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Fala séria

por Taís Oliveira

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É a pré-estréia de "Juízo" em BH e espero Maria Augusta Ramos enquanto ela resolve alguns problemas no som. Eu ainda não sabia da graduação em música pela UnB, nem dos estudos em Londres e Paris. Ela chega com um ar preocupado, perguntando à produção se as pessoas conseguirão ouvir bem o filme (uma tempestade de raios e trovões despencou sobre a cidade bem no início da sessão).

Maria Augusta Ramos lança "Juízo" com o peso dos prêmios que conquistou na Europa por "Justiça", seu último longa-metragem, de 2004. Países europeus aparecem muito em seu currículo, mas é o Brasil que ela retrata em seus documentários, "nem mais bonito, nem mais feio".

Maria Augusta é de Brasília, mas tem um jeitinho carioca – me pergunto se ela o adquiriu quando fez "Rio, um dia em agosto". Antes de sentarmos, ela vê um casal correndo até a porta da sala de cinema. “Ah não, não vou deixar entrar, já faz meia hora que começou”. “Juízo” é um filme para ser visto por inteiro. Ela se assustou com a quantidade de perguntas, mas respondeu com tranqüilidade a entrevista do Pílula Pop.

Pílula Pop: O documentarista deve retratar a realidade ou tentar mudá-la?

Maria Augusta Ramos: Tentar mudar a realidade? Jamais. Eu tento retratá-la o mais fielmente possível. Há uma representação, claro. É uma visão subjetiva minha, um retrato. Para mim, essa idéia de que o documentário é objetivo não existe. Nem a mídia é objetiva. Eu faço escolhas a cada momento que edito. O documentário não é só estética, é também sobre ética. Em cada corte, existe uma questão ética: você pode transformar aquela realidade ou fundamentar uma tese. O Michael Moore faz isso: ele tem uma tese “x” e aí faz um documentário para prová-la, que é a maneira dele fazer cinema. A minha é diferente. Eu tento retratar a realidade de maneira que leve o público a pensar, a refletir sobre ela por si só. Por isso, é um cinema que observa, mais reflexivo, que exige uma distância entre o público e os personagens retratados. E essa distância é criada pelo trabalho de câmera, de edição. Tem um tempo, um ritmo: a câmera nunca se aproxima muito, sempre estática, frontal, sem planos subjetivos dos personagens. Tudo isso faz o meu estilo de cinema.


A diretora.

Pílula Pop: Como conciliar a preocupação em fazer um filme bonito esteticamente - achar o melhor ângulo, a melhor luz - lidando com um lugar e uma situação tão horríveis?

Maria Augusta Ramos: Primeiro que eu jamais tento embelezar ou desembelezar nada. É uma realidade nem mais bonita, nem mais feia do que realmente é. Mas tem um preparo estético: tento retratar fielmente, mas não faço também mais feia do que ela seria. Eu tenho que respeitar a natureza dela. É importante usar os mecanismos do cinema para mostrar que a vida é contraditória: não existe só o bem e o mal, só o feio e o bonito. O cinema tem que tentar captar esse mistério. Não acho que as imagens do Instituto Padre Severino são bonitas. Aquele lugar não é bonito. Mas as imagens são corretas, bem enquadradas, isso é importante. Faz parte do respeito ao retratar essas pessoas. Isso não é embelezar, não é fazer uma realidade mais bonita.

Pílula Pop: É senso comum que a recuperação dos presos, menores ou não, é muito ruim no país. O que mudou na sua visão sobre isso após o filme?

Maria Augusta Ramos: Ah, eu não sou político, não sou governador. Prefiro que as pessoas assistam e elas mesmas se indaguem sobre esse tema, essa realidade que a gente vive. Eu tento fazer com que a minha opinião não fique no filme. Pessoalmente, o que eu acho, depois de ter feito, é que algumas dessas instituições sócio-educativas não ressocializam ninguém. E não é uma opinião só minha. Mas o filme não é só sobre isso. Ele fala, de uma certa maneira, da sociedade brasileira. Da impossibilidade de diálogo entre o universo dos operadores da lei, da classe média, de um lado; e dos réus, ou dos menores infratores, do outro. De um segmento da sociedade que vive muitas vezes em situações degradantes, sem acesso a educação de qualidade. A gente vê essa impossibilidade de diálogo em vários momentos do filme. Quando o promotor pergunta para o menino de 15 anos a data de nascimento dele e ele não sabe, por exemplo. O promotor se surpreende, assim como a gente, a classe média brasileira. Um menino de 15 anos não sabe o nascimento dele, mas isso acontece, ele não é uma exceção. É disso que fala o “Justiça” também. Por isso que eu digo que ali, no teatro da justiça, a sociedade brasileira está representada. Não só um ritual, e neste filme o ritual da justiça infantil, mas também o que leva esses adolescentes a cometerem delitos, a entrarem em conflito com a lei.

