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Pearl Jam em Curitiba

Leite em pó e lágrimas em líquido

por Lara Spagnol e Luisa Brasil

Fotos: Divulgação


Eddie Vedder versão barba

29 de novembro de 2005, 18:30

- Você já tá chegando?

- Tô...

- Comprou o leite em pó?

- Ih cacete! Esqueci o leite em pó... Vou demorar mais uns quinze minutos.

29 de novembro de 2005, 19:00

- Então todo mundo chegou? Todo mundo com o leite em pó?

- Ihhh, tinha que levar leite em pó?

- Tinha, mas a gente arruma no caminho...

30 de novembro de 2005, 12:00

Após quatro paradas em restaurantes de estrada com preços extorsivos:

- Chegamos?

- Chegamos... Faltam cinco horas pro portão abrir. Pega aí o seu leite em pó...

- Eu tô sem leite em pó, vamos lá no supermercado comprar...

A fila na frente da Pedreira Paulo Leminski ameaçava dobrar o ensolarado quarteirão cheio de rostos ansiosos e muitas, muitas blusas do Pearl Jam. Podem dizer que ir ao show de uma banda estampando no peito a cara dos integrantes desta seria redundância. Mas já fazia 15 anos que as camisas esperavam o momento de sair do fundo da gaveta.

30 de novembro de 2005, 17:30

- Ahhh não! Quer dizer que no final das contas nem precisava do leite em pó?!

- É, bastava a carteirinha de estudante...

Os portões se abriram. A rampa cuspia incessantemente um fluxo interminável de pessoas que, contadas, beiraram as 20 mil. Não só o público, mas tudo o que antecedeu o show pareceu muito. Da beleza do local à ansiedade, passando pela preocupação com o leite em pó: todos os fatores pareciam representar a grande espera. Quando se está na turma do gargarejo, quem se lembra do maldito leite em pó? E das 17 horas de viagem? E do almoço de dez reais?


Pearl Jam versão anos 90

30 de novembro de 2005, 20:00

Algumas Nova’s Schin’s a cinco reais, copinhos de água a quatro e Baconzitos a três depois, o Mudhoney sobe ao palco com toda a disposição, mas não é bem recebido. Com pontualidade inglesa, a banda norte-americana começa a tocar. Pode-se justificar com impaciência a indiferença com a qual são tratados. Contudo, dada a importância e qualidade, os dedos do meio levantados não são outra coisa senão sinal de falta de educação. A banda, porém, não pareceu se importar muito com a má recepção e cumpriu sua uma hora de show. Tocaram “Touch Me I’m Sick” e agradeceram – em português, já que isso agora é charme – os mal-educados.

É hora da contagem regressiva. E provavelmente é a mais lenta da história. Uma hora que pareceu um dia, dez minutos que pareceram uma hora.

30 de novembro de 2005, 21:30

Mike McCready dedilha “Interstellar Overdrive” em sua guitarra enquanto desce com a banda pelo elevador da lateral esquerda do palco. Poucos segundos depois, o Pearl Jam começaria a tocar canções que molhariam rostos e roubariam vozes.

O setlist, que poderia ser definido como “cruel”, teve início com “Corduroy”. A faixa do disco Vitalogy por coincidência (ou não) abre o álbum Live On Two Legs. Sem mais delongas, “Do the evolution”, com gritos e pulos da platéia. “Animal” faz o pessoal contar os “one two three four five against one”.

A seqüência rápida continuou com “Save You”, do Riot Act, lançado em 2002. A música foi cantada por muitos dos fulanos, apesar de não ser um hit. Pausa para cumprimentar o público e dar uma golada de vinho: “Oi!”. “Even Flow” veio, então, para ser cantada em uníssono com direito ao sorriso quase infantil de Eddie Vedder contemplando seu público.


Pear Jam versão anos 00

Um caderninho com frases em português é o guia de conversação de Vedder: “Somos uma banda há 15 anos. Tocar no Brasil foi uma das melhores coisas que já nos aconteceu”. “Better Man” é o momento de levantar o isqueiro e limpar o canto dos olhos. “Black”, “Once” e “Porch”, do famoso álbum de estréia Ten, fecham a primeira parte. “Black” teve letra errada pelo vocalista, diga-se de passagem.

A balada mais cantada em rodinhas de violão foi a primeira do bis. Bastou começar a cantar que as palminhas já estavam enfeitando “Last Kiss”. Sem contar os fofinhos “uuuuuusss” e “oooooosss” do final. Depois, a banda homenageou “um amigo que morreu faz um ano”: Joey Ramone. A tal homenagem vem com “I believe in Miracles”, que em Porto Alegre teve o baterista Marky Ramone. O MC5 também foi lembrado quando o Pearl Jam, acompanhado de Mark Arm, vocalista do outrora dispensado Mudhoney, tocou a empolgante “Kick it out the Jams”.

Segundos após o primeiro bis, a banda voltou para executar “Indifference”, quase nunca tocada em shows, e “Alive”. Os apelos do público foram atendidos. Vedder aproveita a volta para chamar Leandro. O fã de Pearl Jam curitibano, que em 2004 sofreu um acidente de carro, sobe ao palco de cadeira de rodas. Ao lado do fã, a banda toca o lado b “Yellow Ledbetter”.


Leandro e Vedder versão fotolog

“How can I leave?”, pergunta Vedder. Ele emenda, então, a promessa de que o Pearl Jam voltará ao Brasil assim que os fãs quiserem. O sorridente Vedder correu como se tivesse 15 anos a menos, arranhou um portunhol e brindou saúde à Curitiba com sua garrafa de vinho. E não pareceu ser coisa fingida. Tampouco as corridas de Mike McCready pelo palco, as dancinhas contidas de Stone Gossard, e as nem tão contidas assim de Jeff Amment.

O prazer de ouvir pareceu se equiparar ao prazer de ser ouvido. Afinal, os 15 anos de espera não foram só nossos. 16 horas de volta pra casa. 185 reais de passagem. 40 reais de comida e bebida. Cinco reais e 96 centavos de leite em pó. Duas horas e dez minutos de show.

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