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O Pato de ouro no fim do arco-íris

Pato Fu ao vivo em Marataízes, Espírito Santo – 05/01/07

por Rodrigo Campanella

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Fotos: Site marataizes.tur.br e divulgação

Marataízes, litoral do Espírito Santo, já teve praia, deixou de ter e ela agora retorna aos poucos, de manso. Mas na primeira semana do ano o que a cidade teve foi chuva, até dar cansaço e um pouco mais. Restou aguardar o show aberto do Pato Fu, anunciado para sexta-feira – o bendito dia em que o sol também resolveu tomar banho de mar.

Cinco Dias

A praia central de Marataízes já teve areia que se espraiava por quase vinte metros na beirada do oceano. A massa de grãos amarelados se nivelava com o calçadão da avenida que faz o contorno da orla e ia encontrar a água apenas lá longe, após o tumulto das cangas estendidas e guarda-sóis a postos.


O Pato sobe no palco para começar 2007. Vinte metros atrás, o mar.

Quem conta isso são os moradores e freqüentadores de décadas do lugar. Nos últimos anos, o mar literalmente engoliu a faixa de areia que o separava do calçadão. Um muro de contenção com correntes, arames e pedras foi erguido, para evitar que a própria avenida zarpasse rumo ao azul. Hoje, a praia retorna aos poucos – realidade, apesar do quê absurdo da frase. A faixa de areia chega a ter oito metros pela manhã, diminuindo gradualmente para um quase nada à noite.

Entre calçadão e mar há um declive de quase dois metros, fruto de toda a areia que se foi e ainda não deu sinal de retorno. Apesar de outras praias da cidade serem até mais interessantes, só se ouve falar na Central. Um gigantesco projeto, envolvendo duas braçadeiras laterais que atuarão como quebra-mar e um aterramento em toda a extensão da orla promete devolvê-la aos melhores tempos, fazendo dali uma bacia artificial.

Mas no início do ano chovia. Torrencialmente. Sob aguaceiro, apenas um aventureiro ou outro arriscava lavar os pés no mar quando a areia permitia. Durante todos aqueles primeiros quatro dias.

Duas horas

Faltava meia-hora para as dez da noite, o horário de início anunciado nos cartazes, mas o show só começaria de fato em duas horas. O que deixa dúvida é se foi um atraso normal ou um acordo tácito entre organizadores e população, como defendia Michel, um colega de BH: “no Espírito Santo, o público só começa a chegar uma hora depois do horário marcado”. Ele próprio nasceu e cresceu por aquelas bandas (em Cachoeiro, cidade do Rei), o que dá peso à palavra. Inclusive, quando eu e minha namorada chegamos com meia hora de antecedência, ele estava lá em frente ao palco. Foi fácil de achar: seis adultos e duas crianças eram o público total.

Uma hora e meia

Susposta hora de início. Roadies acertavam as luzes tranquilamente. Duas meninas de uns cinco anos desenhavam na areia e aproveitavam o grande espaço vazio a um metro de distância do palco.


Esse momento era só dela. Mas foi dividido com todo mundo.

Uma hora

As meninas foram embora, levadas pelos pais: não por receio da aglomeração, mas porque já estava tarde mesmo. Caiu pela metade o número de pessoas na espera – apesar de, nas laterais, boa parte do público que aproveitava o primeiro dia da feirinha noturna ter começado a se aglomerar. A impressão, já que o show foi pouco divulgado, era de que estavam ali esperando para saber o quê.

Meia hora

O apresentador do evento aparece para anunciar pela segunda vez que ainda não é a hora. Uma dezena de pessoas em frente ao palco, mas as laterais e a feira ao fundo só se apinham. Foi ali que veio a quase certeza de que seria um show exclusivo do Pato Fu – para dez pesoas. No outro dia, tinha show do Sideral. “Mas se eu quero ver show particular do Sideral é só assistir ele tocando lá no Café com Letras, em BH, toda semana”, comentou Michel.

Aquecimento

O onipresente John, o baixista Ricardo Kóctus, a bateria de Xande Tamietti e o teclado de Lulu Camargo abrem os trabalhos da noite, chacoalhando palco, público e ossos com “Estudar pra quê?”, bem mais potente ao vivo que em estúdio. Começo promissor até pela criação do clima de espera por Fernanda Takai, voz principal e a cara do grupo. Ela chega de violão na mão e parte para a jugular: “Eu”, seguida de “Anormal”, uma das melhores babas já ouvidas nas rádios do país. Nessa hora, o show particular já tinha ido bater ponto junto dos ex-vinte metros de areia. Centenas de cabeças se alinhavam diante do palco, tomando todo o pátio. Uma hora e meia de atraso. E funcionou.

