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O lutador

19.02.09

por Daniel Oliveira

Milk - a voz da igualdade

(Milk, EUA, 2008)

Dir.: Gus Van Sant
Elenco: Sean Penn, James Franco, Emile Hirsch, Josh Brolin, Diego Luna, Alison Pill, Dennis O’Hare, Anita Bryant

Princípio Ativo:
paixão política

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A plataforma de Harvey Milk foi a crença de que é possível mudar o jeito como as coisas são. Entre suas principais adversárias políticas, estava uma mulher que usava a religião para promover agendas assassinas. E uma Proposição, 6, que negava direitos civis com base no que as pessoas faziam com suas genitálias.

Harvey Milk foi assassinado 30 anos atrás.

E é porque, apesar de suas lutas, vitórias e das sementes plantadas, as coisas não mudaram tanto assim quase nada que “Milk – a voz da igualdade” é um filme político. De discursos, discussões e afirmações políticas. O longa não ignora que, como todo homem com pretensões de salvar o mundo, o protagonista vai deixando aos poucos de salvar a própria vida (a cláusula Jack Bauer desse contrato). A emoção não vem dos seus dramas pessoais, porém, e sim da paixão com que ele abraçou a defesa “não de uma causa, mas do meu direito de viver”.

Sean Penn, da mesma forma, abraça Milk com o fervor político pelo qual é conhecido. Sua interpretação não se limita aos trejeitos: está no olhar, no charme peculiar e na fé com que o personagem proferia seus discursos em cima de um palanque. Ele é assessorado por James Franco, Emile Hirsch e Josh Brolin, também excelentes – com destaque para o último e sua difícil tarefa de encarnar o assassino do protagonista.

Gus Van Sant faz questão de realizar um filme clássico, longe de suas experimentações habituais. Mesmo com o tom documental dado pelas várias imagens de arquivo, o filme ganha unidade visual com a fotografia de Harris Savides, granulada e agitada como o Super-8 dos anos 70. E a trilha musical de Danny Elfman, dramática como as óperas de que Milk gostava, é o condutor emocional da aspereza e do peso dos discursos políticos.

O objetivo é claro: atingir o máximo de pessoas possível. Porque, tanto tempo depois da luta de Milk, nós ainda vivemos em um mundo em que declarações criminosas são institucionalizadas, inconsequentemente guiando 1 bilhão de pessoas ao ódio, à discriminação e à violência. Um mundo em que uma moral religiosa decadente é usada para mascarar o preconceito.

Mas se indivíduos podem fazer isso, um Estado dito laico dito liberal dito de Direito não pode. Não são os gays que são sujos. É o sistema que é. E “A voz da igualdade” mostra exatamente a transformação de Milk, que aprende esse jogo sujo para tentar fazer algo de bom com ele.

Porque enquanto não assumirmos que somos todos parte desse sistema, continuaremos a fazer piadinhas infelizes e criar nossos filhos para infernizar o coleguinha afeminado. E a pensar “o que eu fiz errado?” quando esses mesmos filhos nos disserem que são gays. E a justificar nosso preconceito com a desculpa de que a ‘mudança’ vai ficar para a geração seguinte.

Mais pílulas:
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Essa aqui é dedicada a sua santidade nazistidade, o papa.

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