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Aos contadores de histórias

16.01.09

por Daniel Oliveira

O curioso caso de Benjamin Button

(The curious case of Benjamin Button, EUA, 2008)

Dir.: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Taraji P. Henson, Julia Ormond, Tilda Swinton, Jason Flemyng, Jared Harris

Princípio Ativo:
tempo

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(Início da carta de amor)

“O curioso caso de Benjamin Button” é como aqueles causos distantes no tempo, muitas vezes desconexos, longos e lentos com que seus avós – velhinhos, em geral – tendem a monopolizar conversas. Monólogos nos quais eles parecem achar um sentido e uma graça que nós, jovens, simplesmente não conseguimos enxergar.

Eu adoro essas conversas com meus avós. E é um pouco por isso que mal vi passar as três horas da história de Benjamin (Pitt) que, em 1918, nasce velho no corpo de um bebê e rejuvenesce, ao invés de envelhecer. Ele é adotado por Queenie (Henson, de “Ritmo de um sonho”) e cresce em meio aos velhos do asilo onde ela trabalha. Uma existência sépia, que ganha cor quando é invadida pelas madeixas ruivas e olhos azuis da neta de uma das residentes, Daisy (Blanchett, PERFEITA).

Ela é o outro ponteiro do estranho relógio (leia-se vida) que ele tem que percorrer para alcançá-la. Benjamin cresce, ouvindo lições (e causos) edificantes - quase todos os personagens têm uma lição de moral a ensinar ao protagonista e isso pode incomodar os mais cínicos. Mas são essas ‘histórias de avós’ que vão tornando Benjamin, psicologicamente, no que Daisy identifica – fisicamente – como um homem ‘perfeito’.

É esse o paradoxo subvertido pelo conto de F. Scott Fitzgerald: quanto mais aprendemos e melhor nos tornamos, mais fisicamente decrépitos a idade nos deixa. Quando devia ser o contrário. O perfeccionismo técnico do diretor David Fincher transforma isso em imagens com câmeras digitais (e efeitos caríssimos), que permitem um tom crepuscular e escuro que marca a velhice no início do filme e vai ganhando uma matiz technicolor do meio do século XX, à medida que Benjamin fica mais jovem.

A fabulesca trilha de Alexandre Desplat é casada com o tique constante do relógio – da máquina do hospital no quarto de Daisy ao cuco no hotel russo - que traz o realismo melancólico do tempo, tema central do filme. Ele é o carrasco lembrando sempre que quanto mais se ama alguém, mais próximo do fim essa pessoa está. Essa melancolia é o coração que aquece o filme, já que Fincher parecia mais à vontade em “Zodíaco”; e o roteiro aspira inutilmente ao tom épico que seu autor Eric Roth atingiu em “Forrest Gump”.

Racionalidades à parte, “O curioso caso de Benjamin Button” me fez pensar o quanto eu gostaria de que minha vó rejuvenescesse e pudesse viver seus melhores dias com toda a sabedoria que tem hoje. De poder conhecê-la tão bela fisicamente quanto ela é por dentro. E é por isso que me dei o direito de fazer desse texto uma carta de amor a ela.

(Fim da carta de amor)

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Ser (ridiculamente) bonito é foda, né?

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