Ronin e a batalha do sol nascente de Miller

Nossa avaliação

Os anos de 1980 foram definitivamente um marco para os quadrinhos modernos. Clássicos que mudaram completamente a maneira de se fazer quadrinhos e de se pensar narrativa e que são reeditados, relançados e relidos até hoje. Ronin, publicado pela DC Comics em 1983 foi o primeiro trabalho de Frank Miller que teve o peso de sua assinatura como quadrinhista e que engatou a quarta marcha para uma subida quase que vertiginosa em sua carreira.

A era de Ouro de Frank Miller

Originalmente uma minissérie de 6 partes, Ronin foi lançada após a passagem de Miller pelas páginas de Demolidor, na Marvel. Porém, nesta HQ completamente original, Miller começa a explorar o traço de sua narrativa e ilustração que o deixaria famoso em títulos como Batman: O Cavaleiro das Trevas (1986), Elektra Vive (1990), Sin City (1991) e 300 (1998).

Na história, um Ronin, ou seja, um Samurai sem mestre, foi aprisionado, no passado dentro de uma espada mística junto com um Demônio chamado Agat. 800 anos depois, em um futuro caótico (típico dos futuros saídos da mente de Miller, como mostrado em O Cavaleiro das Trevas), cientistas encontram essa espada e liberam os dois seres aprisionados.

O Ronin encarna no corpo de um homem sem braços e nem pernas, com capacidades telepáticas, que servia como experimento para uma grande corporação que transformava materiais minerais em plástico autossustentável. Enquanto o Demônio Agat possui o corpo do presidente dessa corporação chamada Aquarius.

Futuro caótico

Com esse plot meio louco que mistura o passado da cultura japonesa com elementos de um futuro diatópico, cheio de ameaças vindas de uma cidade corrupta, suja, dividida em várias facções extremistas e com uma corporação que domina tudo, Ronin coloca em suas entrelinhas diversas questões importantes para se pensar. Questões que fizeram Frank Miller ser um dos grandes autores durante os anos de 1980 e 1990.

A primeira grande questão é justamente em torno da Aquarius, uma organização tão grande e com a capacidade de mudar o mundo com seus materiais autossustentáveis e sua inteligência artificial chama da Virgo, parte para um clichê tão trágico, mas que só é clichê porque é puramente real em nosso cotidiano: ao invés de ajudar o mundo em colapso, passam a criam armas.

Claro que muito do porquê da criação desse armamento vem da presença de Agat e mesmo do plot twist principal da história (que não vou contar, vou deixar que você leia essa HQ caso ainda não tenha lido). Mas é interessante ver como, ainda em 1983, Miller via essas tendências corporativistas e como elas iriam dividir e controlar o mundo com o decorrer dos anos.

Ora, isso acontece muito bem, até em terras brasileiras. Vejam nosso 2021, com uma pandemia que dura mais de um ano, com negligência na compra de vacina, deixando o povo numa polarização por ideologias políticas, passando fome, sem emprego e moradia, morrendo por uma doença, mas que teve 6 novos bilionários.

Facções niilistas

A segunda questão é a relação das políticas polarizadas como gangues buscando território. Nazistas e Panteras Negras lutam, aparentemente, uma briga sem fim entre a supremacia branca e o povo negro.

Conservador, para Miller essa briga não é sobre questões raciais e sociais, mas sim, sempre uma questão de segurança pública e polarização. Brancos buscando hegemonia, e negros buscando tomar territórios. A qualquer custo.

Mas, na marginalidade dessa narrativa, ainda há os povos esquecidos. Pobres e moradores de rua que, por gerações vivendo isolados, passam a agir mais como animais do que como humano.

Miller mostra que sua chaga social é sempre caricata. Onde o bem é sempre questionável e o mal é marcado por diversas nuances. Ou seja, uma visão niilista do que a humanidade pode se tornar.

Refúgios imaginários

Mas talvez o que mais marca a moral de Ronin não é todo esse apelo sobre estruturas sociais que Miller sempre flerta em seus roteiros, mas sim quando ele fala sobre pessoas com deficiência.

Billy, o rapaz sem braços e pernas que trabalha na Aquarius fazendo testes com a tecnologia de plástico moldável entra na história não apenas como um receptáculo do Ronin, mas para, com o progresso da trama, mostrar que crescer para ele foi algo difícil.

Billy sofria bullying e foi abandonado pela mãe após um acidente ao descobrir seus poderes psíquicos. Ser uma pessoa com deficiência e ainda possuir um poder “anormal” era demais para a cabeça de sua mãe. Porém, a falta de acolhimento mudou Billy. Calma, ele não é o vilão da história, mas mostra que ser abandonado, e nunca ter se relacionado amorosamente com alguém, o fez criar e imaginar mundos para fugir da realidade.

A junção dele com o Ronin faz parte desses mundos perfeitos onde Billy gostaria de viver.

Então, conseguimos ver como a criatividade era um refúgio para Billy, tal qual ela é refúgio para muitas e muitas pessoas hoje. Sejam elas com deficiência ou deslocadas do convívio social. A busca por padrões exclui e mata, Billy conseguiu um refúgio, mas quantos não conseguem?

Honra e traumas

A sinopse de Ronin fala muito sobre honra, mas ao ler a história percebemos que pouco honrosos são seus personagens. A honra ali é uma fantasia, o delírio de alguém sozinho e que passou por diversas dificuldades por causa de sua condição física.

Ronin, não é sobre honra, Ronin é sobre traumas.

Frank Miller é ácido ao mostrar de maneira completamente alegórica seus preconceitos e posições ideológicas, porém, ele faz isso só na casca. Na maneira que sua narrativa conta a história. Pois no fundo, sua moral ali presente ainda toca.

Mas, ao passar pela alegoria trágica e carnavalesca, conseguimos identificar a fala sobre inclusão e respeito às pessoas com deficiência, e como a sociedade pode abalar o psicológico dessa pessoa. Um sinal amarelo para prestarmos atenção que um PcD também sente vontade de se relacionar e que busca afetos longe da pena e da dó.

Ah, que saudade do Frank Miller que, mesmo com seus ideais, não era tão preconceituoso e conservador ao extremo. A idade fez mal para esse roteirista. Mas bem, isso é assunto para outro texto.

Tico Pedrosa é publicitário, roteirista, escritor, professor e criador de conteúdo. Fã de quadrinho desde sempre. Você pode conferir as ideias dele no instagram e twitter.

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