Ruído (Rosa)

Os metaleiros de Marataízes presentes no show cultuaram o coisa-ruim com cruzes invertidas em “Depois” e fizeram mosh em “Anormal”. Na verdade, fizeram mosh em “Anormal”, em “Sorte e Azar”, em “Uh uh uh, lá lá lá, ié ié” e em quase todas as músicas do último disco, “Toda Cura para Todo Mal” que serve de base para a turnê atual. Só não lembro de ter visto os camisetas negras se jogando em “Simplicidade”, talvez porque estivessem vendo o simpático “caipinauta” de marionete, comandado por Fernanda, cantando a música. Mas juro que me lembro de uns empurrões lá na frente em “Canção Pra Você Viver Mais”, já no bis.

A Menina

Pena, na ótima barulheira deu pra ouvir pouco a voz doce de Fernanda, mais afiada e firme ao vivo que na versão cd.


Possivelmente o caminho para toda cura passa perto daqui.

Os Meninos

No comando da ótima barulheira, energia de quem parecia estar na segunda semana de turnê e não na estrada há um ano e meio. Fiquei uns vinte minutos esperando do John uma expressão de cansaço e tentando entender como, tocando algumas daquelas músicas há mais de uma década, ele ainda acha prazer. Não achei nem a resposta nem o cansaço, mas fui ouvir de novo o “Toda Cura” na volta para casa. Engraçado como a expectativa atrapalha uma audição. O último cd é um dos mais sofisticados e felizes da banda. Esqueça o rótulo de “Os Novos Mutantes”. Eles são o Pato Fu, e é isso.

About a boy

Alguém me disse que os meninos todos querem ser guitarristas num certo ponto da adolescência porque, indo nos shows e com vergonha de dançar, acabam procurando algo para se ocupar e encontram isso nas manobras da guitarra. Saí do show com vontade de voltar a tocar guitarra. E eu ainda dancei.

Formol

Músicas que não envelhecem: “Sobre o Tempo”, “O Processo Da Criação Vai De 10 Até 100 Mil”, “Made in Japan”, “Capetão” e “O Peso das Coisas” ( mas a última, infelizmente, não teve no show)

Pré-formol:

Se envelhecerem, eu ponho a mão na brasa: “No Aeroporto”, Uh uh uh, lá lá lá, ié ié”, “Simplicidade” – a última com direito a guitarra emulando viola caipira e um dos melhores momentos do último cd.

Já era

Agora, “Canção Pra Você Viver Mais” e “Ando Meio Desligado” já foram tão fritas pela execução prolongada que mereciam férias de alguns anos.


O Pato Fu é uma banda que põe a intimidade nas músicas

Malhação

A média de idade perto do palco era entre 14 e 18 anos. Éramos os únicos velhotes de vinte e alguns anos no pedaço, aparentemente. Mas que coisa boa saber que a molecada que vê “Malhação” de tarde encontra tempo para ouvir e gostar do Patofu – como a gente fazia, afinal. Quase todas as músicas tinham coro garantido. Mas ele era maior nas que tocaram na TV.

Profissa

John e Fernanda cantaram, pularam, animaram platéia e deram cara à palavra simpatia no dicionário. Kóctus pulou, pulou e fez cara de mau. Junto de Tamietti, que tentou colocar a bateria abaixo umas três vezes, e do tecladista Lulu, fez funcionar a cozinha do Pato: discreta, eficaz e montando uma bela marreta sonora. A banda permanentemente mais bacana dos últimos quatorze anos mandou um abraço.

Noise (Reduction?)

No Sound Forge, programa de edição de áudio, há um filtro chamado Noise Reduction. Sua função: passar uma lixa sonora em toda chiadeira, fritada ou som acima do nível. Numa edição pós-filtro, a voz de Fernanda seria mais audível, mas você nunca entenderia como aquele show foi bom. Porque barulho é essencial e o chão tremer faz toda diferença. É ali que você entende, de uma vez por todas, porque os discos pop do Pato Fu pertencem a uma banda de rock.

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