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Tim Festival - MAM-RJ, 21 e 22/10/2005

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Kings of Leon, Strokes e Caetano Veloso – dia 21

Tradução Simultânea

por Rodrigo Ortega

Fotos: Divulgação

Calma, a troca da banda pernambucana pelo cantor baiano na lista acima não foi um erro. A equipe do Pílula Pop, assim como a maioria do público, infelizmente perdeu a pontual e rápida apresentação do Mundo Livre S/A. Mas não sentimos falta dos artistas nacionais. Caetano Veloso apareceu para assistir aos Strokes do nosso lado e na frente de dois seguranças. Ficamos como pré-adolescentes acanhados com a presença de um adulto em uma festinha, justamente no momento dançante. O que o tio fazia lá? Será que ele estava entendendo algo? Usamos nomes de músicas do Caê para ajudar a traduzir para ele o que aconteceu naquela noite.


Julian Casablancas, seu tradicional abraço no pedestal e Albert Hammond Jr. ao fundo

“Superbacana”

Quatro mil felizardos assistiram à primeira apresentação dos Strokes no Brasil. A banda tocou todas as músicas do seu primeiro álbum, Is This It, de 2001, sete das onze faixas de Room on Fire, de 2003. Ainda apresentaram cinco músicas do seu próximo disco, First Impressions of Earth, que só vai ser lançado em janeiro de 2006.

“Meu bem, meu mal”

Os Kings of Leon eram o xodozinho do público da primeira noite do Tim. Desde o início foram muito aplaudidos e até acompanhados nas canções mais conhecidas (“Molly´s Chambers”, “King of the Rodeo”, “The Bucket”). Mas, segundo a sensacional definição de Gustavo Martins, do site da MTV, o vocalista Caleb Followill “parecia preocupado com uma chaleira que esqueceu no fogo”. Não se animou e nem retribuiu a amor gratuito do público carioca. A competência do som da banda não salvou a decepcionante performance.


Followill: “Putz, mamãe vai ficar uma arara quando vir a chaleira...”

“Chuva, suor e cerveja”

Vários dos valiosos copos de cerveja, vendidos a R$ 4, voaram sobre a cabeça do público enlouquecido quando o vocalista Julian Casablancas entrou no palco e cantou os primeiros versos de “Hard to Explain”, do primeiro disco. Usar um dos maiores hits logo de cara foi uma demonstração de confiança e garantia de muito suor e alegria.

“Alegria, alegria”

Durante uma hora e meia os Strokes mantiveram a animação sem nenhum ponto baixo. A iluminação era um show à parte. As luzes eram apontadas para o público nos momentos de catarse, como o refrão de “Reptilia”, que abriu o primeiro bis da noite. O público não escondia os sorrisos e cantou até “Juicebox”, uma das músicas novas.

“Você não está entendendo nada”

Caetano Veloso apareceu do nosso lado logo no início do show. Acompanhou as palminhas de “12:51” e balançou os ombros ao som de “Under Control”. Mas não pareceu muito à vontade na festa, tanto que foi embora no começo de “Last Nite”, um dos momentos mais bombantes.


Caê coçando o ouvido. “Esses meninos de hoje em dia são muito barulhentos!”

“Não existe pecado do lado de baixo do Equador”

A banda estava especialmente animada com a estréia na terra natal do baterista Fabrizio Moretti e lar do pai de Julian, John Casablancas. Mesmo não sendo muito afeitos a fazer bis, voltaram ao palco duas vezes. Fabrizio foi ao microfone agradecer aos “irmãos” brasileiros, enquanto sua namorada, Drew Barrymore, se esbaldava na platéia, cantando todas as músicas.


Fabricio com um olho na bateria e outro na sua namoradinha Drew

“Você não me ensinou a te esquecer”

Quando Albert Hammond Jr. tirou da sua guitarra os últimos acordes de “I can't win” o público começou a acordar do êxtase. Se o tio Caê gostou ou entendeu a festa, nunca vamos saber. O fato é que a garotada se divertiu e não deve se esquecer tão cedo da primeira apresentação dos novaiorquinos por aqui.

Lado 2 Estéreo, Arcade Fire e Wilco - dia 22

A vida após a morte

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação

Depois do show do Strokes na sexta-feira, achei que nunca mais me sentiria tão vivo quanto naquele momento. A sensação de escutar quase todas as músicas de uma das bandas mais bacanas da atualidade, ao lado de vários amigos que também curtiam o som, foi uma das horas que, com o perdão da pieguice, “marcam época” na sua vida.

Não sei se Win Butler e Jeff Tweedy me confirmaram aquilo ou subverteram todo o meu pensamento. Enquanto o primeiro gritava que “nós somos todos um milhão de pequenos deuses transformando todas as coisas boas em ferrugem”, o segundo mandava a real de que “você tem que aprender a morrer / se quiser querer estar vivo”. E foi provavelmente o que aconteceu no Tim Lab de sábado. Lado 2 Estéreo, Arcade Fire e Wilco foram um portal em que eu morri – como diria uma amiga, “após o show, ‘a ghost is born’ faz muito sentido” – e voltei enxergando a vida com muito mais paixão. Com muito mais loucura. Com muito mais rock’n’roll.


