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Interiores (e contradições)

Imagem dos Povos 2006, Ouro Preto - 15 a 19 de novembro de 2006

por Rodrigo Campanella

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Fotos: André Fossati

As vielas estavam lotadas de turistas e nativos e universitários que não se incomodavam com a magreza das calçadas e iam andando pelo meio da rua mesmo. O restaurante estava lotado, concentrando o fluxo da rua entre quatro paredes e dando vista a um caos balizado por toalhas nem tão brancas. No almoço em outro restaurante (no primeiro, nem esperando brotava uma mesa) dava para ver ali da sacada que a lotação da rua não cessava. A Praça Tiradentes, ponto zero geográfico para qualquer turista da cidade, espraiava a lotação pelas lojas do entorno que engoliam e cuspiam gente o mais rápido possível. Mas ali, naquele começo de tarde, a sala do “Imagem dos Povos” no Grêmio Literário Tristão de Athaíde, o GTLA, estava vazia. Pena. O muito bom “Subarna-Rekha (A Linha Sagrada)” merecia mais gente na platéia.

A programação da Mostra Internacional Audiovisual naquele sábado estava quase toda concentrada no pós-almoço. A Mostra é a faceta exibidora das três que compõe o projeto “Imagem dos Povos” e se dividia entre o Cine-Teatro Vila Rica e o GTLA. Nesse último, a programação do dia começava com um curta indiano, uma seleção gaúcha de curtas produzidos com o incentivo da TV RBS e as mais de duas horas de “Subarna Rekha”, longa indiano dos anos 60. Nessa palheta geográfica ficou faltando apenas Minas Gerais, o terceiro local abraçado pelas telas do “Imagem”. Todo ano, um estado brasileiro e um país são convidados a dividir as projeções do evento com os mineiros.


O Cine Vila Rica convida

Mas é preciso voltar um momento antes de descer as escadas e encontrar aquela sala vazia para entender porquê mais de 25 pessoas passaram pela exibição dos gaúchos e do indiano além das sete que estavam presentes no começo e no final da sessão. Logo que chegamos ao GTLA procurando o local de retirada de ingressos e esperando alguma lotação, o rapaz vestido com a camiseta branquipreta da organização do Festival no saguão vazio nos pediu somente para descer até a sala. Quando chegamos ao Cine Vila Rica, o porteiro acenou para que entrássemos direto. Motivo simples: o imagem dos povos não distribui ingressos. Enquanto há um lugar possível para um espectador, entra-se.

Há poucas lotações, mas o impacto que essa decisão gera vai muito além da facilidade para a organização ou do conforto para o público. Entra-se e sai da sala quando dá vontade. Para ver apenas um curta solto, ou metade de uma seleção ou uma hora e tanto de um longa bollywoodiano ou ele todo. Entrar, sair, voltar a entrar, e a sair. Como a maior parte das sessões tem alguma folga de lugares, o movimento não incomoda. E vale muito: entre a sala de cinema e a rua não há catraca, não há marco de separação senão a luminosidade. Com um pé dentro do ambiente escuro e logo outro fora, a sensação maior é de que o cinema é desmistificado como lugar à parte, inacessível. Cinema também é parte da rua – e ainda assim seu espaço permanece ali diferenciado e especial. Simultaneamente.

No Cine-Teatro Vila Rica, o saguão de entrada também respirava um marasmo enganador que encobria o movimento tocado por quem estava na sala escura. Apenas no hotel que serviu de base para a Central de Imagens, a faceta oficina de audiovisual do “Imagem dos Povos”, o movimento era aparente, todo o dia, no subsolo aberto para o saguão superior e para a rua lateral. De resto, para quem vinha de fora da cidade, a mostra poderia passar em branco, apesar de todo passear de gente e idéias trazido por ela – algo bem ouro-pretano.

