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Mamãe tem sempre razão

Clássicos na Prateleira - Psicose, de Alfred Hitchcock

por Fernando Guerra

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O Pílula resgata do baú grandes filmes (e discos) que estão sempre disponíveis na prateleira da sua locadora - ou nas prateleiras virtuais da web.


Quando eu era moleque, numa época em que a censura pegava mais pesado com filmes de sexo, a madrugada na TV era invadida por desconhecidos filmes B de terror. Logicamente eu era proibido de assistir, porque lavar lençol todo dia não é fácil. No entanto, houve um filme que nunca consegui assistir inteiro ainda na infância: só vi o suficiente para não me deixar em bons lençóis.


Plano

Acontece é que o tal filme, que se chama “Psicose” (1960), perturba exatamente pelo que não se vê. Parte do terror a respeito da personagem principal vem do fato de não podermos entender o que se passa em sua cabeça. Isso torna difícil saber o que esperar. Mas eu ainda vou chegar lá.

A obra-prima de Alfred Hitchcock, onde ninguém é santo, começa com Marion (Janet Leigh) roubando 40 mil dólares de seu chefe. Na fuga o suspense já captura a atenção, pois a ladra comete uma bola fora atrás da outra. Escapando desesperadamente da cidade grande ela chega sob forte chuva a um hotel de beira de estrada chamado Bates Motel.


Contra-plano

Até esse momento eu já tinha visto o filme uma dezena de vezes. Mas era só o tempo da minha mãe reconhecer do que se tratava e me mandar pra cama. A trilha sempre me denunciava. Aliás, o trabalho do músico Bernard Hermann merece ao menos um parágrafo. Nunca houve música tão perturbadora no cinema, e é considerada pelo próprio Hitchcock como responsável por 1/3 do efeito. Ela sempre me levava àquele universo escuro e desesperador do filme que eu nunca assisti. Tempos depois aluguei “Psicose” em vídeo. Era impecável, mas as cenas seguintes não eram tão fortes quanto a ausência delas na minha infância.

A atmosfera de suspense do início dá lugar então ao terror, quando o roteiro começa a se revelar e o nó no estômago cresce em uma cadência desesperadora. A história se desenvolve como uma viagem onde o destino final é o canto mais escuro e sinistro da mente da personagem. Ainda hoje, se vejo esse filme sozinho em casa de madrugada, tenho arrepios. Os lençóis felizmente continuam secos no dia seguinte.

Bom, deixo aqui a recomendação e me despeço. A mamãe já está me chamando e ela fica muito impaciente quando eu finjo que não estou escutando. Ela é alguém que ninguém quer ver nervosa.

Algumas curiosidades (sem spoilers) sobre “Psicose”:

- o sangue na cena do chuveiro é calda de chocolate;

- a pedido do diretor, não era permitido entrar no cinema após a sessão ter começado;

- a cena do chuveiro deveria ser muda, mas Hermann criou a trilha mesmo assim. Quando ouviu o resultado, o diretor mudou de idéia e a incluiu na cena.

- o quadro que Bates tira da parede para espiar Marion é uma pintura mostrando um estupro.

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