Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Consumismo manguebeat

Orquestra Manguefônica ao vivo – Chevrolet Hall, BH, 25/03

por Rodrigo Ortega

receite essa matéria para um amigo


Jorge Du Peixe, da Nação (à esq.) e Fred Zeroquatro, do Mundo Livre.

As roupas são simples, o som não vende fácil e o discurso, especialmente de Fred Zeroquatro, é anti-capitalista. Mesmo assim, a Orquestra Manguefônica, reunião ao vivo dos recifenses da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, promoveu no Chevrolet Hall, em BH, um festival de consumo tão grande quanto o de adolescentes em liquidação de shopping. Claro que os produtos são diferentes.

A primeira troca que os músicos e o público fazem é de fast-food por cerveja, tabaco e maconha. Os copinhos são dourados e o ar é cinza. Até os membros da produção em cima do palco fumam um cigarro usando o dedo indicador e o dedão, forma mais comum de consumir a última, não a penúltima substância citada acima. Fred troca o Zero por D e divide o quatro por dois quando ouve uma introdução estranha do tecladista Bactéria: "Eu acho que a galera está fumando demais", brinca.


A fumaça, aí no caso, era gelo seco.

As drogas leves combinam com o som pesado. São dois baixos, duas baterias, duas percussões, três tambores, um teclado e uma guitarra, com a qual Lúcio Maia, da Nação Zumbi, consegue heroicamente não ser esmagado pelas batidas. Seus riffs comandam a mudança do arranjo original de “A cidade”, que é misturada com "London Calling", do Clash. Mas o maior dispêndio não é com os combustíveis roqueiros. A Orquestra Manguefônica gasta o próprio passado e o público consome sem pudor.

A Orquestra surgiu de um projeto do Sesc de São Paulo, que elegeu Da Lama ao Caos (1994), estréia da Nação Zumbi, entre os melhores discos da música popular brasileira. Desde meados dos anos 90, a Nação conseguiu sobreviver à morte do ex-líder Chico Science e o Mundo Livre consolidou sua carreira sem se apoiar apenas na ligação com o “movimento manguebeat”. Mas a Orquestra Manguefônica vai fundo na gaveta das duas bandas.


Uma cerveja durante o show é muito bom pra ficar pensando melhor.

Eles mudam os arranjos de músicas como “A praieira” e “Da lama ao caos”, fazendo uma transferência alta da poupança de reputação como “clássico” para conta corrente do contato com o público, que responde com pulos e movimentos aleatórios de cabeça e ombros. Além das composições de Chico Science, o público acompanha com fervor as canções dos primeiros discos do Mundo Livre, como “Pastilhas Coloridas” e “A bola do jogo”.


Du Peixe mexe na massa sonora.

Sem demonstrar cansaço com o pula-pula de “Manguebit” ou “Banditismo por uma questão de classe”, após a primeira saída do palco, os presentes exigem a volta dos músicos batendo os pés no chão do Chevrolet Hall. É a deixa para que as duas bandas voltem separadamente para a divulgação de seus novos discos, Bebadogroove do Mundo Livre S/A e Futura, da Nação Zumbi.

“Com a Orquestra Manguefônica é assim: vocês pagam por um show e assistem a três”, contabiliza Fred Zeroquatro. Sua conversa não anima o público como na primeira parte do show. O Mundo Livre está mais focado no discurso, enquanto a Nação mexe na sua massa sonora. Consumido o passado, cada um vai para o seu lado.

» leia/escreva comentários (6)