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O cara que inventava

por Daniel Oliveira

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No começo, era um DNA. Quando o pessoal do Pílula me disse que faltava um perfil para a próxima atualização, e que o diretor Jorge Furtado era um ótimo nome, achei bacana. Logo comecei minha pesquisa. Em dois dias, liguei pro chefinho: “Tô achando pouca coisa que mostre quem é realmente o cara. A gente precisava era mesmo de uma entrevista com ele”. “E por que você não tenta?”, foi o que ele me respondeu.

Encarei o que, a princípio, parecia ser uma piada. Encontrei o e-mail e mandei umas perguntas que havia feito. Às 9h de uma terça-feira. Disse que entenderia se ele não respondesse. Sabia que ele estava muito ocupado com a divulgação de “Meu Tio Matou um Cara”. “Se ele não responder a tempo, é só me virar com um DNA”. Para minha enorme surpresa, Mr. Furtado respondeu ao meio-dia. Isso mesmo, em três horas. “Gostei muito das tuas perguntas, me liga aí que converso contigo”. Se não fossem os “tu’s” e “tuas”, acho que não teria acreditado no número de telefone que estava no e-mail.

O ex-estudante de medicina, co-roteirista de 9 em cada 10 filmes nacionais, bateu um papo exclusivo com o Pílula. Revelou suas influências, referências e futuros projetos. Simples, bem humorado e com um sotaque tri-legal, Jorge Furtado é a salada de surpresas e cultura pop dos seus filmes. De Umberto Eco a games e cinema brazuca, rolou de tudo na entrevista que você confere abaixo. E segundo o pessoal, meu próximo DNA é Tarantino. Aguardem.


Furtado: "Me liga aí que converso contigo”

Plula Pop: Quais são suas principais influências cinematográficas, literárias, musicais...?

Jorge Furtado: Muitas, de todas as áreas que tu citaste. No cinema, quando eu era guri, gostava de desenho animado. Comecei a me interessar mais seriamente no início da década de 80, quando conheci outras cinematografias, que não só a americana. Descobri caras como Ettore Scola, Bergman, Milos Forman. Tem a Nouvelle Vague: Godard, Resnais, Truffaut. Também o Kurosawa e um pouco de cinema alemão. Além da produção que era feita em Porto Alegre em Super 8, como o “Deu pra ti anos 70”, do Giba Assis Brasil. Essa salada me incentivou a largar a faculdade de medicina, que eu cursava, e me dedicar ao cinema em PoA. De lá pra cá, eu conheci Billy Wilder, que eu considero um mestre; os óbvios Hitchcock e Chaplin; os brasileiros Nelson Pereira dos Santos e Domingos Oliveira. Sempre gostei de música também. Tenho uma discoteca razoável e tento acompanhar as novidades, principalmente nacionais. E mantenho as velharias, que é o que eu mais gosto.

Plula Pop: Você faz parte da Casa de cinema de Porto Alegre e seus longas têm como cenário a capital gaúcha. Acha que seus filmes apresentam algum traço que caracteriza sua localização ali? Ou suas estórias poderiam acontecer em qualquer lugar?

Jorge Furtado: É que a gente mora aqui e eu filmo perto de casa (risos). Criamos uma produtora de cinema porque queríamos fazer cinema em PoA. Mas as estórias poderiam acontecer fora daqui. Em “Meu tio...”, a cidade é cenário, mas nem diz que é PoA. Cada ator fala seu sotaque: é uma cidade brasileira igual a muitas. Já “O Homem que copiava” é mais portoalegrense por causa do bairro, o Quarto Distrito, e da ponte do Guaíba. Eles são meio que personagens do filme. Tem uma cena toda na ponte, os atores falam com sotaque. “Houve uma vez dois verões” também faz parte de uma lógica gaúcha de praia longe da capital. O guri aluga uma casa com a turma da praia, que tu só encontra lá em janeiro. E os atores eram todos gaúchos. Mas isso também acontece em Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, né?

Plula Pop: Li numa entrevista sobre "Meu tio..." você dizer que é a terceira vez que trata da história do "rapaz tímido correndo atrás da mulher que ama". Existe algo de autoral/biográfico aí?

Jorge Furtado: Não, mas escrever é sempre uma mistura: da memória afetiva, do que se viveu; da observação de outras realidades, outras vidas, filmes, músicas e livros; e a invenção, que não se sabe bem de onde vem. Você mistura tudo isso até não perceber mais de onde veio uma coisa ou outra.

Plula Pop: "Houve uma vez..." e "O Homem que copiava" misturam no roteiro ficção e histórias reais de notas de jornal. Você gosta dessa brincadeira entre realidade e ficção? Seria uma dica de que a idéia do roteiro começou naquelas notinhas?