O silêncio e o movimento de um mesmo festival ilustram bem as duas tradições contraditórias que dividem, lado a lado, a Ouro Preto atual. Aparentemente, há boa convivência entre elas mas não muito diálogo. Limites são respeitados. De um lado, o mundo particular dos estudantes da universidade federal, a UFOP. De outro, a tradição mais intimista, tranqüila, religiosa e desconfiada dos nativos da cidade. Há rusgas de quando em quando, mas às vezes a bolha das diferenças cisma de explodir. Na Semana Santa, enquanto a procissão passa, as repúblicas federais do centro da cidade já sabem que é hora de fechar as janelas e entocar as festas nos porões-danceteria. Passada a procissão, o som sobe novamente. Nesse ano, uma permaneceu com a festa comendo solta naquele momento. O padre reclamou da altura do som, deu bate-boca. E alguém resolveu jogar cerveja, da varanda da república, em cima do padre.


A Oficina convida

Não houve apenas constrangimento geral. O banho forçado de cevada e lúpulo deu o pontapé numa discussão profunda sobre o papel das repúblicas federais, de propriedade da universidade mas cedidas integralmente ao uso dos alunos. Sobrados de trinta quartos que aceitavam pouco menos de uma dezena de moradores hoje oferecem vagas publicamente. Os trotes diminuíram a intensidade da “submissão” dos calouros. A chapa que lutava para implantar a condição de renda do aluno como item essencial na escolha dos moradores das casas públicas para alunos quase levou as eleições do Diretório Central dos Estudantes. E a discussão segue, sempre posta em qualquer mesa de bar, podendo passar tranquilamente em branco, mas esperando que alguém a pegue para aperitivo.

Como que para comprovar os dois mundos que ali habitam, num mesmo fim de dia três focos de carnaval apontavam em meio à tranqüilidade geral da cidade para quem observava os bairros lá embaixo de algum dos mirantes ouro-pretanos. E foi na Ouro Preto erguida, cindida e movida por essas duas tradições que tanto a animação infantil indiana “Hanuman” quanto o drama “Maqbool”, do mesmo país, foram dois exemplos de sessão cheia, de acordo com a assessoria do evento. “O que nós ouvimos da população sempre é que enquanto os outros festivais são em Ouro preto, esse é o único para Ouro Preto, dirigido à população local”, conta Ariane Lemos, assessora de imprensa. A divulgação na cidade incluiu visitas e atividades com os alunos da rede pública, “carros de som anunciando a mostra e convites entregues de porta em porta. Usamos os meios da própria cidade para mostrar que era um convite de verdade, não genérico” explica um dos realizadores do “Imagem”, Adyr Assumpção.

A última base do tripé que compõe o projeto é o Seminário Internacional Audiovisual, que dedicou mesas à fala dos exibidores e produtores brasileiros e à experiência do mercado cinematográfico indiano. No próximo ano, o Seminário se expande para a recepção e o encaminhamento de projetos para audiovisual, partindo da discussão para se firmar como espaço de apoio aos realizadores na busca por fontes de patrocínio.


Ouro Preto (sempre) convida

Por todo canto da cidade, encontrávamos alguém com a camiseta da organização – voltando para casa, passeando na hora de folga, descendo para a ferveção do centro – só para lembrar que Ouro Preto ainda é uma cidade de interior. Pequena, se vê obrigada a discutir a perspectiva de abertura de uma faculdade de medicina federal pesando tanto o crescimento que isso poderia render quanto o custo público que viria a cair sobre os cofres da UFOP e da cidade.

Foi para esse interior que o “Imagem dos Povos” armou seus projetores, tripés e mesas de edição - o interior quase sempre renegado pelas mostras e festivais nacionais, especialmente aqueles que se dispõe a contemplar outros países e cinematografias. Foi para o cristalino sistema de projeção do Cine Rica que vieram todas as películas, para a cidade toda que se voltaram as câmeras para tomar imagens e depois editá-las, em ilhas abertas à vista do público, na Central de Imagens. Foi para Ouro Preto que veio aquela promissora seleção de películas com selo indiano nas latas de transportes. E veio a universidade, vieram os cinéfilos, os guris, os turistas, os nativos. Ano que vem, espera-se, virão a China e Pernambuco para fazer companhia aos mineiros. Para lembrar que onde há (e onde se sabe que há) um bom filme no projetor, sempre haverá pelo menos sete pessoas na platéia para levar a notícia adiante e encher a próxima sessão.

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