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Sobre a passagem por BH dos cineastas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles

O calor de um debate

por Daniel Oliveira e Rodrigo Campanella

Fotos: Tiago Santos

Sempre que o Ross, de “Friends”, chega perguntando aos seus amigos o que eles vão fazer à noite, a resposta quase automática é: “Você vai nos convidar para uma palestra?”. Não é que Ross seja chato, às vezes nem o tema é, mas a maioria das vezes em que acadêmicos se juntam para discutir um tema que eles conhecem, o pedantismo é quase inevitável.


É mais ou menos assim que eu me preparava para o debate, realizado na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, na manhã de 19 de abril, com os cineastas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, sobre seus recentes documentários – respectivamente, “Peões” e “Entreatos” – que haviam sido exibidos no mesmo auditório, no dia anterior. Convocar alunos de Ciências Sociais, História, Antropologia, e mesmo Comunicação, para discutir documentários políticos é como pedir a Mônica, do mesmo seriado “Friends”, para limpar sua casa. É tudo que eles querem.

Ainda com um pouco de sono (a última sessão, a que eu assisti, acabou às 23h), e tentando suportar o calor de um auditório completamente lotado – sem ar condicionado, afinal estamos em uma instituição pública – eu via Coutinho e Moreira Salles, com certeza não menos cansados que eu, após a coletiva para a imprensa do dia anterior, tomando seus lugares à frente do público. Coutinho, como sempre, fumava incontrolavelmente. Aliás, um cigarro que cai de sua mão, e quase põe fogo na toalha que forrava a mesa, foi o único momento em que o debate teve a chance de, literalmente, pegar fogo.

Explico: enquanto Coutinho parecia estar mais interessado em ouvir os outros falar, e eu tinha medo que Moreira Salles, grande parte do tempo de cabeça baixa, estivesse prestes a dormir, o público aparentava estar mais preocupado em discursar que em explorar os dois grandes cineastas que estavam à sua frente. Logo no começo, a mediadora da mesa e uma aluna qualquer no fundo do auditório, trocam “gentilezas” verbais, tentando descobrir qual é a mais “faficheira”*.


Eduardo Coutinho com seus botões: Quem me chamou aqui?

Em seguida, dois professores convidados proferem dois ensaios intermináveis sobre os filmes, levantando uma série de questões que eles esperavam ser respondidas pelos documentaristas. Meu dispositivo de vergonha interna me pergunta se, neste momento, Coutinho e Moreira Salles estão atônitos, ou simplesmente com preguiça.

Seguros de si, os dois agradecem os ensaios e, educadamente, explicam que esperam responder às questões dos professores com as perguntas do público. Primeira pergunta: “Coutinho, você se considera parte integrante do processo histórico-revolucionário?”. Coutinho solta um antológico: “Eu não posso responder a essa questão porque não sei que processo é esse”...

Aos poucos a noção foi retornando ao recinto e as perguntas foram melhorando. Informações interessantes - como a de que o novo filme de Coutinho está sendo rodado no interior da Paraíba, ainda sem tema definido – e mais pérolas do fumante inveterado, como “As pessoas comuns são mais interessantes porque elas são a maioria da população. Isso já é algo a se considerar, não?”, foram surgindo. O abafamento foi esquecido com a pressa em fazer o maior número de anotações possível. E a vergonha interna foi passando com a eloqüência e a inteligência dos dois cineastas.

E já que Moreira Salles estava esgotado após o debate e outra entrevista ali seria pouco produtiva, eu resolvi reunir as melhores falas dele no debate em um pingue-pongue, que você confere no link abaixo. As perguntas são adaptadas e você pode até me questionar por tomar essa liberdade logo com um documentarista. Aí eu cito o próprio Salles: “O que me atrai no registro documental dos fatos é a ambigüidade”. A dúvida de que pode ter sido assim ou que eu apreendi assim. E a ambigüidade do Chandler não é bem mais divertida que o academicismo do Ross?

Ressonância Moreira Salles

Ressonância Eduardo Coutinho

Coletiva com os dois cineastas

Resenha de Entreatos

Resenha de Peões

* Faficheiro: Espécie de estudante da Fafich (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas), que estampa essa condição usando roupas hippies, ficando na faculdade o dia inteiro, freqüentemente organizando saraus e fumando maconha...

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