Busca

»»

Cadastro



»» enviar

receite essa matéria para um amigo

Sobre Macacos e Galhos

Algumas coisas que você deveria saber sobre símios no cinema

por Daniel Oliveira

Fotos: Divulgação

1- O “King Kong”, de 1933, não fez sucesso por acaso. A história da mocinha loirinha bonitinha, vivida por Fay Wray no original, que se “apaixona” por um gorila gigante, não é lá algo muito fácil de ser digerido. Passado no final da Grande Depressão, em que os EUA buscavam a saída de uma de suas piores crises, o filme era um escapismo popular (é sempre bom lembrar que, na época, o cinema ainda era barato) com uma metáfora significativa para o público.


Fay Kong

O macaco gigante representava o retorno aos instintos primitivos - abandonados na sociedade industrial, então falida – como forma de lutar contra o “monstro” da fome e da miséria. No longa, esse monstro era encarnado no assustador tiranossauro da Ilha da Caveira e seus companheiros jurássicos, com os quais os humanos contemporâneos não conseguiam lidar. Só o rei Kong, em sua fúria irracional, era capaz de salvar a mocinha e ganhar sua admiração, ao mesmo tempo em que ela passa a desprezar os valores deturpados e a moral questionável dos homens que chegaram com ela à tal ilha.


Jessica Kong

2- Dirigido pelo documentarista Merian C. Cooper e pelo cinegrafista Ernest B. Schoedsack, o filme se tornou um marco dos efeitos especiais com a entrada de Willis O`Brien e suas miniaturas no filme. O`Brien foi pioneiro na técnica de animação em stop motion e os efeitos visuais do longa – como na inesquecível cena da luta entre Kong e o tiranossauro - foram revolucionários na época. Só para constar, o assistente do animador em “King Kong” foi Ray Harryhausen, que anos mais tarde se tornaria o grande mestre dos efeitos em stop motion, realizando obras antológicas do gênero, como as caveiras de “Sinbad” ou os monstros de “Jasão e os Argonautas”.

Com efeitos de primeira, uma estrela como protagonista e escapismo na medida certa, o filme se tornou o primeiro grande blockbuster do cinema americano, sendo o avô dos “Titanic”`s e “O senhor dos anéis”`s da vida. Dica: no “King Kong” de Peter Jackson, preste atenção no diálogo entre Carl Denham (Jack Black) e seu assistente (Colin Hanks) no táxi. Eles buscam uma substituta para a protagonista de sua produção e uma das possibilidades é Fay Wray – que “está fazendo um longa na RKO”. Obviamente, é uma referência ao filme original, dentre as várias presentes no roteiro.


Naomi Kong

3- O sucesso do Kong original levou a uma série de desdobramentos oportunistas – prova de que seqüências caça-níqueis não são uma tendência recente em Hollywood. A maioria foram tosquices como “O filho de Kong”, dirigido às pressas em 1933 pela mesma equipe do original; a cópia barata “Poderoso Joe”, de 1949, que teve um remake recente com Charlize Theron no elenco; os cults “King Kong versus Godzilla”, de 1962, e “A fuga de King Kong, de 1967; e o pior de todos, ”King Kong lives!”, da década de 80. O mais reconhecido, provavelmente, é a versão do original atualizada em 1976, do produtor Dino de Laurentis.

O filme contava com uma bela Jessica Lange no elenco e o gorila gigante era vivido pelo maquiador Rick Baker, numa das situações que disputam o prêmio de maior vergonha alheia de todos os tempos. Sem muita profundidade, o remake tentou psicanalisar o gorilão, numa espécie de versão feminista de “King Kong”, que não resultou num produto final muito bom. É bom notar que o remake da década de 70 e alguns dos longas que você viu aí em cima são, muito provavelmente, conseqüência do sucesso de outros símios na tela grande – no caso, de “O planeta dos macacos”, de 1966.

4- Essa versão 2005 de “King Kong” tem seu grande trunfo na metalinguagem. Acima de todas as correrias, perigos, monstros e cenas mirabolantes, Peter Jackson acha tempo para discutir o limite entre fantasia e realidade na determinação psicótica do cineasta Carl Denham. O personagem se torna bem mais interessante que no longa original, colocando em discussão até onde vai o espetáculo em um filme e onde deve começar a preocupação com o lado humano dos envolvidos na história – questão de fundamental importância na Hollywood de hoje e que Jackson, depois do sucesso bilionário de três “O senhor dos anéis”, conhece muito bem. Além disso, o mocinho Jack Driscoll (Adrien Brody) deixa de ser primeiro imediato do S. S. Venture, como no original, e vira o roteirista da produção de Denham, servindo de contraponto ao diretor vivido por Black. E a mocinha Ann Darrow, vivida pela bela e talentosa Naomi Watts, é uma atriz de teatro vaudeville, que tem que se arriscar no cinema para não passar fome. Grande parte dos atores que trabalharam nos primórdios do cinema vinham desse mesmo tipo de teatro.

5- Não chega a ser metalinguagem, mas vale a pena observar: o longa de Jackson começa com Al Johnson cantando “Sittin` on the top of the world” que, depois de bancar uma produção de mais de 200 milhões de dólares só porque era seu filme favorito de infância, não deixa de ser a situação atual do próprio Peter Jackson. O cara conseguiu alavancar a indústria cinematográfica da Nova Zelândia – “As crônicas de Nárnia” foi filmado lá. Além disso, ajudou a firmar a neozelandesa Weta Digital, de seu parceiro Richard Taylor, como a principal produtora de efeitos especiais do cinema mundial.

Dentre outros “detalhes” em Kong, toda a Nova York dos anos 30 foi feita digitalmente pela empresa, além dos vários monstros, do design da Ilha da Caveira e, claro, do próprio Kong. O gorilão, aliás, foi feito através de uma evolução no esquema de motion capture, o mesmo que originou o sensacional Gollum. Aliás, de novo, o ator que serviu como base para movimentos e expressões de Kong foi Andy Serkis, novamente o mesmo do sensacional Gollum. Só que, dessa vez, o cara não fica somente atrás dos efeitos e Jackson deu um papel pra ele? Serkis também é o cozinheiro Lumpy, em outra interpretação f*da.

É pouco ou quer mais?

» leia/escreva comentários (1)