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Clube dos corações solitários

por Daniel Oliveira

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Na segunda pela manhã, meus amigos foram embora e eu fiquei em Tiradentes por conta do trabalho.

Então, depois de escrever três textos e editar dois (grande parte do que você já leu aí embaixo), eu olhei para a chuva interminável que cai sobre a cidade e resolvi ir para o meu quarto ler. Condene-me pela preguiça. Li quase a metade de “Clube dos corações solitários”, do gaúcho André Takeda, em uma hora.


Caroline Abras com Java Mayam, nos adolescentes tempos de Malhação

Além do título ser bastante adequado à minha situação, descobri que esse é o livro que eu queria ter escrito. Que eu podia ter escrito. Inveja boa. Sério. É muito legal, leia.

À noite, começaram os curtas, que eu costumo achar a melhor parte da Mostra. Apesar de trabalhos bem interessantes, ainda espero pelo grande curta de Tiradentes em 2007 (caso de “Eletrodoméstica”, em 2006, e “Vinil verde”, em 2005, ambos de Kléber Mendonça Filho). O pernambucano também compareceu neste ano com “Noite de sexta, manhã de sábado” - bela obra em preto-e-branco, com pelo menos um momento sublime, envolvendo um cara em Recife, uma menina em Kiev (Ucrânia) e o sol.

O impacto, porém, não foi o mesmo dos dois trabalhos anteriores, sinal de que a maturidade do cineasta começa a pedir por seu longa-metragem. Outro que voltou à Mostra é Esmir Filho (“Ímpar par”, em 2006) com “Alguma coisa assim”, uma crônica intimista e envolvente de dois jovens-adolescentes e o amadurecimento inesperado em uma balada noturna em São Paulo. Crédito para a boa direção de atores e para a Evan Rachel Wood brasileira (que é ainda mais bonita e atua melhor que a versão norte-americana) Caroline Abras.


Nervosos, curtametragistas disfarçam virando a cara pra foto

Destaque positivo ainda para os documentários “Oficina Perdiz” (do brasiliense Marcelo Diaz), sobre uma oficina-teatro na capital federal; e “O homem livro” (da carioca Anna Azevedo) sobre o personagem-título real, um pedreiro que acumulou em sua casa uma biblioteca de mais de 4.000 livros.

O primeiro amarra bem seus vários depoimentos, contrapondo a precariedade física do local-título com a importância cultural que ele passou a representar para aquelas pessoas e para a cidade. O segundo combina uma boa proposta visual – fotografia e edição adequadas – com o retrato de um sujeito tão sensacional, que afirma que “[O pé de laranja-lima] vendeu mais que Paulo Coelho, que é a Xuxa da literatura nacional”.

A boa dupla de protagonistas de “A chuva nos telhados antigos” veio fechar a trilogia de curtas do mineiro Rafael Conde para contos do (também mineiro) Luiz Vilela. Os cariocas “Transtorno” e “Anfitriões”, e os paulistas “Entre amigos” e “Encanto”, deram uma mostra do que está sendo produzido nos cursos de Cinema de RJ e SP.

Destaque negativo para o carioca “Deriva” (dica: Sofia Coppola já provou que é possível fazer um filme sobre o tédio que não seja entediante); o paulista “Entre amigos” e o mineiro “Clara” (pensar um pouco mais o roteiro antes de pegar uma câmera, talvez?); e o paulista “Joyce” (“O ano em que meus pais saíram de férias” levantou o padrão de atuação infantil. Sinto muito).

Terça ainda tem mais três sessões de curtas e, se a chuva ajudar, eu devo ver todas elas na tenda. Meu último dia. Uma certa melancolia. Rimas baratas. Vou terminar de ler “Clube dos corações solitários”. T+.

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