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Para entrar 2008 sorrindo

por Daniel Oliveira

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2007 foi um ano difícil. Sombrio. Pelo menos na cultura pop. No cinema, um dos melhores filmes do ano narrava a vida de seus personagens destruída por uma série de crimes nunca solucionada. “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, o vencedor romeno do Festival de Cannes, era um filme sobre os desdobramentos nada felizes de um aborto.

O vencedor do Oscar foi um banho de sangue em que ninguém encontrava redenção e quase todo o elenco terminava morto. E o segundo semestre foi tomado por uma série de longas que viram na guerra do Iraque o epítome de um mundo em que símbolos como família e diálogo foram destruídos em nome do domínio de corporações, homens sem rosto, sem caráter e sem personalidade.

Na música, não foi muito diferente. A melhor canção de um dos melhores álbuns do ano anunciava “a longa estrada para a ruína”. Enquanto isso, outro ótimo CD falava de ondas negras, más vibrações, anticristos e corpos enjaulados. Nem as mocinhas estavam muito alegres: uma viveu em função do duo manguaça-rehab; outra se declarou abertamente desesperançada; e uma terceira tentava se agarrar aos alicerces do amor, mas não conseguia.

Parece que ninguém esteve muito otimista em 2007.

É para que nós consigamos, ainda assim, entrar em 2008 com um mínimo de esperança de que algo bom nos aguarda, que o Pílula oferece uma lista pop de coisas boas para fazer enquanto você pensa nos seus planos e expectativas para este ano.

Obs.: não é uma lista de produtos de auto-ajuda – porque a gente acredita ser um tanto paradoxal precisar de um livro, filme ou CD para se auto-ajudar. São só alguns produtos que fazem sorrir. E isso, hoje em dia, já é digno de nota.

1- Escutar Ripe, segundo CD do Ben Lee


Ele parece um ratinho de cara amassada, mas é feliz e otimista mesmo assim.

Por que? Ben Lee ainda é um otimista. O que é algo incrivelmente raro e admirável nesses nossos tempos de cólera e cinismo. Ele é um cara que já tentou espalhar a doença da felicidade em Catch my disease, canção de seu primeiro álbum, Awake is the new sleep. E em seu segundo, Ripe, ele leva essa visão ensolarada e fofamente positiva da vida ao extremo, entregando versos como “Me ame como se o mundo estivesse acabando” e “Eu quero te amar como o sol te ama”.

E ele faz essas vergonhosas demonstrações de otimismo (“Amor é uma razão para existir” - ???) soarem naturais e espontâneas – Ben Lee compõe seus álbuns como se escrevesse um livro infantil para adultos. É colorido, delicado e feliz de um jeito que faz até seu dueto com a nada cool Mandy Moore soar legal. Quando o moço australiano canta que “só uma vez, nas nossas vidas, nós vimos o que queríamos e demos uma mordida. Escolhemos uma fruta da árvore e estava madura”, você só deseja que consiga encarar a vida assim em 2008.

Ria com: What would Jay-Z do, ao mesmo tempo simples e genial, um hino irônico e muito engraçado à nossa mania de querer ter o que não tem, ser o que não é e achar o gramado do vizinho sempre mais verde. Especialmente quando o vizinho é casado com a Beyoncé, é milionário e vive no topo da Billboard.

2- Assista a “The Closer” (não, não é aquele filme com a Natalie Portman)


Thank you sooo much for watching!

Por que? Esse tópico poderia se chamar também “o que assistir enquanto a greve dos roteiristas de Hollywood não acabar e sua série favorita não voltar com episódios inéditos”. “The Closer” faz parte daquele grupo de séries largamente ignoradas por várias razões - dentre elas, por não seguir o hype sobrenatural-lost do momento e porque é exibida na TV a cabo por um canal nem um pouco reconhecido por seus seriados (TNT). E, principalmente, por ser uma série policial no estilo whodunit, o que afasta todos os que têm aversão ao gênero.