Richard Perry e Sara Neufeld do Arcade Fire

A (re)ação

O Lado 2 Estéreo não foi convidado para um show, mas para uma pegadinha. Abrir para duas das bandas mais aguardadas do festival já não era fácil. Com um atraso de mais de uma hora, som péssimo, microfone inaudível e um público indie que preza pela atitude blasé, fica quase impossível. Mas em termos de atitude, a dupla piauiense manda melhor do que a parte mal educada das pessoas que assistiu a seu show. Depois de adentrarem o palco sob vaia e detonarem na primeira música, o guitarrista e vocalista Josh S. explica que “foi mal o atraso, tivemos que esperar o Tim Club [palco de jazz] acabar... e obrigado por nos vaiar”. A reação à aparente indiferença foi música, sem se importar com o que – realmente – não importava.

Revezando-se nas cordas e em um sintetizador no meio do palco, Josh foi acompanhado pelo baterista Juliano em uma curta série de canções que – acreditem – misturam heavy metal, hardcore, eletrônico e samba. E – pasmem – é muito bom. Entre sambadas com a levada da bateria e pulos com o headbanger Josh, você entende por que o palco se chama Lab, um espaço para experimentação. Sem entender uma letra do que o vocalista gritava – devido ao som horrível – quem abriu a guarda para os piauienses curtiu algo que lembrava White Stripes, por ser somente bateria e guitarra; Mundo Livre S/A, pelas influências do mangue beat; e Los Hermanos, pelo sambinha de primeira.

A má educação ainda voltaria com o “uhu!” quando eles anunciam a última música. Anotem aí: indie, além de ser blasé, pode ser malcriado. E aproveitando: é só um crítico bambambam da vida dizer que Lado 2 Estéreo é a banda do momento – e isso não deve demorar – e eles vão sair correndo para escutar. E achar doido demais.


Josh S.: metaleiro injustiçado

A (super)ação

O Arcade Fire não faz um show, ele muda sua percepção do mundo – e isso, mesmo com um microfone que continuava inaudível. Já falaram demais sobre todas as loucuras que o hepteto faz no palco, mas é quase redundante – e impossível – tentar explicá-las. Você tem que estar lá. Falar que fiquei meio show me certificando de que aqueles pássaros dentro da bateria não eram mesmo de verdade é idiota. Ou que tentei insanamente contar quantos instrumentos, entre xilofones e acordeões, haviam naquele palco – só de guitarras e violões para o vocalista, Win Butler, eram sete – e quantos instrumentos cada um tocava (com exceção da ótima violinista) num rodízio incessante, mais ainda.

A banda canadense não é melhor que os outros. Simplesmente, não existem margens de comparação. Enquanto o Strokes te faz querer ter 21 anos para sempre, o Arcade Fire, na bombante “Rebellion (Lies)”, dá vontade de explodir, virar pó estelar e voltar como um cachorro vermelho com tromba de elefante. Nada que um abraço coletivo depois do show não resolva. Se outros vocalistas aprendem o maior número possível de “obrigados” em português, o hepteto apresenta uma canção inédita, chamada “Brazil”, com um pedaço de “Aquarela do Brasil” no violoncelo. E faz dela uma das melhores músicas do show. E, se para ser um show de rock, tem que haver improvisação, com o Arcade Fire tudo parece detalhadamente ensaiado para ser totalmente inesperado, como “Crown of love” e “Haiti”. É tudo que a Björk queria ser, só que é bom.

No fim, tudo se resume em um momento de superação, quando Richard Perry, após batucar nas caixas de som, rolar no chão e correr feito louco, sobe na armação de metal do palco e faz dela instrumento de percussão, em “Neighborhood # 2 (Laika)”. É sério: dá vontade de subir com ele, de se jogar contra a parede e entrar em coma. Acho que é isso que a experiência do Arcade Fire faz com você. Ou não.


Ohhhhhhhhhh!!!

A (inter)ação

Sabe um momento em que o mundo parece perfeito? É quando você está tocando uma canção e todos estão hipnotizados por ela. Aí, na principal parte, o público inteiro canta com você uma das frases mais simples e destroçantes da história da música: “I am trying to break your heart”. É a interação pura e espontânea. E os pelinhos da sua unha se arrepiam.

Não é que o Wilco misture country, folk ou sei-lá-o-qué com rock. Ele pega isso tudo e transforma em rock’n’roll – guitarras e letras malditas. Em mais de duas horas, até que enfim com um som decente no Lab, o público pulou, chorou, dançou e viu um show, que parecia de uma banda dos anos 70, mas com letras e atitude totalmente atuais.

Nos quase 15 minutos de “Spiders (Kidsmoke)”, ninguém parecia querer que eles parassem antes do último acorde do segundo final da música. Ou quando “When I sat down on the bed next to you / you started to cry” é proferida pelo vocalista Jeff Tweedy, iniciando “At least that’s what you said”, era como se ele enfiasse uma faca com pulso e tudo no coração da platéia.


Jeff Tweddy no final apoteótico

Basicamente com um repertório dos dois últimos CD’s – mais alguns hits, como “Monday” e “Outtamind (outtasight)” - uma música nova e uma cover de “I shall be released”, de Bob Dylan, em um final apoteótico, o quarteto levou o público por uma montanha russa, que alternava velocidade e intimismo. O entendimento do grupo no palco era tão afinado que acabou se transmitindo a todos no Tim Lab. Assim, quando uma fã histérica grita “Jesus, etc.”, menos de um segundo depois, é a própria que começa a ser tocada. E após um jornalista deslumbrado, rouco e fã ter berrado, durante o show inteiro, por “Heavy Metal Drummer” – que eles não cantam há muito tempo - o simpático Tweedy a anuncia no primeiro dos dois bis. Obrigado, Wilco. Obrigado, Jesus.

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