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Quando mente o coração

26.06.09

por Daniel Oliveira

Desejo e perigo

(Se, jie, EUA/China/Taiwan/Hong Kong, 2007)

Dir.: Ang Lee
Elenco: Wei Tang, Tony Leung, Lee-Hom Wang, Joan Chen, Chung Hua Tou

Princípio Ativo:
Ang Lee, mestre, cinema

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Com “O Segredo de Brokeback mountain”, Ang Lee descobriu não só que “o amor é uma força da natureza”, mas que o cinema também é. Porque, apesar de milhões de pessoas no mundo todo terem chorado pelo romance de Ennis e Jack, ele era uma mentira. Falso. Encenado.

Daí a pergunta: e se alguém se desse conta do poder desse amor encenado e fizesse uso dele? É o que faz a protagonista de “Desejo e perigo”, Wong Chia Chi. Ela é a jovem recrutada pela resistência chinesa durante a Segunda Guerra para seduzir o militar Yee, membro do governo que colaborou com a invasão japonesa.

Em poucos minutos de história, Lee estabelece por que Wong vai tomar as arriscadas decisões que conduzirão a história - ela foi largada pelo pai, perdeu a família, não tem nada a perder. E as cenas de sexo, que causaram polêmica quando o filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2007, são fundamentais – além de belissimamente fotografadas por Rodrigo Prieto.

Na primeira, o cineasta taiwanês caracteriza toda a personalidade de Yee em uma única cena – e mostra ao público por que ele deve ser assassinado. Nas outras, Lee usa do realismo explícito do sexo para questionar o público: por mais que Wong seja uma boa atriz, seria ela realmente capaz de fingir essas sensações? É o mesmo questionamento que o cinema moderno se faz e é, ao mesmo tempo, uma declaração de amor à arte da atuação, no que é fundamental a performance impecável da semi-estreante Wei Tang como a protagonista.

Porque a trágica saga de Wong que, em uma primeira camada, é uma releitura dos dramas clássicos de Hollywood – na direção de arte impecável, na cidade que não esconde a artificialidade típica dos cenários dos estúdios nos anos 40, no visual de Wong inspirado em Ingrid Bergman – é elevada por Lee a um nível bem mais interessante. A protagonista começa como uma atriz em um grupo teatral de Hong Kong, cuja apresentação remete ao cinema mudo (1). Seu talento faz com que seus colegas revolucionários a usem na primeira (pífia) tentativa de seduzir Yee, artificial como o cinema clássico (2). Mais tarde, ela volta a entrar na vida do militar, num jogo de sedução ambíguo e perturbador, realista como o cinema moderno (3).

“Desejo e perigo” se torna, assim, uma grande homenagem ao cinema, realizada por um mestre da direção. São duas horas e quarenta de pura beleza e domínio da linguagem (o jogo de sedução de Wong e Yee é tão sublime e hipnótico quanto os trinta primeiros minutos de Brokeback), que provam mais uma vez que Ang Lee é um dos maiores cineastas vivos. E eu não tenho medo de terminar a resenha nesse tom deslumbrado. O filme merece.

Mais pílulas:
- Clássicos na prateleira - “A Um Passo da Eternidade”, de Fred Zinnemann
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Wei Tang e toda uma história do cinema por trás desse rosto.

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