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A seleção

por Daniel Oliveira

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“O Walter Salles, ao fazer esse filme comigo, está fazendo com várias pessoas. Não é uma co-direção, é um filme muito mais coletivo do que as outras experiências que ele faz”. É como a co-diretora Daniela Thomas descreveu a experiência de fazer “Linha de passe”, na coletiva de imprensa em Belo Horizonte, na última semana.

“O Maurinho [Pinheiro Jr., diretor de fotografia] imprimiu muito a personalidade dele nas cenas, os meninos [atores] também. Todo mundo se identifica na autoria, a própria Sandra. O Kaíque [de Jesus Santos, ator de 15 anos] dirigia cenas.”

O longa é resultado de um grupo, um coletivo – como um time de futebol, referência forte no filme. A linha de passe de Salles e Thomas é composta por 11 jogadores do primeiro escalão. E de hoje até sexta-feira, o Pílula Pop apresenta essa escalação, revelada a nós por Daniela Thomas e Sandra Corveloni, melhor atriz no último Festival de Cannes.

Camisa 1: Daniela Thomas & Walter Salles

Daniela Thomas: No “Terra estrangeira”, eu podia dizer com bastante facilidade: eu ficava com a parte da encenação, da dramaturgia, e o Walter na câmera. No “Linha”, não dá. Na verdade, ele me chamou para ser diretora de arte dele em 92. E eu sou muito Bidu, entrona e, quando vi, estava escrevendo o roteiro do “Terra” com ele. Daí fiz um curta (que acabou nos extras do DVD do filme) e ele falou “peraí, vamos fazer o longa juntos”.

E acompanhar o Walter filmando é como um jovem cientista acompanhar um prêmio Nobel. Eu não tô exagerando. Cinema é uma língua muito própria e o Walter é um exímio falador dela. Ele sempre me deixou à vontade: a gente opina, conversa. Hoje em dia, nem precisamos falar muito no set e nos comunicamos de formas bem sutis. E esse filme, diferente de outros que o Walter faz, foi bem pouco desenhado. A gente via os ensaios, depois montava uma forma de filmar, super discreta, para não forçar marcações muito fixas. E agora eu me sinto contribuindo mais, no sentido da imagem, do que antes.


Daniela & Walter: Pink e Cérebro, Cérebro e Pink.

Camisa 2: O realismo

DT: O Walter tem uma teoria de que, no Brasil, a ficção tem que correr atrás porque a realidade é inacreditável. Três dias atrás, um menino de 13 anos roubou um carro em São Paulo. Uma empregada doméstica caiu do 27º andar. No filme, tem o menino que rouba o ônibus. Isso aconteceu em São Paulo: um menino de 13 anos procurando o pai queria fazer uma coisa mirabolante para ver se ele aparecia. Fomos entrevistar achando que era um, mas ele roubou 32 ônibus. Começou a gostar da idéia: pegava umas partes e vendia, virou um bandidinho. Mas no começo, era apenas uma criança querendo achar seu pai.

Camisa 3: O documentário

DT: Geralmente, o Walter propõe uma idéia, um sketch do que ele quer tratar, e um roteirista e eu encaramos o projeto. Junto com a linha de passe, havia também a proposta de trabalhar com os documentários feitos na casa, na Videofilmes. São vários, especialmente os do - João [Moreira Salles, irmão do Walter]: um é o “Futebol”, outro chamado “Santa Cruz”, sobre a fundação de uma igrejinha evangélica no Rio de Janeiro; e os filmes de uma série: “Um dia qualquer”, “Família Brás”... e teve outro que a gente viu mais tarde no processo, chamado “Motoboy vida louca”. Esses foram os nossos apoios para começar a pensar nos personagens.


O homem, a cidade e o horizonte inexistente.

Camisa 4: O filme de estrada

DT: A cidade não deixa os personagens chegarem a lugar algum. Ela não tem horizontes, nunca acaba. Mas o filme de estrada realmente é uma influência fortíssima. Mesmo parado, o filme tem que andar. E foi tão difícil filmar movimento em uma cidade parada que nem São Paulo. Só para chegar no set, era uma hora e meia. A idéia de movimento é uma espécie de parente do cinema. Tem algo mimético entre fazer cinema e falar sobre movimento. Um estímulo em ver o arco do personagem, a transformação dele, tirá-lo de um lugar.

Camisa 5: O talento e a falta de oportunidade

DT: Quando a gente discutiu sobre fazer esse filme, um dos assuntos era a tragédia que é a falta de oportunidades, quando se é tão talentoso, cheio de esperança, de vontade de viver. Viver plenamente é um direito de todos nós. E no Brasil, a condição econômica quase determina a vida de uma pessoa do começo ao fim. É uma injustiça terrível.

