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A festa dos monólogos

12.06.09

por Renné França

A festa da menina morta

(Brasil, 2008)

Dir.: Matheus Nachtergaele
Elenco: Daniel de Oliveira, Jackson Antunes, Juliano Cazarré, Dira Paes, Paulo José, Cássia Kiss

Princípio Ativo:
monólogos & animais

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Em uma cena de “A Festa da Menina Morta”, Santinho (Daniel de Oliveira) discute com Tadeu (Juliano Cazarré) sobre a importância da tal festa que dá nome ao filme. A princípio distantes e em confronto, eles são colocados em cantos opostos da tela para, em seguida, serem enquadrados grudados, demonstrando o entendimento entre os dois. Ao fundo, o som gutural de um porco sendo sacrificado surge como a representação de uma fé que agoniza nos confins do Brasil.

Estão aí as principais qualidades do diretor estreante Matheus Nachtergaele: um talento notável para a composição de imagens e boas metáforas visuais. Pena que isso não seja o suficiente para se fazer um bom filme.

Claramente influenciado pela obra de Cláudio Assis, o longa apresenta personagens repugnantes que são constantemente associados aos animais e a toda a sujeira que trazem em suas entranhas. Santinho é tido como o milagreiro que escuta o espírito de uma menina, ao mesmo tempo em que ressente a falta da mãe e possui uma relação incestuosa com o pai (Jackson Antunes). Tudo isso é apresentado sem pressa, às vésperas da festa que celebra a morte da garota, com longos planos que buscam traduzir a calmaria de uma religiosidade que esconde os defeitos da natureza humana. Tadeu, irmão da menina morta e amigo de Santinho, parece ser o único a enxergar a degradação de tudo à sua volta, apesar de não saber muito bem o que fazer para evitá-la.

Entre belas e repulsivas imagens, Nachtergaele peca no ritmo e em planos totalmente dispensáveis. O diretor insiste em longas tomadas de animais, objetos ou cenário entre uma cena e outra, provavelmente em uma tentativa de estabelecer um tempo de narrativa próximo àquele em que se dá a ação da história. O resultado é cansativo e transforma o que deveria ser angustiante em chato.

Daniel de Oliveira faz um ótimo trabalho como o temperamental e afeminado milagreiro, mas as atuações são desiguais, com alguns se saindo muito bem (Cazarré) e outros em interpretações claramente forçadas. Os monólogos não ajudam. A todo o momento, um personagem está falando para o nada, alheio em seus pensamentos e ignorando o mundo à sua volta (até Paulo José e Cássia Kiss, em participações especiais, tem direito ao seu). Poderia ser uma boa ferramenta de representação da incomunicabilidade entre aquelas pessoas, mas mais uma vez o excesso prejudica a obra.

Pensado como produto de um diretor estreante, “A Festa da Menina Morta” traz algumas qualidades que podem apontar para um talento nascente. Mas visto como o filme que é, acaba por se revelar pretensioso e enfadonho.

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A festa da menina morta.

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