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Coffin Joe’s religion

por Renné França

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“Sou religioso. Não sou praticante, mas tenho lá meu São José, minha Virgem Maria. Tenho a impressão de que desceu um anjo do céu...”. A frase não era exatamente o que eu esperava ouvir do homem que virou sinônimo de terror. Mas é assim que José Mojica Marins comentou a seleção de “Encarnação do Demônio” para o Festival de Veneza, onde será exibido fora de competição.

O filme, que levou 40 anos para ser feito, já venceu o Festival de Paulínia e aguarda sua maior provação: o público. Em cinema brasileiro, acontecimento maior só mesmo se Mazzaropi voltasse com seu Jeca Tatu. Em uma tarde - nada assustadora - o homem cujo personagem já inspirou carro, cachaça e até desodorante, falou sobre aquilo que, segundo ele, é sua religião: o cinema. Sendo assim, nada melhor do que dividir a conversa em 10 mandamentos de alguém que aprendeu a fazer filmes na marra.


José Mojica, à frente. Zé do Caixão, atrás. (foto: Renné França)

1- Nunca desistirás

Em 63, eu tinha um problema: trabalhava com uma equipe que não acreditava em mim. Me sentia sozinho porque o conselho dos amigos era “não faça”. Filmava uma coisa que eu levava a sério e os caras contando piadinha e rindo. Não tinha com quem trocar idéia. Agora o Paulo [Sacramento, produtor do filme] me deu carta branca total. “Encarnação” vai ser minha marca registrada.

2- Não cobiçarás as tentações tecnológicas

A primeira coisa que eu queria (em Encarnação) era fazer tudo artesanal. “Por que você não faz isso no computador?”. Pô, não me fala em computador. Vieram trabalhar comigo, pra ver o meu cinema artesanal e, de repente, vêm com isso de computador! A tecnologia à minha disposição foi usada para fazer o céu vermelho. O purgatório cor de sangue. Se não fizesse com o raio do computador, eu fazia de pano!

3- Não desprezarás o visual

Glauber dizia, “dê aula para os meus discípulos, porque eles fazem fitas que não saem da gaveta”. Mas as fitas do Glauber também não tinham público. Por quê? Você tem que mostrar o visual. Não adianta falar que o mundo é dos feios, que é mentira. O pessoal quer ver gente bonita! A coisa que pega mais no terror é o homem feio torturando a mulher bonita. A feiúra tem a sua vez. Mas hoje vai ai ao médico, manda fazer uma cirurgia plástica. Tem solução pras feias sim, é só ganhar dinheiro.

4- Cuidarás da história

Tive comigo o Dennison Ramalho [roteirista], que é doido por quadrinho como eu. O único problema é que ele dá a idéia, mas não o motivo pra ela acontecer. “Mojica, pra que se preocupar com motivo? É cinema!”. Mas não. O público quer saber por que. Eu cheguei a fazer um teste muito legal: você pega o cara, enche de verme e a mulher tinha que abrir e enfiar a língua. E é bacana. Mas tem que ter uma razão. E eu não tinha uma pra pôr isso.


Mojica, pronto para abraçar o público... (foto: Renné França)

5- Comerás quando puder

Na minha época, eu tinha que pedir pro pessoal ser compreensível, comer os pãezinhos que vinham. E a gente tinha que cortar a mortadela fininha. Nessa fita, não. Tinha marmitex, comida à vontade... isso me deixou muito satisfeito. Foi uma das coisas que eu nunca tive. Fazer café da manhã no cemitério foi uma coisa fantástica. Até janta foi feito lá, com aquelas baratonas voando. Foi um negócio diferente.

6- Assustarás aos próximos como a ti mesmo

Teve uma fita que, quando tinha uma cena forte, eu punha um intervalo com os dizeres: “Se você está grávida, não fica na sala. Se você tem problema, saia e volta depois!” Mas agora se você parar e pedir pro pessoal sair, não vai dar certo. Essa é uma fita que começa no cinema e termina no pesadelo de cada um. Muitas pessoas falaram que estão tendo pesadelo. Muita coisa foi inspirada em pesadelo, então a fita é pra isso mesmo.

7- Amarás ao cinema sobre todas as coisas

Veneza... sei lá, viu. Passei uma única vez por Veneza e imaginei... “Se um dia eu pudesse, mas não posso, faço uma produção que, pra ser bacana, tem que ser de terror. Não vou fazer uma fita só pensando em Veneza”. Minha religião é o cinema, sou amante do cinema, traio minha esposa com o cinema. Eu via como uma fantasia, um sonho jamais realizado. Mas quero ver a reação. Disso é que eu tenho medo. De repente, eles pensam que eu fiz um terror romântico. E não é nada disso, né? Ou um terror desses que os americanos fazem, que não diz nada, não mostra nada. Será que eles estão preparados?


Criador e criatura. (foto: Renné França)

8- Não desejarás o cinema do próximo

Eu tive propostas da Inglaterra, Espanha. Mas lá um copia o outro. As pessoas procuram os vampiros... sei lá... parece que não têm criatividade. Vão buscar Frankenstein, Múmia. Acho que não me daria bem não fazendo coisa brasileira. Temos que fazer fita nossa, tupiniquim, que sei que todo mundo vai aplaudir. Sempre que eu estive lá, falaram “Mojica, nós é que temos que plagiar vocês, e não vocês tentarem plagiar a gente”. E é verdade. Não sei pra onde um ou outro dispersa e esquece desse legado que nós temos, as lendas, o folclore: Saci Pererê, Mula Sem Cabeça. E eu faço parte dessa lenda agora. Queira ou não, se eu morrer amanhã, tenho certeza de que as pessoas vão dizer que me viram voando numa vassoura, atravessando parede, que eu era um feiticeiro...

9- Levantar-te-ás contra falsos testemunhos

Quando fui pela primeira vez a Brasília, em 68, me levaram para conhecer o pessoal que me censurava, que declaravam que eu tinha que ser morto, preso! Vários deles pegaram em mim para ver se era de carne e osso. “Você dorme em caixão? Come barata?”. Porra, eu faço um personagem e os caras misturam criador com criatura. Aí eu abri a boca: falei que nós estávamos na mão de ignorantes censurando nossa cultura! E aquilo que eles não entendiam chamavam de trash. Onde pode se dizer que filme de baixa renda é trash? Trash é aquilo que não tem sentido. Era discriminação. Discriminação com o terror, o místico, a comédia. Eles chamavam isso de trash.

10- Honrarás público e produtores

Já no finalzinho, pergunto se esse é o último filme do Zé do Caixão. Mojica é obrigado a lembrar que cinema é, além de tudo, dinheiro. “Temos três dias para dizer se continua ou se morre o Zé do Caixão. Se estourar no cinema, o Zé vai ressuscitar”. Ele olha nos meus olhos e, quando eu já esperava uma praga horrível por fazer a pergunta, José Mojica sorri e conclui à la Pedro Bial: “O povo é que vai decidir se o Zé fica ou se o Zé sai”.

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