Busca

»»

Cadastro



»» enviar

receite essa matéria para um amigo

53 HC Fest

por Rodrigo Ortega e Braulio Lorentz

Fotos: Divulgação

O 53 HC Fest deve ter sido o primeiro festival de hardcore da história em que os Ramones não predominaram nas camisetas do público. Nos dias cinco e seis de novembro, estampas de Misfits e Black Flag foram comuns entre os quase três mil pagantes que foram ao Armazém 841, em Belo Horizonte. Mas o destaque das camisas foram Chaves e seus amigos Quico, Seu Madruga e Chapolim. Assim como os personagens mexicanos no Festival da Boa Vizinhança, os fãs se divertiram durante dois episódios, ou melhor, dias, ao som de quinze bandas bacanas e promissoras. Os shows comemoraram os seis anos da loja, produtora e selo 53 HC.

No sábado tocaram Forgotten Boys (SP), Zumbis do Espaço (SP), Hot Rod Combo (BH), Crazy Legs (SP), Irônika (BH), The Jet Kids (BH) e El Dia De Los Muertos (BH). Domingo foi a vez de Fresno (RS), Os Pedrero (SP), Carbona (RJ), Rock Rocket (SP), Gramofocas (DF), Bur-9 (BH), Sorry Figure (RJ) e Estrumental (BH). Inspirado nas sensacionais comunidades do Orkut “Seu Madruga - o primeiro grande punk” e “Quico - o primeiro grande emo”, e no clássico jogo Street Chaves, em que os personagens se confrontam, o Pílula Pop conta sua versão da história em forma de lutas entre os personagens tão queridos entre os hardcore kids.

Chiquinha X Chaves


A velha guerra dos sexos já rendeu muitas brigas entre Chiquinha e Chaves na TV. No 53 HC Fest, os meninos e meninas se confrontaram nos estilos. Lacinhos e melodias fizeram a cabeça delas. Eles pogaram sobre bases mais pesadas e tênis Mad Rats azuis. Os integrantes do Bur-9 usavam todos os mesmos calçados da marca nacional preferida na cena HC. Eles foram os caçulas do festival e mostraram as impactantes canções do primeiro EP, A superficialidade que existe em cada um de nós.


Os cariocas do Carbona agradaram as meninas

As meninas não se intimidaram. Também usaram seus Mad Rats, bem enfeitados, e fizeram até mosh paralelo no show do Carbona. Os cariocas se deram bem com canções chicletudas como “Nebulosa” e a nova “Sessão da Tarde”. Alguns brincavam com os estereótipos, como os Rock Rockets, que não economizaram palavrinhas chulas, respaldados por duas indicações de vídeo idependente no VMB, e os Gramofocas, que resumiram os mais inocentes sonhos dos garotos em “A filha do dono do bar”: morar no bar e pegar mulheres lésbicas. Mas a guerra mesmo acabou não rolando. Pelo contrário, todos se uniram em uma inesperada dança de quadrilha enquanto o Hot Rod Combo tocava seus rockabillys, que vão render um disco pela 53 HC. Mas bonito mesmo foi ver casais emo se abraçando no show do Fresno. Fica a pergunta: será que seus bebês vão chorar mais quando nascerem?

Seu Madruga x Quico


Desde a primeira pisada no palco da banda Os Pedrero ficou claro o embate entre a turma mais mauzona do Seu Madruga e a galerinha sensível do Quico. “Vamos dar porrada no Fresno lá no camarim”, brinca Mr. Rotten Wine, vocalista d´Os Pedrero, no meio de divertidas canções como “Estilo selvagem rock’n roll” e o hit “Poxa”. Mas isso é pouco se comparado com as garrafas e latas atiradas nos gaúchos do Fresno. Os mineiros do The Jet Kids flertam com Stooges e New York Dolls, o Fresno ouve bastante Dashboard Confessional e The Get Up Kids. Influências e propostas diferentes, igualmente bacanas, mas que de modo algum são credenciais para que o baterista de uma das bandas locais do evento atire uma lata de Nova Skin na cara de Lucas Silveira, vocalista e guitarrista do Fresno. Agora é com você. A lata aremessada no Fresno indica:

a) Inveja.

b) Covardia.

c) Cara de pau.

d) A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.

A cena é absurda. O Fresno foi a última banda a se apresentar. Quem não gosta de hardcore emotivo, que fosse embora. A falta de noção faz muito mais sentido quando está no palco. E por ali fica. Mas se o problema é com o tal de emocore, porque, então, não atiraram objetos no Burn-9 ou no Sorry Figure (que tocou logo antes do Fresno, com um som bastante parecido)? Está na cara que não é só uma questão de preferência musical.


Lucas Silveira: lembre-se bem de que as pessoas boas devem amar seus inimigos (Foto: César Valle)

Por isso, tudo indica que a opção “a)” é uma boa pedida. Quico, ao menos desta vez, está com a razão. Foi preciso se segurar para não fazer um “gentalha, gentalha, gentalha” no tal baterista. A brincadeira sobre o Juca, também do Jet Kids, ser meio que o Chuck Hipolitho mineiro fica pra próxima (ele toca baixo e é uma das cabeças por trás do programa Microfonia, da Puc TV, de BH). O fato do Mário, guitarrista da banda, fazer a disciplina “Linguística II” na UFMG com um de nós também é piada pra outra ocasião.

Professor Girafales X Godines


Este conflito foi interno. Tínhamos que ser alunos aplicados e fazer nosso dever de casa. Mas não foi tarefa fácil encarar tantas trombadas, principalmente nos momentos de mais pogo, como dos veteranos do Estrumental e os jovens do Irônika. Acompanhamos, por essas e outras, o rockabilly do Crazy Legs e as histórias de terror de Zumbi do Espaço e El dia de los muertos meio muertos, sentados em um canto. O público também não pôde evitar a fadiga no final do sábado. O show dos Forgotten Boys, que conversaram com o Pílula Pop sobre o ótimo disco Stand by the D.A.N.C.E, está aí para não nos deixar falando sozinhos. Nem a cover de Ramones conseguiu dimuir o cansaço alheio.


Irônika: momentos de mais pogo

Mas, no fim do expediente, podemos dizer que fizemos nosso dever de casa, assim como o público e o pessoal da 53 HC. Observamos tudo com atenção e quase compramos a camisa do Seu Madruga com os dizeres da opção “d)”.

» leia/escreva comentários (24)