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6 décadas em 6 horas

Flashrock 2010

por Rodrigo Ortega

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18:53 - Dia mundial do rock, 13/7, terça-feira. Praça da Savassi. Chego ao local marcado para pegar os ingressos do Flashrock, evento que ninguém sabe direito o que é, mas tem umas bandas legais aí. Num palco escondido no meio da praça, uma banda tenta fazer mais barulho do que os carros na Av. Getúlio Vargas.
19:02 - Olho por cima da pequena multidão que está na praça e consigo avistar o cabelo do vocalista do Macaco Bong. Mas eles estão tocando Nirvana. E eu percebo que a multidão, na verdade, não está interessada no palco e sim seguindo freneticamente qualquer pessoa com a camisa do evento, em busca dos ingressos. Tento acompanhá-los e quase sou atropelado no meio da avenida.
19:08 - Tento o lado de cima da rua. Ainda mais pessoas, com piercings variados e óculos com aros de cores variadas. Confusão. Reclamações. Começo a achar tudo uma puta de falta de sacanagem e sinto vontade de xingar muito no Twitter. Sério. Recupero o senso do ridículo. FUJO.
19:45 - Chego em casa e consigo confirmar um credenciamento de imprensa. Pelo menos pra isso serviu o diploma.
21:00 - Chego no Lapa, lugar marcado para o evento. Muita gente na porta. Lá dentro, os Dead Lovers já tocam para gatos pingados.
21:05 - O Lapa, como uma velha senhora vestida com camiseta de banda indie, está todo decorado com grandes quadros do evento e um grande painel representando a respectiva década do rock no fundo do palco (os Dead Lovers começaram com os anos 50). Todo mundo ali vai ser figurante e espectador de um grande comercial de tênis.
21:10 - Dead Lover´s toca Odair José (considerado integrante da banda, portanto não foi um cover).
21:17 - Dead Lover´s começa os covers da década de 50. A banda com o disco mais legal, representando a década mais digna, está tocando, mesmo assim pouca gente entra ou chega perto do palco.
21:49 - Gasto minha segunda ficha de bebida e começo a me arrepender de não ter comprado mais ao ver a fila do caixa aumentar (mais tarde ela quase daria a volta no Lapa). Entra no palco o Proa, banda instrumental que também deveria ser instrumental no intervalo entre as músicas. Baixo, bateria, guitarra, acordeon, teclados, clarineta e, agora sim, as pessoas não param de chegar.
22:13 - “I fought the law and the law won”. A década de 70 é mais selvagem, o Fusile idem e eu ainda tenho esperança de que eles parem de deixar entrar gente. Mas consigo ver um lado bom: o de cima. Descubro que posso entrar no segundo andar, ainda vazio.


Fusile

22:32 - Ao som de um ótimo cover de Mutantes, troféu joinha da noite, vejo o Lapa do alto e penso que nunca o vi tão cheio, nem com Los Hermanos, nem Cordel do Fogo Encantado. E nem precisou de banda maior que Los Hermanos ou mais picareta do que Cordel.
22:40: Na fila gigante do banheiro, adianto a moral da história: se você quer se dar bem em BH, faça eventos gratuitos em período de férias escolares. O lugar mais tranquilo de ficar é no mosh à frente do palco.
23:02 - Hell´s Kitchen Project também dão uma roubadinha nos clichês e fingem que os anos 80 foram legais, tocando Pixies, Beastie Boys e fechando com Motorhead, que fez o mosh da frente do palco não ser mais tão tranquilo assim.


Hell's Kitchen Project

23:22 - A “área VIP” do segundo andar já está mais cheia do que lá embaixo.
23:35 - O Monno começa o melhor e mais desanimado show da noite. Melhor porque eles eram a banda mais adequada para sua respectiva década. “1979”, “She don´t use jelly”, “Enquanto o mundo dorme”, “What´s the frequency, Kenneth?” e o cara de semi-moicano mascando meninas perto do bar nem deve ter percebido a diferença.


Monno

0:13 - Comendo cachorro-quente do lado de fora. Absurdamente, uma fila de pessoas ainda está entrando no lugar.
0:53 - Macaco Bong está no palco de novo. Acho que eles estão tocando Nirvana e repetindo os anos 90 do Monno. Até faz sentido, a década de 90 realmente demorou muito pra acabar. Mas não tenho mais forças para passar por tudo de novo. Volto pra minha casa, na década de 10.


6 horas em 1 minuto

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