A questão da oportunidade, do talento, é algo universal. Mas em um país como o nosso, no qual a pobreza é muito maior do que em outros, ela talvez seja mais sensível.


O talento da linha de passe.

Camisa 6: A religião

DT: Pra mim, pessoalmente, foi o maior desafio. Por causa das pessoas que trabalham na minha casa, perto de mim, e que são evangélicas. Todos os crentes no filme são crentes, com exceção do pastor, da mulher dele e do assistente, que são atores. Eles se encontravam, mais ou menos 90 pessoas, pra treinar, cantar.

Os hinos são como um mantra, um transe. No dia da filmagem, a gente passou o dia cantando, cantando e eu o Beto Audi (que faz o pastor) ficávamos no púlpito, ensaiando as preleções com as pessoas: como um pastor falaria etc. Todas as pessoas deram opiniões, modificaram. Foi uma catarse, impressionante. E é fortíssimo. Foram dois ou três dias. E a busca por um ator que se convencesse de que não havia nenhuma caricatura a ser buscada foi muito grande; de que aquele personagem era uma pessoa com muito carisma e que se comunica quase como de pai pra filho com cada um dos fiéis.

Camisa 7 A ausência do pai

DT: Os filmes que eu fiz com o Walter – e os filmes do Walter, em geral – têm uma coisa única, que é a ausência do pai. Depois do "Linha" pronto, a gente viu uma matéria n’O Globo”, que dizia que 25% dos lares brasileiros são comandados pela mãe, sem pai. É um número incrível. E nos bairros mais humildes, talvez seja muito maior essa porcentagem. E a linha de passe, aquele joguinho em que a bola não pode cair, você fica passando de um pro outro, é justamente isso: trocar a pátria ou a mátria pela frátria – trabalhar na horizontal, contar com seus irmãos, com as pessoas que estão vivendo as coisas mais ou menos na mesma intensidade que você. Contar com si próprio e com seus pares.


A família que conquistou Cannes.

Camisa 8: Cannes

Sandra Corveloni: Eu não tenho muita noção, na verdade. Sei que é super importante. Fiquei feliz. Claro que isso traz visibilidade, mas hoje, no avião vindo de Recife, eu comecei a lembrar do processo e me deu uma saudade do set, das pessoas, do estar lá, naquele movimento. É o mais prazeroso: ensaiar, descobrir as coisas. Me lembro de tantos momentos de euforia, de sair do ensaio e falar “meu Deus, esse processo podia acabar aqui. Pra mim, tá bom”. De tanto êxtase, um dia eu saí e falei isso pros meninos e eles “Cê tá louca, mano, que isso?”. Mas era a sensação que eu tinha na hora, sabe?

DT: Não é interessante? Você tá numa sala de ensaio, na Vila Mariana. Acha que tá acertando, mas tem dúvidas... Pensar que essa intensidade viaja e pega um júri de gente do mundo inteiro, de atores alemães. O que nos impressionou em Cannes foi que, nos primeiros dois minutos, a platéia foi agarrada, e só foi largada depois da música dos créditos. Mas eu acho que a ficha ainda não caiu. Você teria que ir lá pra entender o que você ganhou.

SC: Eu só tenho a sensação de ter falado com Dani, o Waltinho, os meninos. Lembro muito o Zé Geraldo [Rodrigues], que faz o Dinho, ele tava desesperado depois do filme. Ele me ligou “Sandrona, Sandrona, é do caralho, você não sabe, uma hora que você entrou assim, aí todo mundo suspirou junto...nossa, a gente mandou muito bem...”. Eu fico arrepiada até agora. Ele chorava...foi uma emoção muito grande, né? Eu realmente não tenho a dimensão do que eles sentiram...

DT: Esse não é um filme de atuações pra fora, exibido, de grandes performances, não é um filme de virtuoses, épico. Mas há um certo desejo hoje de se premiar o verídico, aquilo que toca profundamente.

Camisa 9: Elenco & Fátima Toledo

DT: A gente se propôs a fazer uma pesquisa muito grande na periferia: ONGs, grupos de teatro amador, tentando mapear o talento que existe nesses lugares e não chega ao centro. Queríamos um filme com frescor, em que ninguém, ao ver os atores, se lembrasse de outras situações - que as pessoas entrassem no filme logo de cara. E encaramos isso tudo com a Fátima Toledo (preparadora de elenco) e seu estúdio. Sem ela, não teríamos nem terminado de formular a idéia. O Kaíque, por exemplo: desde quando vimos a carinha dele, aquele Grande Otelo maravilhoso, ficamos louco com ele. É o Pequeno Otelo. E a Fátima nos bancou. Ela tem um acesso a um lugar no ser humano, que faz você se disponibilizar emocionalmente para virar outra pessoa. Você realmente acredita que essa família existe fora do filme, que eles são irmãos e ela é a mãe deles. Isso foi construído com quatro meses de treinamento.