Jorge Furtado: Não, a estória já existia e a nota se encaixou, meio que resolvendo um impasse. As pílulas de farinha, no “Houve uma vez...”, caíram do céu (risos). É muito improvável aquilo acontecer, mas deu certo, fez o “happy end”. Em “Meu tio ...”, o que existe de mais antigo é o título. Primeiro, porque meu tio matou um cara mesmo! (risos). É uma história que não tem nada a ver com o filme. Foi um tio-avô e eu devo ter escutado aquela frase muitas vezes, quando era criança. Gosto da sonoridade dela, da repetição dos m’s e t’s. Segundo, ela evidencia um narrador: o sobrinho. “Cara” é bom porque o morto não faz diferença: nem tem nome, é um cara. Nome de personagem é muito delicado: é um rótulo que você põe. Eu faço sempre aleatoriamente, ou crio uma piada interna minha.

Plula Pop: Você parece ter um cuidado especial com as trilhas sonoras de seus filmes, com bandas e artistas pouco conhecidos junto com outros consagrados. É você quem escolhe as músicas ou existe uma equipe responsável por isso?

Jorge Furtado: Eu acho que o diretor tem que dar palpite em todas as áreas, desde o cartaz do filme até o sapato do ator. No caso da trilha, faço o roteiro já pensando nela. Existem cenas/personagens que eu escrevo já com uma música na cabeça. Convidei o Caetano Veloso e o André Morais, para fazerem a trilha do “Meu tio matou um cara”, e eles sugeriram milhares de coisas legais que eu não conhecia. A gente foi trocando figurinhas a respeito: tem o Barato Total, que eu queria desde o começo; o Caetano cantou Ney Lisboa, que eu apresentei a ele, e ainda fez aquela versão linda de “Se essa rua fosse minha”. Através deles, conheci o Zéu Britto, que tinha cantado a faixa “A Dama de ouro” na trilha do “Lisbela e o prisioneiro”. O nome Soraia veio da música dele [“Soraia queimada”]. Já tínhamos começado a filmar há uma semana e o nome da personagem da Deborah Secco era Fátima. Quando eu ouvi a música, mudei o nome na hora.

Plula Pop: Você ouve algum tipo de música enquanto cria seus roteiros?

Jorge Furtado: Escuto música sempre. Quando tenho que escrever ou fechar um texto, já deixo um CD preparado. É mais fácil me concentrar, sabe? Uma parte do teu cérebro se ocupa com a música e te ajuda a ficar ligado. Agora, estou ouvindo um Bowie Unplugged, só de shows. O maravilhoso CD novo do Leonard Cohen também tá direto no meu som, além do “Flowers”, dos Stones. E Billie Holyday, “Last Recording” – melhor disco do mundo, se for pra uma ilha deserta e levar só um CD, é ele.

Plula Pop: Seus filmes dialogam com uma faixa etária - a juventude - historicamente carente de boas produções nacionais no cinema. Qual o seu interesse ao se comunicar com esse público? O que te atrai nesse universo?

Jorge Furtado: Gosto da adrenalina dessa fase de contestação da geração anterior. Tudo é muito intenso, delicioso e mutante: ama-se e odeia-se de um dia pro outro: “Você é o meu melhor amigo e eu nunca mais quero falar contigo”. A importância da roupa, do cabelo, as frases, o que disse, o que não disse. É um período de invenção de linguagem, com um jeito de falar bom para o roteiro. E eu tenho uma influência muito grande da tradição literária americana dos narradores jovens. Segundo Hemingway, a literatura dos EUA foi fundada nesse modo de escrever como quem fala - principalmente Mark Twain, ou outros, como “O complexo de Portnoy” e “O Apanhador no campo de centeio”. “Meu tio...” tem muito disso.

Plula Pop: Como surgiu o convite pro Allan Sieber fazer as animações de “O Homem que copiava”?

Jorge Furtado: Eu conhecia o trabalho do Allan faz tempo. Estava buscando um traço possível para o personagem e o do Allan era ótimo. Era tosco, como tinha que ser (risos), de um cara que desenha muito bem, mas é grosso. O universo criado pelo personagem e pelo Sieber não podia ter traços requintados, delicados. E eu já tinha trabalhado com ele em “A invenção do Brasil”. O Allan quando quer desenhar bem, refinado, também é uma maravilha.

Plula Pop: E qual a importância desse tipo de referência pop pra você? Como é que isso funciona no filme?

Jorge Furtado: O Umberto Eco tem uma fala de que eu gosto muito: “A intertextualidade não convida todos para o mesmo banquete”. Em “Meu tio matou um cara”, quem não reparou no disco do Oasis, nas fotos dos agentes do “Arquivo X” no computador do garoto, ou não viu “A primeira noite de um homem” e “Herói por acidente”, não deixa de entender a estória por causa disso. Mas quem reconhece essas dicas aproveita mais o filme, vê ali uma relação. “Meu tio...” tem muito disso, mas nada que se compare ao “O homem que copiava”, que era basicamente feito de referências.

