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Woody & Eu

por Rodrigo Campanella

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Faz 36 anos que o jornalista americano Eric Lax realiza um sonho cinéfilo: sempre que dá na telha, ele liga para Woody Allen e marca um bate-papo com o diretor. O resultado dessa convivência em salas de montagem, sets de filmagem e outros recônditos do mundo saiu no Brasil com o título de “Conversas com Woody Allen”, lançado pela editora Cosac Naify.

O livro é organizado em tópicos na ordem de produção de um filme – roteiro, escolha do elenco, filmagem, montagem, escolha da trilha. Cada parte reúne entrevistas de vários períodos, com referências aos filmes em produção naquele momento e comentários inspirados de Lax.

Como entrevistado telefônico, o jornalista é tão organizado e divertido quanto o livro. Faz pausas marcando o final de cada resposta, responde a tudo com boa vontade e aparenta, pela voz, que está tão entretido na conversa quanto quem o entrevista. No final, tranqüilo, ele pergunta: “E como vão as coisas no Rio?”. Não, não é Rio. “São Paulo?”. Também não, estamos aqui falando de Belo Horizonte. Ele dá uma risada, um pouco sem jeito, e agradece mais uma vez o interesse antes de se despedir.

Pílula Pop: Existem coisas que você e o Woody conversam durante os encontros que vão além da entrevista e nunca serão publicadas?

Eric Lax: Sim. Nas conversas, Woody ocasionalmente usaria um filme, diretor ou ator como exemplo de alguma coisa de que não gosta muito. E ele disse “eu vou te dizer isso, mas não publicamente. Esse trabalho já é difícil o bastante, não quero criticar alguém e as pessoas não terem como responder. Eu uso como exemplo, mas não é parte da entrevista”.

Pílula Pop: Qual é a melhor coisa que uma comédia pode trazer?

Eric Lax: Duas coisas maravilhosas. Uma é a gargalhada, que nos liberta das preocupações diárias. A outra é exibir problemas, hipocrisias ou coisas do tipo numa luz completamente diferente – que permite ver um lado novo. É o inesperado da piada que leva ao riso. Em muitos dos filmes de Woody, o humor chega por meio dos personagens e permite identificação, rir deles e de nós mesmos ao mesmo tempo.

Pílula Pop: Às vezes parece que ele não acredita muito nisso, quando diz no livro que prefere fazer dramas.

Eric Lax: Quando Woody começou, era um adolescente ganhando um ótimo dinheiro para escrever piadas para colunistas de jornal. Ele soube desde aí que poderia ganhar a vida com comédia, algo reafirmado quando ele começou a escrever para a TV e depois fez seu próprio show de comédia stand-up. Mas por mais que ele ame a comédia, aprecie o que ela fez por sua sobrevivência e se divirta com isso, a comédia não é um desafio para ele – o drama é.

Por mais que ele gostasse de assistir a comédias, preferia ver um bom drama. Woody era particularmente atraído desde cedo por Ingmar Bergman e outros diretores europeus. Ele disse que comédia é um caminho para se chegar no showbusiness, mas espera ser capaz de fazer - e ele não diria nessas palavras - “dramas tão bons quanto minhas comédias”, conforme sua carreira for em frente. Ele diria que a comédia, não importa quão boa seja, nunca chega ao mesmo nível que um bom drama.

Pílula Pop: Mas como ele lida com a resposta do público em cada gênero?

Eric Lax: Na comédia, você sabe se o material está funcionando porque as pessoas riem. No drama, não há aquela explosão de riso, ou qualquer outra coisa, enquanto o filme está passando. Então, você não sabe se está tocando as pessoas ou se está enchendo a paciência e elas estão sentadas pensando “Deus, que horas isso termina, será que nós vamos chegar a tempo para o jantar?”. No drama, você tem que esperar o fim para ver a reação das pessoas.


Eric, simpático.

Pílula Pop: “Match Point” é um drama e teve excelente resposta do público e da crítica. Você acha que esse sucesso teve algum impacto sobre o trabalho atual dele?

Eric Lax: Ele ficou muito satisfeito com “Match Point” e acho que sente que foi o primeiro drama dirigido por ele que realmente deu certo em todos os níveis. Woody disse várias vezes que esse filme teve muito mais sucesso do que esperava. Isso deu um encorajamento para ele ir em frente e fazer mais. Woody faria mais de qualquer modo, mas esse trouxe o sucesso que ele queria com um drama.

Pílula Pop: E qual o seu filme favorito do Woody?

Eric Lax: Eles variam de tempos em tempos e se dividem em categorias. Das comédias rasgadas, eu adoro “Um assaltante bem trapalhão” e “Bananas”. Gosto de “A Rosa Púrpura do Cairo” porque é sobre como nós amamos a fantasia, e confiamos nela como um escape, mas no fim damos de cara com a realidade. E gosto muito de “Match Point” e de “Vicky Cristina Barcelona”.

