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Os 5 filmes de guerra definitivos

E se fosse mentira

por Daniel Oliveira

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Guerras são iniciadas por pessoas que nunca vão pegar em uma arma. A decisão que dá o start em um conflito digno desse nome é tomada por sujeitos que não vão pisar em um campo de batalha, nem colocar a vida em risco – e muito menos esperam resolver qualquer problema com a carnificina. Guerras são feitas por outros motivos: porque, num estranho efeito “Copa do Mundo – nós contra eles”, todo povo se torna bem mais fácil de governar durante elas; porque emitem uma mensagem de força e auto-afirmação típicas do poderio masculino; mas, acima de tudo, porque movimentam a economia. Geram dinheiro. E não só à indústria bélica: a gente sempre pode fazer um filme depois.

Guerras são altamente cinematográficas. Visualmente ricas, dramaticamente poderosas. Nasceram para a tela grande e um som Dolby Digital. Se existissem só no cinema, seriam quase perfeitas. Mas elas matam, destroem famílias, países e expõem seres humanos a situações desumanas que eles nunca mais vão esquecer. Elas têm, sim, um significado e repercussões políticas. Mas, na sua essência, no seu dia a dia, na sua realidade, guerras são imagens indescritíveis – sangue, morte e violência em suas formas mais degradantes.

Pacifistas por natureza, nós aqui do Pílula, que nunca pusemos o pé num campo de batalha, decidimos eleger os “5 filmes definitivos sobre a guerra”. Os 5 que chegaram mais próximo de traduzir para a película essa imagem indescritível: como é realmente estar em um conflito armado. Nada de romances, resgates, dramas, chacinas, politicagens. O critério para a escolha dos longas abaixo é: o que é ser um soldado com um inimigo do outro lado do fuzil?

As melhores respostas a seguir (e como guerra é um dos motivos mais explorados do cinema, a gente se permitiu uma bonus track, além de indicar uma segunda escolha quase tão boa para cada um dos cinco eleitos).

1) Apocalypse Now (dir. Francis Ford Coppola, EUA, 1979)

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Fotos: Divulgação

O conflito: Guerra do Vietnã

A vítima: O capitão Benjamin Willard (um jovem Martin Sheen)

A imagem: As pás do ventilador girando, girando, girando. Um círculo vicioso que só espalha o calor, ao invés de diminuí-lo.

O som: Não é um som, é o cheiro. De napalm. Pela manhã.

A guerra é: selva(gem). Quente, úmida e enlouquecedora.


O filme: O longa definitivo sobre guerra. Poucos discutiriam isso – e eles são mais insanos que o Coronel Kurtz de Marlon Brando. Do início com o protagonista Benjamin Willard preso em seu quarto em Saigon, passando pela antológica cena do bombardeio ao som da Cavalgada das Valquírias, até o clímax com a performance assustadora de Mr. Brando, “Apocalypse now” retrata homens que, perdendo o sentido da guerra, do que estão fazendo, perdem junto sua sanidade. À medida que se impõe e se exalta o poder das armas, esvai-se o poder sobre si mesmo. Sobre seus atos. Sobre sua moral. Nas cores saturadas e violentas, no clima sufocante, no tom surrealista, “Apocalypse now” é o mais próximo que o cinema chegou do Guernica de Picasso. Enquanto o barco sobe o rio e se entranha na selva, os personagens do longa de Francis Ford Coppola são engolidos por aquele calor – onde é impossível pensar, impossível lembrar quem eles eram - e por aquele inferno, sem bilhete de volta. E pra quê? Só Brando pra responder.

Veja também: Platoon

2) Guerra ao Terror (The hurt locker, dir. Kathryn Bigelow, EUA, 2008)

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Fotos: Divulgação

O conflito: Guerra do Iraque, round 2

A vítima: O soldado William James (Jeremy Renner)

A imagem: Um grupo de soldados, no meio do deserto. Despreparado. Atacado de repente. Sem saber de onde vêm os tiros.

O som: O tique-taque da bomba, que não para nunca.

A guerra é: uma droga. Adrenalina. Vício.