Plula Pop: Você tem batalhado no audiovisual brasileiro desde o início da década de 80. Como vê o momento atual do cinema brazuca, em especial para novos diretores?

Jorge Furtado: São vários aspectos. Nunca houve tanta diversidade: o cinema brasileiro deixou de ser um gênero e isso é muito bom. Quanto a começar, acho que tem coisas interessantes – a tecnologia digital, por exemplo, te permite uma produção rápida, fazendo um filme mais simples, a um custo baixo. O acesso às salas ainda é pequeno – já foi menor e já foi maior – tendo em vista uma quantidade crescente de novos realizadores surgindo. É preciso melhorar, mas já vi tempos piores. Estamos num momento bom. 50 filmes brasileiros foram lançados nesse ano, e 30 no ano passado. Surpreendentemente, em 2004, o público foi menor: foram 15 milhões de espectadores, enquanto em 2003 foram 20 milhões. Mesmo assim, é um número razoável.

Plula Pop: Mesmo na época em que o cinema brasileiro estava “semi-morto”, você fez um curta, “Ilha das Flores”, que foi escolhido num festival francês como um dos 100 melhores curtas da história do cinema. Como foi isso?

Jorge Furtado: O “Ilha” é um curta exatamente de 1989, em que o Collor chegou e praticamente acabou com o cinema nacional. Foi feito como tentativa da Casa de Cinema de PoA de produzir pelo menos um filme naquele ano. Ele teve uma repercussão ótima, ganhou vários prêmios e abriu muitos caminhos fora do Brasil. Tanto que meus projetos depois dele foram produções estrangeiras, única maneira de se realizar filmes, já que não tinha dinheiro aqui.

Plula Pop: E você acha que é possível sobreviver no Brasil só com cinema, sem fazer televisão?

Jorge Furtado: Talvez, daqui a algum tempo, se o cinema continuar crescendo, tanto em produção quanto em público. Você dirige um projeto, escreve outro, guarda um pra depois. Hoje, infelizmente, não dá. Quem for detentor de uma cadeia de cinemas, talvez consiga (risos). Audiovisual brasileiro é difícil: quase todo mundo que eu conheço faz publicidade ou TV.

Plula Pop: Existe algo que você queira fazer e ainda não conseguiu? Um projeto mais ousado ou engavetado indefinidamente?

Jorge Furtado: Teatro, talvez. Já fiz, mas quero voltar a fazer.Uma coisa difícil que eu estou tentando é colocar aquele game da abertura do “Meu tio...” no mercado. Ele se chama “Cena do crime” e foi criado especialmente para o filme. Já tem as regras e os ambientes prontos. Gosto muito de jogos, eletrônicos ou não, mas o mercado no Brasil é ridículo. Nos EUA, a indústria de games já ultrapassou o cinema. Lá, qualquer game vende 50 mil cópias, mas aqui só “O Show do milhão” atinge isso, o resto é pirataria (risos).

Plula Pop: E quais são seus próximos projetos no cinema?

Jorge Furtado: Eu terminei o primeiro tratamento de um roteiro, que deve ser o meu próximo projeto. Chama-se “Saneamento básico – o Filme” (risos). É uma comédia política.

Plula Pop: Eu li alguma coisa sobre “Um cara matou meu tio”, uma continuação pro “Meu tio...”? Era uma brincadeira ou é sério?

Jorge Furtado: (risos). É uma meia brincadeira, que ficou tão divertida que talvez vire verdade. Aquela família com um tio idiota e um garoto esperto, eles são muito reais, deu certo. Outras histórias poderiam acontecer ali e a gente comentou isso durante as filmagens. Eu fiz uma sinopse sobre um sósia do Éder, em que o tio morre no lugar do cara errado. Um quiprocó clássico (risos). Não sei, talvez aconteça. Isso saiu no jornal e um repórter me mandou um e-mail perguntando se o filme teria alguma relação com “Meu tio...”. E eu: “Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Nem percebi que eram exatamente as mesmas palavras.” (muitos risos)

Plula Pop: Você tem tido tempo de ver filmes? O que conferiu recentemente no cinema ou em casa que gostou?

Jorge Furtado: Cara, eu não tenho tido tempo. Não vi “Peões” nem “Entreatos”. Gostei de “Contra todos”, que eu assisti há uns meses. “Justiça” é um documentário de uma diretora chamada Maria Ramos, que também é muito bom. Outra coisa que eu vi recentemente foi “Separações”, do Domingos Oliveira, bem engraçado.

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