Busca

»»

Cadastro



»» enviar

A difícil arte de poder optar

Um olhar a fundo sobre "Estamira", doc de Marcos Prado

por Rodrigo Campanella

receite essa matéria para um amigo

É assim, toda edição. Enquanto uma dezena e meia de pessoas, presa numa casa abarrotada de câmeras, se divide entre maquinações 24h e edredons recheados de gente, os comentários sobre o que é encenação e o que seria “realidade” ali dentro pipocam em todos os canais de televisão. E, invariavelmente, alguém sempre vem, com a sabedoria de cinco edições globais do Grande Irmão, dar seu pitaco de semi-sabedoria de papagaio: depois de algumas semanas, eles se esquecem das câmeras. E, supostamente a partir dali é que o “show” começaria a ser, digamos assim, apenas “reality”.

Que pena seria se as coisas fossem tão simples. Em primeiro, porque seria bastante enfadonho tudo acontecer assim de modo tão esquemático. Em segundo, porque eu perderia meu primeiro parágrafo. Mas a realidade é que o documentário, bem antes que a emissora carioca importasse o pesadelo de Orwell em formato showtime, já se deparava com essa potente questão: em frente à câmera, qual é a realidade que se pode esperar de alguém convertido em personagem de vídeo-cinema.

De saída, não há como invocar uma ‘realidade mais real’, onde estaria o personagem ‘em si’. O cotidiano já é uma variedade de encenações, o que nem de longe quer dizer que se minta o tempo todo. E, claro, em frente à câmera, tocando a própria história em par com o que diz o diretor e com todo o aparato de filmagem ao redor, tudo assume um novo jeito. A pessoa se encena de um certo modo – o personagem que ela constrói de si, para aquela lente. A câmera, como a vida diária, convida a encenar.


Estamira caminha pelo local de trabalho

“Estamira” estréia nas salas de cinema de Belo Horizonte em paralelo com as letras gigantes que acenam, na telinha, com o convite de um milhão para a nova chegada do Big Brother brasileiro. Entre as poucas ligações que aproximam um e outro está essa questão, do quanto estamos ali como consumidores de ficção ou como voyeurs de um naco de histórias reais.

Um filme é um filme

“Estamira”, já de princípio, não se engana nem tenta esconder que, frente à câmera e mesa de edição, a história se refaz em algo diferente do que ela poderia ser na intimidade. Estamos na sala escura e fechada de um cinema, os ouvidos torcem para que as caixas de som não comecem a chiar, a montagem imita a lógica do olhar mas salta, anos até, de um corte para o outro, e re-faz uma outra história diante dos olhos. E lá, na abertura, está Estamira que anda, saco plástico na mão, rumo ao serviço, Aterro Sanitário de Jardim Gramacho.

E essa Estamira não se apresenta, mas o filme a introduz. A imagem da mulher atarracada que caminha de modo acelerado e engraçado pela abertura é irmã daquela dos filmes do princípio do cinema – temos menos de 24 quadros por segundo em fotografia brancoepreta. Ali está dito: o filme conta uma história, o filme manipula ao contar, ele não tira um retrato do mundo – e quem disse que num retrato há essa fidelidade toda?. A pergunta é brinde também da fotografia do filme, da primeira metade dele ao menos, grande retrato de respeito ao mundo tão diferente de um Outro, feito em pura imagem.

O mundo de Estamira aparece estranhamente encantado diante das lentes de Marcos Prado, assinando direção e fotografia. Encantado, não romantizado. Enquanto os devaneios da mulher que expurga Deus do mundo e se diz portadora da verdade aparecem diante desse universo de fogo e sombra e luz apenas, “Estamira”, o filme, vai construindo uma história endurecida, cheia de ranhuras, com poucas entradas mas muito boa de admirar. Mas quando Prado vai se dividir entre dar vista ao mundo estranhamente encantado de Estamira naquele lixão e partir também para uma espécie de denúncia social, os fios do filme se soltam. Nesse ponto, é muito fácil se perder.

