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Chamando na chincha, sem chanchada!

Ou: a recente overdose de sexo no cinema brasileiro

por Cedê Silva

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A estrutura sexual masculina é como um botãozinho – liga e desliga com facilidade. Já a mulher, bem - a mulher é um verdadeiro painel de controle. A analogia é velha, bobinha, mas faz sucesso...

por Cedê Silva

Fotos: Divulgação


Censura 14 e 16, respectivamente. As cores fracas eram um sinal...

Preliminares

A estréia de Euclydes Marinho no cinema, Mulheres Sexo Verdades Mentiras, é metade documentário semi-fictício e metade ficção mesmo, Mulheres... narra a história de Laura (Júlia Lemmertz, charmosíssima), documentarista divorciada que descobre o prazer ao se libertar do marido. Isto a motiva a fazer um filme que desperte outras pessoas para o prazer também – premissa para entrecortar o dia-a-dia da protagonista com um sem-número de depoimentos de mulheres. A la quadro do Fantástico, os depoimentos são divididos em cadernos: masturbação, sexo oral, swing, fantasias, orgasmo, etcétera (inclusive o etcétera, aliás o etcétera é como que um protagonista de qualquer filme sobre sexo).

Despretensioso – filmado em menos de vinte dias, em equipamento digital, sem grande estúdio e com distribuição em circuito limitado – Mulheres... é antes uma boa aula de educação sexual do que propriamente um filme. Não há nada ali, contudo, que você já não saiba – daí a sugestão da Luana Piovani de que o longa deveria ser exibido em colégios.


Uma câmera na mão, um Eduardo Coutinho na cabeça!

Já em termos de esforço para “libertação das mulheres”, Mulheres... esbarra em uma contradição externa e outra interna. Primeira: sexo nunca foi tabu, mas sim o mais delicioso dos clichês (especialmente nos anos 2000). Segunda: a voz da Ciência e da Razão durante o longa é um doutor, não uma médica. Como o diretor Euclydes respondeu a este repórter que isso foi uma mera questão de conveniência (o doutor é conhecido de alguém próximo), dá para interpretar positivamente: o filme não escolheu guetizar, o que é sempre mais saudável.

Introdução

Mas sexo vende, e não parece coincidência que em suas respectivas primeiras vezes no cinema, os veteranos da TV Euclydes Marinho e Wolf Maya tenham optado por “sexo” no título. Afinal, quem de nós, na insegurança de sua primeira vez, ousou alguma prática menos convencional?

E convencional é Sexo com Amor?. Verdadeiro folhetim das 7, não faltaram enquadramentos “carão” de novela da Globo, nem figuras conhecidas. Tem um “Jorge” - José Wilker, interpretando, ora vejam, um canastrão (sua especialidade, não à toa foi ele que interpretou o maior canastrão da História do Brasil, o tal Jota Ká). Tem um “Rafael” – Reynaldo Gianecchini, na pele de um marido pra lá de infiel. Tem a Marília Gabriela no papel de Marília Gabriela e Malu Mader no papel de Malu Mader – não faltou nem a cena de parto no final. Quantas vezes ela já deu à luz em novelas? Ah, e tem a Danielle Winits no papel de aeromoça gostosa e com sotaque americano.

Na mesma linha de filmes leves, divertidos e bobinhos como "Se eu Fosse Você" e "Caixa Dois", Sexo com Amor? não arrisca. O presskit que me deram jura que é uma versão de um filme chileno, mas assiste-se uma novela do começo ao fim, não dispensando o uso dos “núcleos”: tem o núcleo jovem, o núcleo rico, o núcleo pobre, o núcleo das crianças. Verdade, há duas ou três cenas que não passariam antes do Jornal Nacional. Carolina Dieckmann fala pro José Wilker: “aproveite o jantar. É a única coisa que você vai comer hoje”. E Danielle Winits "faz" sexo oral no Gianecchini.


Sexual practice mode off

Estímulo

O melhor de Sexo com Amor? é a deslumbrante, alucinante, de tirar o fôlego, Ângela (Natasha Haydt), a sobrinha que tudo bem você desejar porque é filha-da-irmã-da-sua-esposa-e-não-do-seu-irmão (?!), e que fica provocando o Eri “pinta na cara” Johnson o filme inteiro, até mesmo despindo-se e tomando banho na frente dele. Ângela derruba a noção de que mulheres são painéis de controle – nos filmes de Wolf Maya, algumas mulheres são botõezinhos ligados 24 horas, principalmente a Danielle Winits.


A sobrinha que matou o cara...

Já o melhor de Mulheres Sexo Verdades Mentiras é sem dúvida a atuação de Júlia Lemmertz, inspirada, autêntica, e por vezes tocante (em mais de uma região). Ela contracena com um namorado que é uma espécie de Bill, desses que a câmera só mostra as mãos dele no telefone durante todo o drama. Inicialmente, Laura se realiza, feliz, na descoberta do prazer sem culpa ou compromisso. Depois, inevitavelmente, se apaixona e desenvolve saudades, ciúmes, frustração. Mulheres... merece o título “Sexo com Amor?” mais que o outro filme.

A segunda melhor coisa de Mulheres... é estimular um debate: como despertar as pessoas pro sexo, falar de sexo como coisa gostosa, sem descambar pra ditadura do prazer, na qual o maior pecado é ser mal-amado, mal-comida, fracassado? Olha que eu perguntei pro Euclydes Marinho e ele sorriu e disse “não sei”. Várias vezes: “não sei”.

E a segunda melhor de coisa de Sexo com Amor? é o padre (Ítalo Rossi), igualzinho ao Lorde Voldemort, só que sem maquiagem. Te cuida, Ralph Fiennes!

Clímax

Esse Voldemort protagoniza, inclusive, o anti-clímax do filme: quando finalmente descobrimos, num grande rendez-vous, que os personagens estão unidos para além do 6º Mandamento, a cena é interrompida pelo maior clichê do universo: o tal parto. Da Malu Mader.

Conchinha


"Vamos falar de Sexo?"

Perguntei pra Júlia Lemmertz o mesmo que pro diretor. Em vez de “não sei”, ela disse que a ditadura do prazer só existe quando ele é individual, egoísta. A saída é tratar sexo como coisa gostosa também pro outro, também dar prazer e não só obter.

É. Afinal de contas, não é que as mulheres falem mais de sexo porque são menos tímidas. É que de fato elas são muito mais interessantes. Elas são verdadeiros painéis de controle - e nós, humildes botõezinhos.

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