O seriado do criador James Duff, contudo, passa longe de ser enlatado. É cuidadosamente bem escrito, cativante e (eu nunca pensei que fosse dizer isso sobre uma série policial) extremamente engraçado. Em grande parte, devido à atuação de Kyra Sedgwick como a Detetive-chefe Brenda Leigh-Johnson, da Divisão de Homicídios Qualificados de Los Angeles, especialista em extrair confissões de assassinos. Encarnando com humor, mas sem descambar para o estereótipo, a caipira sulista no meio do labirinto de celebridades e frescuras de LA, Sedgwick conquista aos poucos e faz você nunca querer perder a série. E não atrapalha o fato de ela estar cercada por ótimos coadjuvantes, como J.K. Simmons (o J. Jonah Jameson de ”Homem Aranha”).

“The closer” é alicerçada na construção dos personagens e nas relações entre eles (e não nos tecnicismos de investigação, como CSI) e Duff consegue te fazer gostar deles e do humor involuntário das situações criadas. A série acabou de encerrar sua terceira temporada nos EUA, onde bateu recordes de audiência na TV a cabo – uma temporada realmente excepcional, mas as duas primeiras passam longes de serem ruins ou mesmo medianas. E é interessante assistí-las antes para se familiarizar com os personagens e apreciar melhor os episódios.

Ria com: O vício de Brenda em açúcar e sua mania de esconder chocolates e doces em suas gavetas, para comer quando ninguém estiver vendo e aliviar a tensão das investigações. A expressão de prazer de Sedgwick nessas cenas não tem preço.

3- Veja bons filmes sobre amizade!


Sem piadinhas de Brokeback Mountain, por favor.

Por que? Amizades, as boas pelo menos, são o que te salvam no final de um dia de cão. Ou de um ano meia-boca. Ou de feriados caóticos com famílias disfuncionais. Amigos te entendem e te botam pra frente. E a amizade é algo tão improvável, randômico e difícil de ser simulada que bons filmes sobre amizade são bem raros. Mas quando eles surgem, fazem um bem tão grande à alma que se tornam verdadeiros hits e símbolos de uma época. Não por acaso, a melhor série, e de maior sucesso, de todos os tempos foi aquela que conseguiu emular isso quase à perfeição.

Enfim, amizade faz bem e existem ótimos filmes sobre melhores amigos e a relação entre eles. Os que me vêm à mente e que eu indico são: Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969), em que a química entre Paul Newman e Robert Redford é inigualável, o ritmo e o humor dos diálogos foi algo que mudou a forma de se encarar o faroeste. E eles eram acompanhados pela bela Katharine Ross (a filha da Mrs. Robinson n’A primeira noite de um homem”) e pela ótima Raindrops keep fallin’ on my head (que ganhou o Oscar de melhor canção original em 1970), o que também não atrapalha.

Jules e Jim (1962) é uma obra prima de François Truffaut e mostra uma amizade tão forte entre os personagens-título, que torna possível, no coração deles, dividir a mesma mulher: Catherine, na antológica performance de Jeanne Moreau. Pena que nem ela, nem o mundo, pareciam achar isso possível. Superbad – é hoje (2007), por sua vez, prova que, no inferno do colegial, em que a humilhação e as crises parecem nunca acabar, a única coisa que torna o mundo suportável é a amizade.

E Almas gêmeas (1994), de Peter Jackson (sim, ele mesmo), e E sua mãe também (2001), de Alfonso Cuarón, são duas fábulas que refletem sobre até onde o sentimento de companheirismo pode ir, para dois amigos que compartilham uma realidade própria num mundo em que eles, simplesmente, não se encaixam.

São só cinco dicas de que eu me lembro agora...se vocês souberem de outros bons filmes sobre amizade, postem aí nos comentários.

Ria com: “Butch Cassidy and the sundance kid” é quase todo um enorme motivo para não parar de rir. Mas sorria especialmente com a cena em que os dois pistoleiros do título têm que pular de um pequeno despenhadeiro e Sundance é obrigado a explicar porque ele não quer fazer isso. E da seqüência dos assaltos na Bolívia. E de todos os diálogos de Newman e Redford e...

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