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A grande Guerra

As escolhas de “Tropa de Elite”

por Rodrigo Campanella
(fotos: David Prichard)

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Anunciar “Tropa de Elite” por aí como um filme fascista só aumentou a cratera lunar já aberta na imprensa desde que o filme foi vazado para os piratas de dvd. Mas não fez o nível da discussão melhorar muito. A maior parte dos argumentos, pelo menos os que eu li e ouvi, continuam sendo disparos apaixonados em volta do filme – contra e a favor.

No dicionário Houaiss, fascismo é o movimento ou regime “que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, na figura de um ditador”. Logo depois dessa versão completa, existe outra menor, por extensão de sentido: fascismo é a “tendência para ou o exercício de forte controle autocrático ou ditatorial”.

Quando alguém chama um filme de “fascista!” provavelmente quer misturar as definições. Dizer isso em tom de brincadeira, e sem explicar direito qual a acusação, gera muito mais impacto e barulheira do que começar uma discussão a sério. E dá-lhe respostas dos envolvidos no filme contradizendo a acusação, e páginas inteiras de jornal.

E, vá lá, se a gente pega a segunda definição de fascismo acima, dá para dizer: o Capitão Nascimento, e a narração que ele faz durante todo o filme, podem ser considerados fascistas sim. O que não é dizer que o filme, dirigido por José Padilha, também tem alguma forma de fascismo.


“Nascido para matar” manda lembranças...

O que confunde a questão é que “Tropa de Elite” não defende o discurso do BOPE – inclusive, a grande briga do Capitão Nascimento/Wagner Moura é sair daquele inferno – mas ao mesmo tempo assume a estrutura básica de um filme policial de perseguição. Nessa estrutura há o redentor e há o criminoso, a justiça contra a moral corrompida do mundo - há Dirty Harry fazendo o mal cuspir sangue.

Ao que parece, o roteiro do filme não defendia – ou criticava - o discurso do fictício capitão do Batalhão de Operações Especiais da PM carioca, o BOPE, que fuzila antes e interroga quem sobrar, se sobrar. Mas a transformação em um filme cria um herói – o sobrevivente, aquele que se arrebenta contra o mundo corrupto.

Capitão Nascimento tem síndrome do pânico e continua metralhando na barriga, para matar. Ali o BOPE é o juiz, e ele é o gatilho da tropa, o governo absoluto de quem vai ser morto, torturado ou poupado – independente do que diga a lei que rege o país.

Como uma parte do que foi escrito de melhor na imprensa comentou, “Tropa” é uma quebra essencial: narra o filme da visão do policial, da força de repressão. “Cidade de Deus”, “Cidade dos Homens”, “Quase dois irmãos” e “É Proibido Proibir” viam a violência e a droga do ponto de vista de quem estava no meio do tiroteio ou junto do crime, pobre ou classe média. Mas quando José Padilha inverte a câmera de mão para contar a história pelo outro lado, ele faz a escolha de contar esse lado através da ação.


...e mais lembranças...

O que eu sinto é que “Cidade de Deus” gerava um mal-estar no estômago do qual eu ainda consigo lembrar depois de anos. Já “Tropa de Elite” desperta a vontade de sair do cinema e puxar briga com alguém. Até o último corte do filme, no pico de tensão, com a caveira do Bope tomando a tela em seguida, deixa claro que tipo de emoção está em jogo ali. E, querendo ou não, essa opção de Padilha rareia as situações que o próprio filme traz. Ao invés de criar consciência, deixa o ódio pelo estado das coisas fluir na figura do justiceiro – e imobiliza mais ainda. Se a única opção social é pegar em armas para acertar tudo, coisa que a maior parte da população certamente não vai fazer, não existe opção alguma então.

Em vez de fazer perguntas, o filme escolhe discursar em cima de inimigos únicos: a droga que é traficada e o universitário-playboy classe média (alta) que compra. A todo momento, a narração de Nascimento lembra: para ser policial do Bope, não pode ser ingênuo. Então, deve ser ironia fazer o próprio filme ser tão ingênuo, e simplificador.

Talvez seja ironia mesmo, e fui eu – ou a maioria do público – que não entendi: só assim dá para engolir a tese de que são os dois tijolos de maconha comprados toda semana pelo universitário riquinho, e a amizade dele com o traficante, que sustentam o mercado do tráfico de drogas. Deixando as coisas claras: esses dois tijolos fazem diferença e a droga repassada na universidade é tráfico do mesmo jeito, só que ‘protegido’ da lei. Mas o filme fica por aí e a força do mal-estar se esvazia.

Enumerando: como dá para fazer um filme sobre o tráfico sem um carro importado novinho parado na entrada do morro, sem citar respeitáveis senhores com respeitáveis contas bancárias que sustentam o grosso do tráfico e reclamam das balas perdidas depois? E, ainda mais, como dá para citar a maconha é a principal engrenagem do tráfico no país? Os tijolinhos de maconha vendidos no filme parecem ser o que a indústria do cigarro continua fazendo bem: a criação de mercado consumidor para o futuro, para quando o comprador tiver dinheiro e poder para consumir em larga escala.


...enquanto a luz vai se apagando.

E não é das salas de universidade – muitas vezes sim, descoladas do mundo fora delas – que chegam os armamentos de guerra, as caixas de munição, as sacolas de dinheiro, os laboratórios de refino, as toneladas de muamba com imposto sonegado, os Rolex falsificados, todo o aparato complexo do crime organizado hoje em dia. Grande ironia: as mídias piratas de dvd que fizeram o sucesso antecipado de “Tropa”, inclusive dentro dos quartéis, provavelmente foram enviadas pelos mesmos tubarões que organizam a distribuição da droga para os traficantes nos morros.

O sistema, bem mais complexo, acaba então reduzido à hipocrisia. Dos que compraram o dvd pirata, provavelmente vindo do mesmo crime organizado, e aplaudiram o traficante engasgado com o próprio sangue. Dos que reclamam de tomar blitz na estrada sem contar que aplaudem Jack Bauer de noite. Dos que passam de Toyota Hilux no sinal vermelho e depois reclamam da multa, da falta de educação e da falta de civilidade brasileira. E é isso que “Tropa de Elite” consegue, mais pela discussão que se criou do que pelas escolhas do filme em si: ele fala da nossa própria hipocrisia. Por vias tortas, é um filme indispensável para o país retorcido de hoje.

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