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Congelamento X Derretimento

Campari Rock Tour – Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 09/09/06
The Cardigans e Gang of Four ao vivo (Abertura: Digitaria)

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por Braulio Lorentz

Fotos: Braulio Lorentz e Mariana Marques

Não basta ir aos shows, tem que participar. Decepcionar-se ao som de Cardigans, pular ao som de Gang of Four. Tietar se pintar vontade, ir pra arquibancada e descansar um pouco se faltar fôlego entre uma sacudida e outra. Pedir bis se bater o desejo de ouvir “Communication”, correr sem sair do lugar quando se empolgar com “Not Great Man”.


Nina, gosto de vocês, mas faltou quentura...

O Cardigans tinha tudo para ir embora deixando um show memorável pra trás. Mas o que se viu, no entanto, foi uma apresentação sem sal, sem decolagens, sem bis, sem tesão e sem bom gosto para roupas. A vocalista Nina Persson usa sempre a mesma calça e o mesmo corpete ou ela tem várias peças iguais?

Hit indie, o Cardigans tem.

“My Favourite Game” fechou a apresentação dos suecos e sempre dá o ar da graça em festas de indie rock da capital mineira.

Hit popular massivo, o Cardigans tem.

“Lovefool”, o mega-hit-concessão incluído por ser a primeira vez da banda no Brasil, é conhecido por todos que não estiveram em coma na década de 90.

Fãs fanáticos, o Cardigans tem.

Eles saem do Chile e jogam uma bandeira do país no palco do Chevrolet Hall. Pedem “Been It”, em vão, com sotaque pernambucano. Conversam com sotaque carioca sobre o setlist dos shows anteriores em São Paulo e Florianópolis. E vão embora após o show da banda favorita. Pena que, entre chilenos, recifense, cariocas e mineiros, eles não passavam dos 50.

Por falar em fãs, o Pílula Pop conseguiu uma tietagem exclusiva com o tecladista Lars-Olof Johansson. Ele nos contou que a banda partiria direto para a Suécia após o show de BH: o último da turnê do disco Super Extra Gravity. O homem dos teclados estava com um copo de café em uma das mãos e um CD do Los Hermanos, com o qual o presenteamos, na outra. Lars voltou para o camarim segurando um punhado de encartes de discos. Minutos depois, voltou com todos eles devidamente rabiscados.


Ah, o Chile!

Simpatia, o Cardigans tem.

Só que ela não é tão bem distribuída entre os integrantes. O baixista Magnus Sveningsson incomoda alguns com sua “afetação” e ganha o rótulo de “gracinha” de outros. Só restava dizer: “Esse cara aí que responde todas as mensagens dos fãs no site oficial? Putz, pensei que ele fosse legal. Talvez até seja. Mas me pareceu muito, sei lá, deslumbradinho e bobo”.

Voz, o Cardigans tem.

Para muitos, eu incluso, Nina Persson convence na performance vocal, mas passa uma imagem de distância e frieza. Vai ser frio assim lá na Suécia. Ela canta como se tivesse esquecido a televisão ligada em sua terra natal. Esboça carinhas sorridentes misturadas às de cansaço. Nina fala bastante entre seus risinhos: talvez seja eu que não entenda muito bem o humor sueco. A moça chega a apanhar uma coroa arremessada ao palco e colocá-la na cabeça. Porém, o adorno ficou bem melhor na cabeça do baixista, metafórica e literalmente.

Se Nina, que é dona das canções (muitas dessas bem bonitas, como “In The Round” e “Rise and Shine”, que abriram o show) não se entrega às versões ao vivo das músicas, porque sou eu que vou me entregar?


King fica parado. Só às vezes.

Sem mega-hit, sem fãs fanáticos, sem simpatia e sem a doçura do Cardigans. Odeio quando textos começam com frases sem verbos que parecem as de textos de matérias de TV, mas dessa vez não teve jeito.

Estamos em 2006 e todos se mexem com o barulho feito pelos quatro tiozões. Eles executam petardos que estiveram em discos lançados entre 79 e 82. Fora desse período, apenas um trabalho foi tão “oba-obístico” de acordo com crítica e público.

O CD em questão é Return The Gift, de 2005, com regravações de músicas lançadas entre 79 e 82. Será que eu preciso re-repetir? Ou está bem claro que TUDO que o Go4 já fez de relevante e dançante foi lançado entre 79 e 82? As músicas são dessa época, mas servem pra agora também. Que o digam Franz Ferdinand e farinhas do mesmo saco.

Ah... Mas como esses quatro anos de vida criativa renderam coisas legais! Com algo perto de três minutos – dá-lhe “Return The Gift”, a canção! – o Go4 tirou a poeira da sola do meu tênis. Os caras aumentaram a temperatura assim que entraram em ação.


Imagine uma boca bem aberta atrás dessa mão. Multiplique por três.

Correr.

O vocalista Jon King corre pelo palco e contagia quem não está acostumado a fazer esforços físicos em shows. Parecia que o cara tinha a pretensão de cantar em todos os microfones espalhados pelo palco. Ao mesmo tempo. Claro, ele não conseguiu. King é muito bom, mas não é Chuck Norris.

Quebrar.

Se eu não estivesse tão entretido, juro que contaria pra você quantos pedestais de microfone King quebrou. Poderia também reportar a quantidade precisa das barulhentas pauladas que o vocalista deu em um aparelho de microondas.

Dançar.

“Eu não conheço nenhuma música deles, mas achei o show ótimo”, disse um companheiro de Pílula Pop. A sentença resume bem o que foi o espetáculo do Gang of Four. Não precisa estar em 82, ouvir os três álbuns formidáveis (e os outros cinco também) ou ter boa vontade. Eu, por exemplo, já estava decepcionado pelo show anterior, não morro de amores pelo Go4, mas dei o braço a torcer. Ou melhor, dei pernas a mexer.

Descongelar.

Eles descongelaram o ambiente e “Damaged Goods” provou que hit indie, depedendo do contexto, pode sim bater hit popular massivo. Sinceramente, não precisava de microondas para derreter o gelo. Nunca precisa né? É só deixar exposto à temperatura ambiente.

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