O filme: A guerra é normalmente associada à morte, por razões óbvias. Mas é perto da morte que se vive mais intensamente. É ciente da possibilidade dela a qualquer instante que se experimenta as emoções e sensações mais... vivazes. E se alguém se viciasse nessa experiência? E daí que é arriscado? E daí que é insano? E daí que não parece ter muito sentido? O ponto é esse: numa guerra sem muito propósito, que manda jovens para o meio do nada por motivos que nada têm a ver com eles, o que importa é o aqui e agora. O soldado William James do filme de Kathryn Bigelow vive o momento – e sabe que é só ele que interessa. Não é a tensão do desarmar a bomba. É o alívio dos 10 segundos seguintes. Estar vivo. Cara ou coroa, como diria o Anton Chigurh de “Onde os fracos não têm vez”: é a isso que a vida se resume, num mundo onde violência e ganância tornaram todo o resto sem sentido.

Veja também: Band of Brothers – a série

3) Nascido para matar (Full metal jacket, dir. Stanley Kubrick, EUA/UK, 1987)

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Fotos: Divulgação

O conflito: Guerra do Vietnã

A vítima: O recruta Joker (Matthew Modine)

A imagem: Os cabelos caindo na sequência de créditos e, com eles, a juventude.

O som: Os gritos insanos do sádico sargento Hartman (R. Lee Ermey).

A guerra é: a perda lenta e gradual da identidade e da razão, em nome da sobrevivência física.


O filme: Stanley Kubrick dizia que cinema é música. Não era uma mera afirmação alegórica ou sinestésica: há uma orquestra, um conjunto, camadas que se harmonizam em torno de um motivo comum. Em “Nascido para matar”, essa orquestra se organiza para que os recrutas-protagonistas se esvaziem de si mesmos à medida que o barulho da guerra se torna mais próximo e ensurdecedor. Para o cineasta, na guerra, não existe “eu quero”, “eu penso”, “eu sinto”, “eu...”. Existe a mera reação física do instinto de sobreviver. Um mecanismo que, quanto melhor treinado, mais eficaz. É a insanidade violenta da guerra substituindo todo e qualquer traço da individualidade, da rebeldia e do questionamento que fazia dos jovens o que eles eram nos anos 60 e 70. E Kubrick já diz isso tudo na sequência dos créditos, enquanto os recrutas cortam seus cabelos e Johnny Wright canta “a liberdade deve ser salva a qualquer custo...adeus, querida. Olá, Vietnã...”. Cinema e música. Insanidade e guerra.

Veja também: Soldado Anônimo

4) Terra de ninguém (No man’s land, dir. Danis Tanovic, Bósnia-Herzegovina/Eslovênia/Itália/França/UK/Bélgica, 2001)

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Fotos: Divulgação

O conflito: Guerra da Bósnia

A vítima: Os soldados Ciki (Branko Djuric) e Nino (Rene Bitorajac)

A imagem: Um homem ferido, sem poder se mover em cima de uma mina prestes a explodir a qualquer momento.

O som: A diferença dos sotaques. A diferença.

A guerra é: o que é que ela é mesmo?


O filme: Dois soldados – Ciki, um bósnio muçulmano, e Nino, um bósnio sérbio – ficam presos na terra de ninguém do título, no meio do fogo cruzado, durante a Guerra da Bósnia em 1993. A situação insólita é o pretexto para o diretor Danis Tanovic satirizar a burocracia e o teatro absurdos de um conflito armado – a atuação da ONU, a cobertura da imprensa – e construir uma alegoria perspicaz da guerra: pessoas comuns jogadas em um campo aberto e sendo alvejadas pelos próprios aliados que os colocaram ali. Acima de tudo, no entanto, “Terra de ninguém” se sustenta nos diálogos de Ciki e Nino que, odiando um ao outro no início, são obrigados a reconhecer, na convivência forçada, que não são tão diferentes assim. Que, no fundo, estão atrás da mesma coisa: sair dali vivos. Que não se odeiam tanto assim. E, por fim, que não sabem muito bem porque estão ali. Atirando um no outro. Em um monte de gente. E é tudo que Tanovic, um grande diretor que nascia então, precisa para provar que não são necessários 1.000 figurantes e um orçamento milionário para um excelente filme de guerra.

