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Drunk rock azarado

por Rodrigo Ortega

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“Merda é fértil, né?” Mr. Rotten Wine, baixista e vocalista d’Os Pedrero, sabe do que está falando. Se o mundo fosse um lugar menos sério, talvez da fecunda cena de hardcore do Espírito Santo saísse outra banda para fazer companhia ao Dead Fish no grande mercado nacional. Os Pedrero, precursores do “drunk rock”, acabaram de lançar seu quarto disco, Motoqueiro Doido, pela Laja Records, selo independente capixaba com meio mundo do hardcore no catálogo, inclusive as primeiras demos do Dead Fish.

O baixista e vocalista Mozine, que também trabalha na Laja, e atende n’Os Pedrero pelo cognome de Mr. Rotten Wine, ajudou a resolver a seguinte dúvida: se o Massacration provoca revoltas juvenis, porque os Pedrero ainda não faturam alto com o seu “fator Darkness”?

“É foda. Desde 1997 a gente fazia essas coisas, mas sei lá, ‘nóis é meio burro, meio azarado’. Vejo algumas bandas copiando Os Pedrero descaradamente, em São Paulo, por exemplo. Nosso slogan ‘drunk rock’ já foi pro saco. Bem que a gente queria assinar, melhorar a estrutura, tentar viver de rock, mas não dá. ‘Nóis é horrível’, ninguém quer a gente”, reclama Mr. Rotten.


Os Pedrero na labuta

O desabafo tem fundamento, mas também faz parte do papel de vilão que Mr. Rotten Wine interpreta junto com o baterista Black Pitt e o guitarrista Johnny Larva. O mocinho é o guitarrista Tony Powzer, que canta as irônicas canções de amor, como a nova “Toco de Gabriela”. Mr. Rotten fica com as músicas mais “mauzonas”, como a faixa de trabalho do disco anterior, Cavera y Macaco (2004), “Shirley Mcleyne”.

Ele explica melhor: “Os Pedrero é circo, tá ligado? Cada um ali é um palhaço. Exemplo: eu fiz “Menino com doença”, talvez uma das mais melódicas do disco, e “Cuide de mim”, talvez a mais viada de todas as músicas dos Pedrero, e quem canta estas músicas é Tonny Powzer. Assim como ele fez “Rodovia da morte”, uma música nova que eu canto, que é um porradeiro sinistro. Sem contar o Jhonny, que às vezes fica fazendo charminho, mas faz os melhores vocais, na minha opinião.”

As letras cheias de piadas internas fazem o ouvinte imaginar as situações em que foram criadas. Uma das melhores é “Jhenny Paula”, do disco Estilo Selvagem Rock’n Roll (2002), o mais elogiado pelos fãs d’Os Pedrero. “Um amigo nosso estava falando que pegou a mulher mais feia do carnaval de Guriri (praia do Espírito Santo), atrás de um caminhão. Quando ele falou q o nome dela era JHENNY PAULA, quase batemos o carro”. Mr. Rotten admite: “Tem muita coisa meio real. O motoqueiro doido, por exemplo, surgiu na mesa de um bar”.


A capa de Motoqueiro Doido

Motoqueiro Doido é um disco mais agressivo e sério. Para o padrão d’Os Pedrero, claro. Eles não abandonam a essência “speedy crappy rock’n roll”: “Acho este disco o melhor produzido, mas ainda manteve bem a cara do grupo. Acho isso legal, não queremos perder nossa identidade”, garante o baixista.

Responsável pelas canções e pela Laja Records, Mr. Rotten faz jornada dupla para divulgar a banda. “Cara, está foda vender CD. Geralmente os selos independentes fazem de mil em mil cópias. O Hard Rock Dreams (primeiro disco, de 2001) está na metade da terceira prensagem. Estilo Selvagem Rock’n Roll e Cavera y Macaco estão em duas mil. Motoqueiro Doido acabou de sair, deve ter vendido quinhentas até agora.” Decepcionante? Nem tanto, segundo ele: “Vende um pouco menos que a gente esperava, porém mais que muita banda que está por aí”.

Não contente com a obra d’Os Pedrero, o baixista espalha seu “crappy rock” nas bandas Merda e Mukeka di Rato, também respeitadas na cena hardcore. “Os outros caras do Mukeka também tocam nos Pedrero, e o Paulista do Mukeka toca comigo no Merda. É a gangue”, explica.


(Da esq.): Johnny Larva, Mr. Rotten Wine, Tonny Powzer e Black Pitt

Mas a gangue não tem encontrado muitas chances de continuar a sujar sua ficha. “Fizemos poucos shows. Dava para ter feito mais, mas não está fácil, devido a alguns problemas pessoais de horários que lentamente estão sendo resolvidos. E devido também ao ‘mercado filha da puta e podre que só quer saber de bandas emos bichinhas horríveis’”. Neste momento, Mozine é totalmente Mr. Rotten Wine.

Mas ele também sabe a hora de ser Mozine, como no festival 53 HC, que aconteceu no final do ano passado em Belo Horizonte. Os Pedrero fizeram muitas piadas sobre o fato de tocarem no mesmo palco que o Fresno. Mas, ao contrário do integrante de outra banda que atirou uma latinha no vocalista emo, os capixabas não passaram do limite do bom humor. “Mr Rotten Wine não gosta de emo, mas é bom ter essas bandas que levam público e meninas bonitas aos shows”, declara o baixista mauzão, mostrando a mesma virtude das músicas d’Os Pedrero: fazer piadas na hora certa.

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