Um que eu gosto muito e acho subvalorizado é “Memórias”. Em parte porque é um filme difícil de compreender, os últimos dois terços do filme são uma espécie de monólogo interior acontecendo na mente de um diretor à beira de um ataque de nervos. Quando foi lançado, as pessoas pensaram que era o Woody olhando seu público e fazendo piada dele, e não é isso. É um filme tocante sobre aquele ponto de todo artista que faz sucesso com algo específico. As pessoas querem que você repita a mesma coisa, até o momento em que viram e dizem “mas é sempre a mesma coisa, você já fez isso antes”. E o Woody sempre tentou combater isso e seguir em frente.

Pílula Pop: Qual o preferido dele próprio?

Eric Lax: Ele diz que gosta muito de “A Rosa Púrpura do Cairo” e de “Maridos e Esposas” que, na opinião dele, deu muito certo. E também ficou muito satisfeito com “Match Point”.

Pílula Pop: Depois de todo esse tempo na companhia de Woody Allen, o que mudou na sua relação com os filmes em geral?

Eric Lax: Vi todos os filmes feitos por ele e provavelmente estive no set de pelo menos metade deles. Tenho muita familiaridade com o modo como ele trabalha - e Woody é bastante diferente de qualquer outro diretor. Mas sei como é o processo de fazer um filme. Há vezes em que olho para um longa e vejo algo que Woody e eu conversamos, na montagem ou no jeito de filmar, e fico ciente de como o cineasta está realizando o filme. Isso pode ser uma coisa boa ou ruim, depende muito do dia.


Woody, neurótico.

Pílula Pop: Mas, pelos seus comentários no livro, parece que você tinha um amor prévio pelos filmes, antes dessas entrevistas.

Eric Lax: Eu amava filmes quando criança e dividi isso com Woody. Aos sábados de manhã, ia ao cinema da cidade, pagava 25 cents e ficava o dia todo vendo dois longa-metragens, alguns curtas e desenhos animados. Existem também vários artistas de que nós dois gostamos. Eu era um grande fã do Bob Hope, dos irmãos Marx e vários artistas que inspiraram e divertiram o Woody me trouxeram a mesma satisfação. Isso rendeu conversas entre a gente. Mas gostei de filmes por quase toda minha vida, até tentei ser crítico de cinema na faculdade, mas não era tão bom.

Pílula Pop: E depois de tanto tempo juntos, como é a relação entre vocês, depois de uma convivência tão próxima? Você é um amigo dele ou ainda um entrevistador...

Eric Lax: É difícil de acreditar. Nós temos conversado por mais de metade da minha vida - e metade da dele - e temos uma relação profissional muito amigável. Vou visitá-lo quando não o estou entrevistando. Mas, para nós dois - principalmente da minha parte, se quiser continuar fazendo isso - é preciso ter algum distanciamento. Não posso chegar e dizer "esse é meu amigão Woody e vamos conversar". É preciso ter uma visão um pouco mais jornalística quando vou até ele.

Gosto muito da companhia, ele é sempre muito gentil comigo e temos conversas muito divertidas que não têm nada a ver com as entrevistas. Acho que essa proximidade é importante para o longo trabalho que nós fazemos, mas me distancio um pouquinho todo o tempo. Há ocasiões em que ele diz coisas muito pessoais, mas eu diria que é bem mais uma amizade profissional muito boa do que algo pessoal.

Pílula Pop: Você acha que, hoje em dia, o Woody está mais adaptado ao modo como os estúdios trabalham – os prazos, marketing, limites...

Eric Lax: Sim, ele entende muito bem tanto a parte positiva quanto a negativa. Ele diz que “o problema não são os filmes, o problema é que há tantas entrevistas a dar, tanta publicidade a ser feita”. Woody tenta reduzir isso a um mínimo, mas também não quer ser mesquinho com quem deu 15 milhões de dólares para ele realizar um filme. Então, tenta ficar no meio termo entre os dois e faz tudo que pode para ajudar o longa.

Mas acho que Woody realmente não gosta desse tipo de jogo, que é muito mais intenso hoje do que quando ele começou. Um dos benefícios é o público cativo dele, que não é grande, mas permite que seus filmes fiquem em cartaz por algum tempo a mais. E os longas de Woody são baratos para os padrões de hoje em dia e não precisam tanto de promoção.

Pílula Pop: E o que, na sua opinião, o trabalho do Woody Allen tem de único?

Eric Lax: Como um comediante, ele é incomparável e pode nos fazer enxergar o mundo de um modo diferente. E consegue realizar coisas inesperadas com um personagem, é um dom que ele tem. Por outro lado, em seus filmes há uma grande compreensão da natureza humana. Woody entende a insatisfação das pessoas com o lado imprevisível do amor, a importância da lealdade. Esses são temas que atravessam os filmes dele, mas sempre na forma de material novo.

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