Veja também: Valsa com Bashir

5) Além da linha vermelha (The thin red line, dir. Terrence Malick, EUA, 1998)

por Renné França

Fotos: Divulgação

O conflito: a batalha de Guadalcanal, na Segunda Guerra Mundial

A vítima: o soldado Witt (Jesus em pessoa, Jim Caviezel) e mais um pelotão de astros: Sean Penn, Ben Chaplin , George Clooney , John Cusack , Nick Nolte, Woody Harrelson, Elias Koteas, Jared Leto, John C. Reilly, John Travolta, Adrien Brody , Thomas Jane, Nick Stahl.

A imagem: A luz brilha por trás da mata densa. A fumaça se dissipa e revela uma vila destruída, com corpos mutilados e doentes. O rosto dos habitantes do local, o olhar parado daqueles que nada tem a ver com uma guerra que acontece em sua casa.

O som: o pensamento atormentado dos soldados. “We. We together. One being. Flow together like water. Till I can't tell you from me. I drink you. Now. Now”.

A guerra é: filosofia. Momento de pensar e repensar a vida, o mundo, a natureza, e todo o resto. “This great evil. Where does it come from? How'd it steal into the world? What seed, what root did it grow from? Who's doin' this? Who's killin' us? Robbing us of life and light. Mockin' us with the sight of what we might've known. Does our ruin benefit the earth? Does it help the grass to grow, the sun to shine? Is this darkness in you, too? Have you passed to this night?”.


O filme: “Que diferença você acha que pode fazer um único homem no meio de toda essa insanidade?”. Jovens recrutas são mandados para o inferno da guerra. Mas para o soldado Witt, o lugar é o paraíso, uma das mais bonitas paisagens do planeta, onde ele vive em paz com os nativos. Até que é chamado de volta à batalha, para junto dos outros homens trazerem dor e destruição para uma das mais belas criações de Deus. Entre veteranos e novos combatentes, escutamos suas dúvidas, medos e traumas escondidos em seus próprios pensamentos. Uma das mais literais reflexões sobre a guerra. “Maybe all men got one big soul everybody's a part of, all faces are the same man”.

Veja também: O resgate do soldado Ryan

Bônus track: MASH (dir. Robert Altman, EUA, 1970)

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Fotos: Divulgação

O conflito: Guerra da Coreia

A vítima: O médico Hawkeye Pierce (Jack Bauer pai, Donald Sutherland)

A imagem: A partida de futebol americano entre as equipes médicas.

O som: A trilha sarcástico-escapista de Robert Altman

A guerra é: um trabalho inusitado.


O filme: “MASH” não é um filme sobre soldados, mas sobre um grupo de cirurgiões (o Mobile Army Surgical Hospital da sigla) trabalhando na Guerra da Coreia. O diferencial do filme de Robert Altman é que, ao contrário da maioria das pessoas, médicos são acostumados a conviver com a morte cotidianamente. Mas não de forma tão sangrenta e estúpida quanto em uma guerra. Para superar isso, o Dr. Hawkeye Pierce e seus parceiros John McIntyre (Elliot Gould) e Duke Forrest (Tom Skerritt) criam soluções e buscam as formas mais inusitadas e hilárias de fugir daquele inferno: jogam golfe no Japão, participam de um campeonato de futebol, encenam a Última Ceia. “MASH” é uma das comédias mais hilárias já realizadas e o fato de tratar a insanidade da guerra com humor – e não com a opressão de “Apocalypse now” ou o pessimismo de “Nascido para matar” – não incomoda. A atitude niilista de seus personagens diante do cenário dantesco que se apresenta a sua frente é um dos atestados mais pungentes e eficazes do absurdo – que, com o perdão do chavão, seria cômico, não fosse trágico – a que podem chegar a violência, a irracionalidade e a selvageria humanas.

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