.: Matteo Garrone
Elenco: Salvatore Abruzzese, Tony Servillo, Gianfelice Imparato, Carmine Paternoster, Salvatore Cantalupo, Marco Macor, Ciro Petrone

Princípio Ativo:
o lado b da globalização

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Você pode ter lido que “Gomorra” é um filme sobre a máfia e ir para o cinema esperando a trilha clássica, a fotografia dourada e os ternos impecáveis de “O poderoso chefão”.

Se esse for o caso, é melhor você rever os seus conceitos.

O longa do diretor Matteo Garrone, vencedor do Grande Prêmio do júri de Cannes neste ano e adaptado do livro do jornalista Roberto Saviano, é mais próximo do neo-realismo do que de um policial épico. A Camorra, máfia italiana retratada no filme, é exposta como uma engrenagem fundamental e essencialmente contemporânea que realiza o trabalho sujo que move a globalização européia – e não como o country clube de Al Pacino & cia.

E quando digo engrenagem, quero dizer uma enorme máquina. O roteiro de Garrone é estruturado em torno de cinco histórias que mostram os vários braços de um monstro tão invisível quanto onipresente. Dois rapazes encontram um depósito de armas e passam a desafiar os líderes do tráfico de sua vizinhança. Um pau-mandado da máfia enfrenta uma crise de consciência a respeito dos métodos de seus chefes. Um costureiro se arrisca ao se associar com imigrantes chineses. Um universitário se envolve com o negócio tóxico de seu patrão colarinho branco. E um garoto entra para um grupo de criminosos ao esconder uma arma da polícia.

A presença de crianças, aliás, gera as seqüências mais assustadoras do filme – como aquela que mostra a ‘seleção’ dos ‘novos membros’ da camorra.

E quando eu digo novos, eu quero dizer muito novos. Em outro momento, o tal colarinho branco tem dificuldades em encontrar motoristas para seus carregamentos tóxicos e parte atrás de qualquer um que saiba dirigir. Qualquer um. A frieza com que ele faz o abominável é impressionante e, coerentemente, Garrone filma sem trilha musical (há somente trechos de canções populares escutadas pelos personagens), com iluminação natural e longos movimentos de câmera.

Sua abordagem deixa a sentimentalidade para o espectador e se atém aos fatos narrados por Saviano. Nas mãos do diretor, a Camorra se torna uma opção – ou efeito – colateral de um capitalismo ultra-liberal que, ao mesmo tempo em que ostenta riqueza para todo o mundo, priva grande parte dele de algum dia tê-la.

Seus personagens querem simplesmente um tênis, uma moto, uma noitada com prostitutas. “Gomorra” acaba uma mistura de “Cidade de Deus” sem a estetização tarantiniana com “Linha de passe” sem a esperança do longa de Walter Salles – completando um círculo em que o neo-realismo italiano influencia o cinema brasileiro atual que influencia o italiano. E essa globalização toda mostra que a Gomorra do título não é só mais uma cidade – é uma sociedade-mundo.

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