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Anatomia de um semicadáver

14.06.09

por Daniel Oliveira

Intrigas de estado

(State of play, EUA/Reino Unido/França, 2009)

Dir.: Kevin Macdonald
Elenco: Russell Crowe, Rachel McAdams, Ben Affleck, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jeff Daniels, Viola Davis, Jason Bateman

Princípio Ativo:
jornalismo em extinção

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“Intrigas de estado”, adaptação de uma minissérie da BBC de 2003, parte de concepções bem atuais: por um lado, a de que a política é dominada por grandes corporações, enquanto políticos se perdem em escândalos e viagens egocêntricas. Por outro, a de que o jornalismo sério, investigativo e idealista está em vias de extinção, enquanto blogueiros (e jornalistas online em geral) destroem a profissão com fofocas, especulações e superficialidade.

Ironia mode on Porque, sim, quando ele chegar, o apocalipse será anunciado pelas trombetas de sete blogueiros (que não terão checado a informação com mais de uma fonte), enquanto RP’s promovem orgias devassas, com vários balões e recepcionistas, usando o dinheiro público (outro estereótipo arquétipo – hilário – presente no filme). E os jornalistas do impresso? Eles já terão morrido de fome até lá. Ironia mode off

Mas enquanto o fim dos tempos não chega, eles são interpretados por astros do naipe de Russell Crowe, como o protagonista Cal McAffrey. Ele é o repórter ‘old school’ que descobre a ligação entre um assassinato de rua qualquer e o suposto suicídio da amante do deputado Stephen Collins (Affleck, PÉSSIMO), amigo de Cal e presidente de uma CPI que investiga a terceirização de empresas de segurança na guerra do Iraque. Rachel McAdams é Della Frye - a blogueira vã, mas com potencial, que aprende lições de jornalismo com o repórter ao ajudá-lo na investigação.

O clima é tenso: a trilha é cheia de tambores que parecem sempre prenunciar algo bombástico, a fotografia é escura, com preferência por cenas à noite, e o tempo está quase sempre fechado, hostil aos jornalistas que buscam a luz da verdade. Qualquer semelhança não é mera coincidência: o diretor Kevin Macdonald homenageia abertamente “Todos os homens do presidente”. E às vezes exagera: uma montagem em que Cal, Della & cia. batem de porta em porta atrás de informações é descaradamente copiada do inspirada pelo longa de Alan J. Pakula.

Com exceção de Ben Affleck, que apresenta (mais) uma performance pífia em cenas fortes que dariam a qualquer ator mediano uma indicação ao Oscar, o elenco é afinadíssimo. Robin Wright Penn, especialmente, faz valer ouro suas poucas cenas como a esposa do deputado.

Mas o roteiro (de Tony Gilroy, Matt Carnahan e Billy Ray) tem bastante mérito aí, com alguns bons diálogos e boas caracterizações – Cal, por exemplo, está sempre se alimentando mal como todo bom repórter. São essas representações bem construídas, mais que as reviravoltas sem nada de novo, que valorizam o filme. São elas que renderão (longa) vida ao longa nas aulas de jornalismo, quando professores falarão de um tempo em que se lia notícia no papel.

Mais pílulas:
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Robin: Jornalistas não usam essas pulseirinhas nem esse cabelo ridículos.

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