Pílula Pop: As imagens dos personagens em casa, fora do sistema judiciário, foram feitas nas casas dos atores ou dos personagens reais?

Maria Augusta Ramos: Dos atores. É uma boa pergunta. Eu não considero os adolescentes que “substituíram”, digamos assim, menos atores do que repetições, dublês, de uma realidade que se repete anualmente no Brasil. Qualquer jovem de favela no Rio de Janeiro vive situações muito próximas às retratadas ali e pode vir a cometer delitos. Todos esses ‘adolescentes substitutos’ poderiam estar ali na frente da juíza. Eles sabem disso – e nós também. Por isso, o desempenho deles é muito crível. No fundo, também é sobre essa geração de jovens que, pela primeira vez, a gente vê de frente. Eu sempre trabalhei o texto com eles no sentido de que não atuassem, mas que fossem eles mesmos. Como eles falariam aquele texto se estivessem ali sentados, passando pelo que aquele menino ou menina passou. Tentei achar adolescentes cujas realidades fossem próximas. Por exemplo, para a menina que é mãe, eu escolhi uma menina que também era. Aí você diz “ah, deve ser difícil”... não foi. Porque hoje em dia, numa favela, quase toda menina de 16 anos ou é mãe ou está grávida. A menina que fez o filme ficou grávida com 13 anos; na época, ela tinha 15. E no final do filme, quando ela levanta, você vê que ela está grávida outra vez. Ela tinha 16 anos quando a gente terminou o filme. E a irmã dela ficou grávida aos 13 também. Em alguns momentos, essa fronteira entre o ator e o menor infrator é muito tênue. E eu faço isso de propósito porque essa repetição tem significado. Esse passado que vira futuro e vira passado e vira futuro - essa coisa cíclica. Se a gente não fizer nada, o menino que está mamando nela vai estar, daqui a 15 anos, nessa cadeira. É um ciclo vicioso que envolve não só a instituição sócio-educativa – mas também impedir que essa geração chegue ali, na frente da juíza.


O teatro.

Pílula Pop: O texto dos atores chegava a ser idêntico ao das audiências ou tinha uma interpretação?

Maria Augusta Ramos: Não. Era quase idêntico. Eles falavam o que era dito, mas às vezes usavam a maneira deles falarem. Se um dizia ‘o garoto’ e o outro dizia ‘o moço’, era uma coisa que eu deixava para que eles não se engessassem. Alguns diziam “não, senhora”, outros diziam só “não”. Eu não ficava “ah não, tem que ser ‘não senhora’”.

Pílula Pop: Foi muito difícil conseguir a permissão e a confiança para filmar no Juizado da Infância e no Instituto Padre Severino?

Maria Augusta Ramos: As pessoas tinham confiança em mim, principalmente os operadores da lei, porque o “Justiça” abriu muitas portas. E eu sou muito grata a eles: ao Ministério Público, aos juízes, assessores, às pessoas legais do Padre Severino. Principalmente aos operadores da lei, porque sem a participação deles eu não podia ter feito o filme. Se o Ministério Público não quisesse, eu não podia filmar. Eles foram muito corajosos porque você fica muito nu ali em frente à câmera. Mas eles sentiram que eu ia ter respeito. Tanto que gostam muito do filme, acham que estão bem retratados. O que, para mim, é muito importante. Ninguém disse “ah, não sou eu ali”. Isso é uma indicação de que eu fui fiel à realidade.

Pílula Pop: Qual o impacto emocional, para você, de fazer um filme como esse?

Maria Augusta Ramos: Não é um filme fácil de fazer. Lida com uma realidade muito dolorosa, muito sofrida: dramas sociais, tragédias familiares, enfim, famílias muito desestruturadas. Muitos não têm pai, mãe. Fora as histórias dos infratores, cada menino que substitui também tem uma história, não de crime, mas também dolorosa. Cada um deles dava outro filme.

Pílula Pop: Você pensa em fazer um próximo filme com este mesmo tema, justiça?

Maria Augusta Ramos: Na verdade, eu quero fazer uma trilogia sobre esse universo da justiça, mas vou dar um tempo.

Pílula Pop: Tem alguma data, alguma idéia?

Maria Augusta Ramos: Não tem data. Eu tenho algumas idéias, mas não quero te dizer, porque senão daqui a dois anos eu mudo de idéia e você diz “ah não, você disse que era aquilo”. Por enquanto, eu não quero editar uma audiência pelo menos nos próximos dois anos!

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