Fatos, versões e outros artigos de primeira necessidade

Isso é um documentário: alguém se encena diante da câmera, se mostra ou dissimula, se constrói de algum jeito. Isso é uma notícia: publicar uma versão de algo que, talvez, possa-se chamar de fato. Acontece assim: caiu um míssil e destruiu uma casa. Esse é um fato, mas não uma notícia. O jornalismo lança fatos dentro de contextos: põe alguém por trás do míssil, outro alguém dentro da casa e muito mais gente ao redor. No jornal, o míssil que destruiu a casa ressurge como “Israel ordena ataques ao Líbano”, “Israel revida ataques terroristas” ou “Civis libaneses mortos em meio a retaliação israelense”.

Um documentário é muito de uma versão, ou de várias. A do diretor que transforma dezenas de horas de material em roteiro para montagem, a do montador que opina, a do personagem que se expõe assim, não assado. Até do Big Brother já se convenceram, e demorou, que é ao final das contas uma versão de quem quer que esteja na nuvem de Truman Show dali: o tal boato corrente de que “a edição é manipulada”


Estamira abre os braços e roga. A quem, não se sabe.

A questão é que, ao se partir no binômio de por um lado denunciar a situação daquela mulher e, por outro, elucidar o universo de Estamira, o filme perde a força na construção da personagem quando ela mais prometia crescer. Entretanto, a visão da família, do tratamento médico e da intimidade caseira de Estamira acrescentam respeito à figura humana, além da personagem. Algo difícil de ser notado logo na saída do cinema, que talvez até rendesse um texto mais duro que esse logo após a exibição, mas que assenta um pouco na cabeça depois. É uma opção, não uma necessidade do filme, e assim deve ser visto.

E exatamente por ser opcional, não cansa de incomodar uma questão que sopra ao pé do ouvido. Um personagem tem aquela condição de se encenar diante da câmera, abrir seu próprio mundo ali, com caminhos livres e barreiras impostas. Prado, diretor, abre esse campo para Estamira na primeira metade do filme. Depois vai se aprofundando na opção de retratar mais cruamente sua loucura e a condição social que a esmaga por cada canto. E é aí que Estamira, a mulher, parece perder o filme que era de algum modo seu até então. A mesma edição que lhe deu todo aquele espaço de fala e fabulação corta numa rasteira para a fealdade do mundo. O que era a encenação da catadora-profetisa vira um retrato colorido de sua amargura – e ela deixa de ser realidade para se tornar dado social exemplar.

Se Estamira comeu o deus do tempo ao se tornar filme, e ganhou agora notoriedade para os que a assistem, assim seria independente dos caminhos escolhidos pela direção. A impressão ao fim é de que ao investir apenas no mundo idílico da personagem, daquelas imagens que parecem de outro lugar possível mas improvável de existir, o filme ficaria tão mais perto de deslocar nosso olhar, normalmente pobre, para fazer ver de outro modo a gente por trás da loucura, da pobreza e esse outro que aparece ali personagem – um Outro de nós mesmos, afinal. É a habilidade de Prado como fotógrafo do filme que vai alcançar algum deslocamento do olhar de quem assiste e fazer ressurgir a profundidade em alguém que poderia aparecer de relance como ‘a doida que cata resto no lixão’.

Ainda que a opção possa ter sido contrastar as várias faces do mundo multiplicado de Estamira, entre os sonhos/delírios e a intimidade recheada de espinhos, algo se perde nessa fissura – o mesmo que em “Ônibus 174”, produzido por Prado mas dirigido por José Padilha, conseguia resistir e fazia mais forte a denúncia social inescapável do filme.“Estamira”, ainda assim, é um bom lançamento, para forçar a olhar o mundo. Acerta em cheio nos olhos ainda que não chegue tão a fundo na cabeça ou no peito.

» leia/escreva comentários (4)