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De lá pra cá e pra acolá

Rock en Seine – Domaine National de St-Cloud, 25 e 26/08/06
Radiohead, Raconteurs, Rakes e Beck ao vivo

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por Alfredo Brant

Fotos: Fábio Nascimento

Além do calor incomum e das milhares de famílias que saem de férias, o verão europeu é marcado por um incrível calendário de festivais musicais que acontecem entre junho e agosto. Grandes encontros acontecem na Bélgica, Alemanha, Espanha e no leste europeu. Alguns já existem há mais de 30 anos, como o famoso Montreux Jazz Festival, na Suíça, e o Glastonbury Festival, que acontece desde 1970 na Inglaterra.

O que segura um festival são, sem dúvida, os grandes artistas escalados. Não importa se no papel a seleção é boa: sem estrelas os festivais não acontecem. É por isso que na França um festival que está apenas em sua quarta edição é um dos mais disputados e comentados por aqui. O Rock en Seine acontece em um grande parque localizado nos arredores de Paris. Neste ano, o festival ocorreu nos dias 25 e 26 de agosto e teve como atrações principais Morrissey e Radiohead fechando o evento.


Radiohead: festivais precisam de estrelas

Uma primeira constatação é que é humanamente impossível assistir a tudo que você queira. São três palcos, com uma distância considerável entre eles e os shows acontecem ao mesmo tempo. Sexta-feira, por exemplo, assisti dez minutos do Dirty Pretty Things para pegar todo o show do Clap Your Hands Say Yeah.

Creio que foi a escolha errada. Enquanto a banda de Nova York fazia uma apresentação discreta, com o vocalista Alec Ounsworth tentando em vão contagiar o público com sua voz esganiçada, a banda de Carl Barât fez um dos melhores shows do festival, segundo a imprensa francesa.

No mesmo palco onde a banda inglesa tocou, assisti a uma apresentação pouco inspirada dos americanos do Nada Surf. A “grande scène” deveria ter sido ocupada pelo Kasabian, que fez a platéia vibrar no segundo palco com um show chapado e dançante. Tocaram várias músicas do novo disco, Empire, e pelo que se viu estão mais Primal Scream do que nunca.


Benson e White têm sombras bem características

Em seguida, o palco foi ocupado pela sensação The Raconteurs. Para muitos o melhor show da noite. O mais ensurdecedor, com certeza. Jack White e sua guitarra foram mesmo feitos um para o outro. Tocaram uma versão rasgada até a alma de “Bang Bang (You Shoot Me Down)” de Nancy Sinatra e foram ovacionados.

A segunda conclusão da noite: tocar no palco principal faz toda a diferença. Talvez por isso o show do TV On The Radio tenha passado despercebido. Os vocais de soul intercalados com as guitarras noise proporcionaram uma apresentação intensa. Porém, relegados ao terceiro palco, onde o público se dispersava mais facilmente, não ficaram na memória.

Esse problema Morrissey não teve. O crooner inglês entrou no palco principal com o jogo ganho. Cantando com a habitual classe, intercalando canções da carreira solo com clássicos dos Smiths, não tinha como dar errado. No bis, com uma projeção de Oscar Wilde ao fundo, ele finaliza triunfante com “Stop me if you think you’ve heard this one before” e todos saem felizes.


Rakes: o hype tem dessas coisas

O sábado amanheceu chuvoso, mas o movimento era grande desde a abertura dos portões. Foi um dia de boas surpresas. Logo às 15h, assisti ao show do Broken Social Scene. Definido na programação do festival como “a grande aventura do post-rock canadense”, a banda é uma daquelas que, a maneira do Arcade Fire, é composta por vários integrantes. Todos cantam e trocam de instrumentos constantemente. O som coeso e hipnótico foi bom para começar o dia.

Mais surpresas viriam em seguida. No terceiro palco, presenciei a apresentação de um bizarro power-trio francês chamado Fancy. Os integrantes andróginos, influenciados pelo melhor do glam-rock dos anos 70 e pelo pior do pop dos anos 80, são no mínimo hilários.

Na seqüência, o pós-punk do The Rakes não era exatamente uma surpresa. O público lotou a beirada do segundo palco e cantou várias músicas. Os ingleses souberam tirar proveito do hype e fizeram um belo show. O hit “Open Book” foi o ponto alto.


Ele é um perdedor, baby.

Com o festival se encaminhando para o fim, tive que sacrificar o show dos Editors para assistir ao Beck no palco principal. Dessa vez foi a escolha certa. O grande talento de Beck é transitar por vários estilos com inteligência e bom humor. Assim, amparado por uma afiada banda de apoio, ele fez uma deliciosa retrospectiva de sua carreira. No show, marionetes representando a banda ao vivo são projetadas no telão enquanto os músicos tocam, dançam e até fazem uma refeição quando Beck toca um set acústico.

E então chega o momento pelo qual as 30 mil pessoas presentes esperavam. O palco fica na escuridão por vários minutos enquanto sons indecifráveis vão criando uma ambiência. Enfim, o Radiohead surge em cena para sua única apresentação na França neste ano. De quebra, prometiam apresentar algumas novas canções do disco previsto para janeiro de 2007.


Obrigado, Thom!

Os sucessos do início de carreira são cantados em coro. Quando a banda toca faixas do Kid A ou Amnesiac, o que se vê lembra um transe coletivo. Nas quatro novas músicas, o público escuta com atenção para depois aplaudir. Entre elas, duas difíceis e lentas, um bom rock cheio de guitarras e a sublime “All I Need”. A performance de Thom Yorke é algo difícil de descrever. A voz angustiada traduz o caos e a loucura em densas melodias. O concerto termina com “Karma Police” e não é preciso dizer mais nada. Rezem para essa banda tocar no Brasil.

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