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Encontros (e desencontros) de gerações

26.02.09

por Rodrigo Ortega

War Child: Heroes

(2009)

Top 3: "Heroes", "Sheena is a punk rocker", "Atlantic City"

Princípio Ativo:
Continuidade

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De um lado, Paul McCartney, David Bowie, Bob Dylan e outros medalhões da música pop. Do outro, Duffy, TV On The Radio, Estelle e os artistas mais festejados da cena atual. Esse encontro de gerações acontece na coletânea Heroes, produzida pela ONG War Child, com o objetivo de arrecadar fundos para as crianças de países atingidos por guerras. Quinze artistas consagrados dos anos 60 e 70 escolheram quinze bandas ou cantores atuais para regravarem uma de suas canções.

Passada a surpresa com a boa idéia do projeto e a ótima seleção de artistas, a audição do disco é uma oportunidade de conhecer na prática as semelhanças e diferenças entre a clássica geração musical de quarenta anos atrás e a de hoje. Clichês como "a juventude se tornou menos idealista", "não se preocupa mais com música, apenas com marketing" e o velho "o sonho acabou" são postos à prova.

Algumas releituras são feitas com entusiasmo e carregadas de tom passional. A energia quase adolescente dos norte-americanos do Hold Steady dá nova vida a Atlantic city, de Bruce Springsteen. Mas outros caem no exagero, como a cantora britânica Duffy, maior vencedora da última edição do Brit Awards, que carregou demais no açúcar em Live and let die, de Paul McCartney.

A devoção aos modelos musicais torna algumas faixas burocráticas e descartáveis, como "Victoria", dos Kinks, tocada pelos Kooks (nem o nome mudou muito). A cantora bagaceira Peaches amarela diante de "Search and Destroy" do bagaceiro-mor Iggy Pop.

Mas uma boa surpresa é ver que o clichê "nada se cria, tudo se copia" também não pode ser generalizado. O Hot Chip foi mais longe na "heresia": tirou o peso e a profundidade de "Transmission", do Joy Division e realçou os elementos dançantes e o tom robótico do vocal original de Ian Curtis. Eles se aproveitam da oportunidade oferecida pela coletânea a esta nova geração, com menos barreiras tecnológicas e culturais no estúdio, de se apropriar de um repertório mais consistente do que eles já conseguiram criar.

Neste sentido de fornecer aos gênios de estúdio composições geniais, o clímax do CD é a sua faixa homônima, "Heroes", de David Bowie, desconstruída pelo quinteto nova-iorquino TV On The Radio. A música se torna mais estranha, psicodélica, mas o riff original permanece intocado, mantendo o tom épico. Beck também usa um processo parecido para refazer "Leopard-skin pill-box hat", de Bob Dylan.

Em outro sentido menos "cerebral" e mais preocupado com o objetivo inicial do rock, a diversão, o disco também traz obras-primas tocadas com o intuito de manter sua energia original. O melhor exemplo é "Sheena is a punk rocker", dos Ramones, em que a vocalista Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs, encarna Joey Ramone e a banda aumenta o peso sem perder a crueza da versão original. O Franz Ferdinand usa de outro artifício para manter a energia: sua gravação de "Call me", do Blondie, é a única ao vivo do disco e mais um argumento para a conclusão: a história da música pop tem menos rupturas do que os rótulos que surgem a todo dia fazem parecer.

(O CD não foi lançado fisicamente no Brasil, então você não vai sacanear as criancinhas se baixar por aqui - Valeu Taís!)

Karen is a punk rocker now

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