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A longa noite dos curtas

por Daniel Oliveira

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Resolvi fazer um top 10 (mais um, agüenta aí, afinal, é a 10ª Mostra) dos melhores curtas que vi em Tiradentes. Então vou falar pouco hoje, para dar tempo de comentar um pouquinho de cada um.

O mais legal – e o mais duro – disso é que foi bem difícil chegar nessa lista de 10. Comecei com 17 e, por sofrer nos cortes, deixarei listados no final do texto os outros sete filmes. Acredite: eles merecem, ao menos, uma conferida.

No mais, a chuva parou um pouco durante o dia. Mas voltou à noite, obrigando a sessão da praça a ser transferida para a tenda novamente. Os organizadores sofrem e reclamam com o atraso acarretado – o show que deveria começar à 0h30 vai para depois das 2h. E os cinéfilos Jedi’s, que agüentam a cadeira desconfortável e o sono, agradecem a São Pedro a chance de dizer: assisti a todos os curtas da Mostra de Tiradentes.

Sem mais delongas (em ordem alfabética):


Curtametragistas enfileirados para o abate I

Acossada, PE

Ficção / experimentação das pernambucanas Karen Akerman e Karen Black que, em menos de 10 minutos, falam muita coisa. Em preto-e-branco, as meninas passam pelo clássico de Jean-Luc Godard, versando sobre o cinema brasileiro e seu caráter inevitavelmente antropofágico e colonizado. E fazem uma homenagem ao cinema marginal – nominalmente Rogério Sganzerla – e a Marlon Brando.

Alguma coisa assim, SP

Já comentei esse aqui ontem. Amiga e amigo adolescentes saem na balada em SP. Ele pode ser gay. Ela pode ser apaixonada por ele. O curta podia ser bobo, mas retrata como tudo na adolescência é extremamente confuso, apaixonante e intenso. Trabalho do paulista Esmir Filho.

Aranhas Tropicais, SP

Experimentação lisérgica do também paulista André Francioli (Veja & Ouça: Maria Baderna do Brasil), que critica e, de certa forma, abre-se também para a crítica. No deboche com que constrói o retrato de um Brasil que engole cultura pop norte-americana (muitas vezes trash) goela abaixo, o diretor parece querer mais atiçar que afirmar (tipo aquelas resenhas mais ácidas do Pílula, sabe?).

Dos restos e das solidões, CE

O cearense Petrus Cariry (A velha e o mar) se arrisca naquela grande empreitada que é filmar o intangível. Uma cidade fantasma abandonada no sertão. Uma história que remonta às capitanias hereditárias. Memórias de velhos cheios de rugas. Ruínas. Música. Vento. Não é que isso tudo junto faz um sentido danado?

Igreja revolucionária dos corações amargurados, MG

O mineiro Carlos Magno continua seu conflito interno entre cinema/arte e vida/caos nessa experimentação-documentário-ficção-proposta. Mesmo que não pareça ter dado muito certo, a idéia de inventar uma religião, encenar um culto e ver a (não) reação das pessoas diz muito a respeito do Brasil e das raízes passivas-conformistas de nossa religiosidade. Perturbador, quase um filme de terror, e Magno nem precisava gritar “Jesus, se você me ama, vai à puta que pariu” pra isso.


Curtametragistas enfileirados para o abate II

Manual para atropelar cachorro, ES

Começa com uma narração em off quase noir – que, eventualmente, tira sarro dela mesma, ao repetir as falas dos personagens, sobrepondo-se a elas. Vira uma crônica quase existencialista de um balconista de videolocadora, a la “O balconista”. E termina como o retrato ácido, hilário e politicamente incorreto do vazio de seu protagonista – uma versão curta para “O cheiro do ralo”. Meu curta preferido da Mostra – apesar da presença do Rubens Ewald Filho – dirigido pelo capixaba Rafael Primo.

Noite de sexta, manhã de sábado, PE

Olha aqui ele de novo. Mesmo quando não é tão bom, Kléber Mendonça Filho ainda é muito bom. Outro que eu já comentei, conta o telefonema apaixonado de um sujeito em Recife, e sua amada em Kiev, na Ucrânia. O interessante dessa geografia é que o visual do curta pernambucano parece reproduzir aquele dos filmes do leste europeu da segunda metade do século XX – no preto-e-branco, na câmera na mão, nos closes muito fechados, na própria edição dos diálogos. Coisa de cinéfilo. Mas com emoção.

Oficina Perdiz, DF

Documentário muito bem resolvido sobre uma oficina mecânica da capital federal, que acabou se transformando em um teatro. Com Shakespeare e tudo. Basta a seqüência em que várias autoridades, amigos e vizinhos clamam para si a responsabilidade pelo não-fechamento do prédio, quando condenado pelo governo. Nessa simples seqüência, o brasiliense Marcelo Diaz conseguiu mostrar a paixão despertada pela iniciativa e a importância que ela tem na vida daquelas pessoas.

Vida Maria, CE

Sempre bom ver animações nacionais, ainda mais quando elas são tão brasileiras quanto esse “Vida Maria”. O cearense Márcio Ramos realizou um ótimo roteiro praticamente sozinho, ao retratar a vida dessas Marias do sertão nordestino, em um ciclo vicioso materializado pelas possibilidades do 3D. As falhas visíveis na animação do rosto das personagens são perdoáveis pela idéia tão simples e tão tocante.

Yansan, SP

Outra animação bem legal e com uma proposta bastante diferente. Acredite: Carlos Eduardo Nogueira conta o mito da orixá Yansan através da técnica de Anime. Talvez meu professor de Comunicação e Política tivesse um enfarto, mas as cores fortes, os olhos esbugalhados, os exageros e a sexualidade da animação japonesa se encaixam em uma bela história, pouco conhecida pelos não-praticantes da religião. Bem melhor que assistir a “Pokemón”.

Ainda vale a pena: A chuva nos telhados antigos (Rafael Conde, MG); Beijo de sal (Felipe Barbosa, RJ); Eisenstein (Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião, PE); Memórias sentimentais de um editor de passos (Daniel Turini, SP); O Homem-livro (Anna Azevedo, RJ); Sumidouro (Cristiano Azzi, MG); Uma vida e outra (Daniel Aragão, PE).

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