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A criança escondida

Skank ao vivo – Canecão, Rio de Janeiro, 15/09/2006

por Rodrigo Ortega
(texto e fotos)

"É muito bom começar aqui no Canecão a turnê de 15 anos do Skank", comemorou Samuel Rosa. Como um mau mineiro, pensei: "Caraca!". Sou de uma geração em que o Skank é rock da nova geração. Agora eles estão no oitavo disco, Carrossel, e eu deixei há muito tempo de acompanhar as aventuras de Henrique, Haroldo e Lelo, desde que gastei minha mesada com O Samba Poconé e um mês depois rasguei minha calça jeans e troquei todos os meus CDs na galeria do rock. Mas 15 anos são demais para o velhinho aqui. Na verdade, em 1991 eu não sabia onde era o Bar Nacional e preferia ficar em casa tomando Quick Morango e me divertindo com os capítulos de Carrossel, a novela. Portanto, se o assunto é nostalgia, cada um usa as referências que tem.

Professora Helena

Samuel Rosa provoca reações controversas, mas é um bom profissional e sabe tomar a palavra. Antes de fazer o Canecão cheio entornar com “É uma partida de futebol”, ele soltou: "Não tem lugar melhor para tocar essa música do que o Rio". Pode parecer apelativo mas quando ele dedicou a bela "Amores Imperfeitos" ao público carioca, pareceu carinhoso. Atencioso ele também foi: se ia cantar mais perto das pessoas do lado direito, ficava também exatamente o mesmo tempo do lado esquerdo. Por fim, o vocalista foi didático: "Já deu pra aprender, agora vamos cantar juntos", pediu antes de tocar pela segunda vez a atual música de trabalho, "Uma canção é para isso".


Tio Samuel

Laura

Quem achou que eles iam abrir com um hit sacolejante, para conquistar o público, errou. O Skank agora aposta menos nos quadris e mais nos corações. A primeira música foi a nova e bonita "Até o amor virar poeira". Também no início do show, rolou uma das melhores músicas de Carrossel, “Eu e a felicidade”, parceria de Samuel com Nando Reis. Quando ouviu os versos “Depois de me ver, mostrou seu rosto e acenou / Depois disse adeus, beijou minha boca e abençoou”, uma menina gordinha e simpática do meu lado sussurrou: “Isso é tãaao romântico...”. Pô, não importa se isso aconteceu de verdade. Não seja anti-romântico.

Cirilo

Quase toda aula, capítulo de novela ou show tem pelo menos um momento “Ahn!?”. A apesentação do Canecão teve os seus, já que quase toda música do Skank tem pelo menos um verso cuja única explicação é “ele só quis dizer”. O letrista Chico Amaral parece especialmente inspirado nas raras canções em parceria com o baixista Lelo Zanetti. “Poeira / cinema / trincheira” podem até passar batidos no ritmo agradável de “Canção Noturna”, mas “As garotas vestidas ou não / os bongôs marroquinos nas mãos” da nova e insossa “Garrafas” não descem nem com paradinhas e arranjo caprichado no show.

Jaime Palilo

O som, a luz e o cenário do show são de superprodução moderninha. Mas, como eu aprendi com aqueles garotos batutas, dinheiro não compra amizade. Suor sim, e Samuel gasta litros para ganhar o troféu Jaime de “o mais querido da turma”. “Jackie Tequila” não é nenhuma novidade, a versão de dez minutos com “Esmola” no meio também não, e mesmo assim o público se esbalda. Outra velha conhecida, “Garota Nacional” ainda provoca a mesma comoção de quando Sabrina Parlatore não cansava de anunciar o clipe safadinho no primeiro lugar do Disk.


Samuel, o cenário moderno e Lelo

Maria Joaquina

Nunca devemos julgar uma pessoa pela aparência. Mas, supondo que eu tivesse faltado à aula que ensinou esta lição, teria certeza que o tecladista e guitarrista Henrique Portugal não é do núcleo bonzinho. Sua cara por trás dos teclados é de quem esqueceu a chaleira no fogo, deixou a televisão ligada e, acima de tudo, está com preguiça. Com isso, Samuel tem que interpretar todos os personagens do núcleo simpático. Henrique é competente nas melodias, e às vezes até distribui uns sorrisos aqui e ali. Maria Joaquina também tinha boas falas e fazia coisas legais em um ou outro capítulo. Mas era só pra fazer o Cirilo de bobo, que eu sei.

Paulo e Kokimoto

Não deu pra terminar sem elas: as travessuras. A maior traquinagem não foi o grito de “maconha!” do público em “É proibido fumar”, e a dupla travessa da vez não foi Paulo e Kokimoto. Quem mereceu suspensão dos seguranças foram dois marmanjos que provavelmente não estavam bebendo Quick Morango e fizeram sua briga interromper o show. Samuel também não foi muito anjinho nessa hora, e se preocupou mais com sua banda lá em cima do que com os inocentes lá embaixo. “A gente trabalha meses pra montar esse show e o cara vem aqui atrapalhar”, reclamou.

Passado o susto, todos foram felizes para sempre. Se não para sempre, pelo menos até a hora de “Saideira”, em que até os tios cariocas das mesas mais longínquas deixaram o chopp esquentar e se levantaram para embarcar no Carrosel dos mineiros.

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