SC: Nos primeiros dias, todo mundo chegou lá com tanta vontade de fazer o filme, depois de esperar tantos testes. O filme fala do cotidiano e é muito difícil fazer cotidiano, com a profundidade e a simplicidade de uma pessoa que se vê todos os dias, que é o teu filho, que ele tá bravo contigo e você quer acessar ele e não sabe como. Não pode ser dramático, nem melodramático - e não pode ser vazio. Foi um trabalho minucioso, um bordado. Cada um fez um laboratório muito concreto: o João foi treinar para andar de moto, o Zé Geraldo praticamente virou evangélico, freqüentou a igreja, fez amizades, foi trabalhar no posto. O Kaíque, coitado, já tem horas e horas de ônibus porque da casa dele são muitas horas mesmo pra chegar até o centro de São Paulo. E o Vinícius já tava treinando futebol há cinco anos. E eu fiquei pelo menos uma semana desentupindo pia com a Fátima (risos).

DT: Uma das filosofias da filmagem era pegar essa técnica da Fátima e transformar no filme inteiro: na igreja, no futebol. Insuflar as pessoas a viverem aquilo que elas estão acostumadas e se sentirem à vontade, até acharem que dominam a situação completamente. Aí sim, a gente ia filmar. Só que, no futebol, a gente não controla nada, nem propõe nada. Mas como a gente já tava treinado em filmar situações com muita gente, nós conseguimos essa transparência fascinante: de ver tão perto pessoas tão emocionadas como os torcedores do Corinthians.


Sandra & Cleuza: as mulheres que ganharam Cannes.

Camisa 10: Cleuza & Sandra

SC: Eu nunca tinha feito um longa na minha vida. Às vezes, antes de dormir, eu pensava “poxa, queria tanto fazer cinema... mas eu não tenho paciência para tentar entrar nesse negócio. Não conheço ninguém, Fico enfiada no teatro, tenho tanta peça para dirigir com meus alunos...mas eu quero fazer um filme que fale sobre a minha cidade, com pessoas bacanas”. E a Denise Weinberg, que também faz o filme, foi fazer o teste e pensou que era uma personagem que tinha tudo a ver comigo: uma pessoa difícil, mas que nunca deixa a peteca cair.

Eu acho que foi a Cleuza que ganhou Cannes. Que Fátima Toledo não nos escute (risos). Ela representa milhões de mulheres invisíveis e me ensinou tanto. Eu via aquelas matérias “fulana de tal, oito filhos...” e dizia “poxa, essa mulher, mais um filho, como é que pode?”. E agora eu entendo isso. Porque os filhos são a riqueza da Cleuza. E eles já estão criados e ela não quer ficar só. Quer alguém com ela, alguém pra criar. Dar esse amor que ela tem. Claro, do jeito dela, xinga e grita, mas é uma mãe que tá presente. E o roteiro e a montagem mostram a Cleuza, não sou só eu: a história do tênis do filho da patroa, do menino jogando bola na chuva... Waltinho dizia: “Sandra Corveloni, a Cleuza é o eixo moral deste filme!”, mesmo com a cervejinha, o cigarrinho. E é. Porque tudo foi costurado dessa maneira.

DT: A cena de amor do filme é ela enchendo o filho de porrada. Como mãe, é assim que a gente ama. A gente ama de doer.

SC: A Fátima dizia “você parece irmã deles”. Porque tudo que eles queriam fazer, eu queria também. Brincava com o Kaíque como se ele fosse meu filho pequeno e ela falava “você não é a Sandra que quer brincar, você é mãe”. Aí eu tive que ir construindo esse impor respeito e mandar nos meninos e eles me obedecerem. Foi duro, viu? Foi um processo longo. Alguns dias, no ensaio, acabavam todos no meu colo chorando, os quatro. E isso que não aparece, aparece, né?

Camisa 11: O cinema

DT: O cinema, das artes criadas pelo homem, é das que mais perdura, fora a literatura. Pode te dar agora a vontade de ver um filme feito em 1924. E ele te conta sobre viver naquela época. A gente tem esse privilégio. A qualquer momento, posso acessar um longa que fiz 15, 20 anos atrás. E eu vou entender quem eu era, que país habitava, como os atores se comportavam. O cinema é o absoluto espelho de quem nós somos, do país. Eu sinto esse peso nas costas toda vez que vou pensar num roteiro. E acho que, desde a retomada, isso é partilhado pelos cineastas do Brasil. É um fenômeno. Talvez a ditadura e a sensação de ter sido desprovido de autoria, de opinião, durante 20 e tantos anos, sem poder falar quem era. Quando abriram as comportas, todos nós quisemos falar desse nosso país.

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