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Quem tem medo de Richard Yates?

29.01.09

por Daniel Oliveira

Foi apenas um sonho

(Revolutionary Road, EUA/Reino Unido, 2008)

Dir.: Sam Mendes
Elenco: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Michael Shannon, Kathy Bates, David Harbour, Kathryn Hahn, Zoe Kazan, Dylan Baker

Princípio Ativo:
a insustentável leveza da realidade

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“Saber o que você tem. Saber do que você precisa. Saber como viver sem o resto.”

Frank Wheeler (DiCaprio) é um funcionário comum numa empresa de computadores, sem muito empenho, quase medíocre. Mais um chapéu no meio dos milhares na estação de trem da Nova Iorque dos anos 50. Sua esposa, April Wheeler (Winslet), é uma aspirante a atriz fracassada com dois filhos para criar numa casa perfeita no subúrbio.

Eles não são cool. NÃO SÃO especiais. Mas April precisa acreditar nisso para sobreviver. É por isso que ela quer ir para a França, onde Frank poderá descobrir o quão maravilhoso e talentoso ele realmente é. É um sonho patético. E entre a incapacidade de lidar com a realidade e a impossibilidade do sonho, April e Frank se tornam dois fantasmas miseravelmente fingindo a vida que se espera deles.

“Ninguém esquece a verdade. As pessoas simplesmente aprendem a mentir melhor.”

Mas o autor Richard Yates é cruel com seus personagens e coloca o vizinho louco John (Shannon, assustador) dentro da casa dos Wheeler para mostrar o quanto os dois fingem mal, com suas roupas em tom pastel, seus drinques-anestésicos e seu ‘vazio sem esperança’. John, claramente a projeção de Yates dentro da história, é o mais lúcido ali.

A crueldade se estende aos diálogos. April e Frank descrevem seus sonhos com frases rasas e superficiais. A crítica de Yates é menos à hipocrisia dos subúrbios e mais ao quão digno de pena é esse casal. Os dois se acham melhores que os vizinhos, enquanto ignoram que um casamento se alicerça mais na deliberação racional de dividir os fardos da realidade com outra pessoa do que no patético ideal de amor romântico (infeliz invenção do século XII) que suas ilusões cultivam.

Ele é um caráter fraco que transa com a secretária para esquecer que não consegue fazer a esposa feliz – e o rosto de DiCaprio toda vez que Frank se da conta disso é a imagem mais desoladora do filme. Ela olha para o subúrbio como um mundo ao qual não pertence e a fotografia de Roger Deakins mostra isso no reflexo da rua no vidro, fantasmagórica, irreal. Nada jamais fará April feliz, retirando a expressão sonhadora e deprimida do rosto de Winslet. E isso destrói não só a ela, mas principalmente Frank.

“Eu estou feliz por não ser essa criança.”

“Foi apenas um sonho” resulta, assim, num filme acre, cáustico, bem distante do seu entretenimento de sexta à noite. E, com exceção da trilha musical, o diretor Sam Mendes não concede nenhum arroubo artístico para tornar a experiência do público mais agradável. É uma pílula difícil e quem tiver estômago para engolir – e olhos para ver – que se arrisque.

Mais pílulas:
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“Weeeeeee'll staaaay foreeever this waaay...” NOT.

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