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Menino felizinho

30.03.09

por Daniel Oliveira

The rebirth of Venus

(New West, 2009)

Top 3: I love pop music, Sing, Families cheating at board games

Princípio Ativo:
o menino mais feliz do mundo

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Conceitualmente, “The rebirth of Venus” deveria ser uma saudação de Ben Lee à feminilidade. Até parece que Lee entende o que “conceitualmente” significa. O australiano de 30 anos, com idade mental de oito, simplesmente continua no novo CD sua incansável tarefa de mostrar que ser feliz é possível - e vale a pena.

@ Yoko Ono “Não é um trabalho fácil / ser o único dizendo sim / quando o mundo todo diz não”

Lee não quer salvar o mundo. Ele quer provar que ir a um parque de diversões e depois fazer uma festa é uma ideia bem melhor e mais divertida. Suas letras são como potes de twitters de felicidade, dos acordes iniciais de What’s so bad (about feeling good)? ao coro de Song for the Divine Mother of the Universe.

@ I love pop music “Eu amo música pop / política que se pode romantizar / eu amo música pop / salpicada com açúcar / filosofia que se pode dançar”

I love pop music sintetiza toda a obra de Ben Lee. A (quase) narração das estrofes, sobre o preço do petróleo, fome e guerras, é respondida com um dos refrões mais grudentos de sua carreira, provando que esse é o CD que pode nos manter vivos durante o apocalipse financeiro. Quando Lee enxerga algo ruim no mundo, o máximo que ele consegue é:

@ Families cheating at board games “Quero me libertar / esse mundo está insano / tudo o que eu vejo é famílias trapaceando em jogos de tabuleiro”

O que, sim, é um sinal de que Ben pode ser mentalmente retardado. Mas é um retardamento positivo – bem mais espontâneo e autêntico que “Simplesmente feliz”, de Mike Leigh (por isso resolvi resenhar o CD e não o filme). Lee é do tipo que assume que foi um garoto com uma Barbie e que ‘também é uma mulher’. Ou seja, um filho de vó.

@ Boy with a barbie “Garotos com Barbies / e garotas com arminhas de brinquedo / nós não temos que seguir as regras deles”

É uma linha fina e perigosa, que não soa afetada graças à volta da despretensão da produção de Brad Wood (o mesmo do ótimo “Awake is the new sleep”), que fez falta no álbum anterior do rapaz. A simplicidade melódica de Wood, com seus sons infantis, é o casamento perfeito para letras como:

@ Bad poetry “Amar você me faz querer escrever poesia ruim”

e é o que faz com que a alegria de Lee não descambe para a auto-ajuda. A parceria torna quase impossível não rir e dançar sozinho na rua ouvindo “The rebirth of Venus” que, com sua capa Botticelliana, acaba mais uma saudação à humanidade do que à feminilidade. Apesar de inquisições, guerras, preconceitos e humilhações, a gente ainda é capaz de produzir obras de arte como essas, não? O que está quase me convencendo a passar a escutar Ben Lee, ao invés de Rufus Wainwright, quando estiver deprimido.

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