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A integral do cinema

“Questões e contextos da representação (no cinema)” – sexta-feira 26/01

por Rodrigo Campanella

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Chovia. A qualidade de um debate sobre cinema, especialmente de ficção, envolvendo crítica e mercado brasileiro, é que o mundo ainda é discutido ali de forma integral. Se por um lado a questão acaba se tornando complexa demais para caber dentro de uma rodada de conversas apenas, não se entra numa divisão racional entre as várias facetas do mundo. Capitalismo, sociedade de imagens, publicitarismo, leis de incentivo, governo federal, o jogo passa por tudo isso, e tenta avançar.

A qualidade expressa é que discutir cinema torna-se discutir o mundo, como devia ser qualquer fala sobre a cultura. Com um pouco de amor (e humor calibrado), dá para sair com uma nova coleção de perguntas na cabeça e um sorriso estampado – apesar do público desses eventos normalmente preferir manter a preocupação enrugada na testa e o prazer escondido em algum lugar lá para o fundo.

É uma viagem que necessariamente passa por:


Butcher é mano paulista e manda a real.

Globo (Filmes), por Pedro Butcher - jornalista, crítico e editor do boletim Filme B

“A Globo tem uma estrutura de estatal, ela é quase uma estatal. E como ‘indústria’ de cinema, ela (Globo Filmes) não tem concorrência.”

“Não é a Globo quem capta verba no mercado (pelas leis) porque a empresa de transmissão audiovisual não pode captar. Ela se associa a uma produtora independente (do Guel Arraes, da Paula Lavigne) e é essa produtora que capta.”

A Retomada, por Inácio Araújo - jornalista e crítico da Folha de S. Paulo

“Me ocorreu um dia que talvez não tenha havido uma retomada, mas uma ruptura com o que havia sido feito até então......

“O ideal do sistema atual (da indústria do cinema) que se montou com base no blockbuster é você não ter vários tipos de filme, mas vários tipos do mesmo filme. Se você vai e “007” está esgotado, tem que ter um análogo para ir. Se tem no multiplex em cartaz um chinês, um iraniano, seria um confronto muito forte e para o cinema como produto isso não é bom.”

“Não vai ser problemático para Hollywood que um cinema seja feito no Brasil, contanto que esse filme seja inserido no sistema (do blockbuster, do multiplex, do Oscar)..”


A (Maria)Florida mesa do Encontro de público e crítica do filme Proibido proibir.

Cinema como sintoma, por Luiz Zanin Oricchio - jornalista, crítico e editor do Estado de São Paulo

“O (crítico e pesquisador de cinema) Ismail Xavier disse uma frase ótima após um debate em Brasília: ‘É fantástica a capacidade do cinema brasileiro se tornar sintoma da conjuntura’. Como esses filmes nacionais sobre a época da ditadura, que acabam servindo como um parque temático para algo mais, dizem muito da nossa incapacidade de pensar politicamente.”

“Nós precisamos da aprovação do outro. Toda essa preocupação sobre o Brasil ganhar um Oscar ou não tem a ver com o fato de que o nosso cinema só pode ganhar um atestado de maioridade depois de ser aceito ali e aprovado ali.”

O Peso das coisas, por Luiz Carlos Merten - jornalista e crítico do Estado de São Paulo

“‘A Grande Família’ é feito para ser um blockbuster, senão é chutado para escanteio. Mas existem filmes dos quais a gente não pode exigir esse público, cuja proposta é tão específica que não cabe (nesse padrão). Se um filme do Bressane tiver o mesmo público de “2 Filhos de Francisco”, é capaz dele parar de fazer filmes achando que errou alguma coisa.”

“Os três filmes que eu mais gosto dessa produção recente são ‘Bicho de Sete Cabeças’, ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’ e ‘O cheiro do ralo’. São filmes que quase não foram feitos, porque quando chegavam nas empresas para captar um era ‘filme de maconheiro’, o outro um road movie no meio do sertão e o outro mistura o cheiro do ralo com o do rabo, e as empresas não querem sua marca misturada a isso.. Então, o departamento de marketing das empresas ajuda muito que o cinema nacional se torne cada vez mais medíocre.”

“Desde que o Portal do Paraíso (de Michael Cimino) faliu a (produtora e distribuidora) United Artists, o cinema se fechou para ser uma máquina de ganhar dinheiro – e não perder. O lucro pode ir às alturas, mas o prejuízo não pode existir. Cinema passou a ser uma ponta do iceberg, do filão, as empresas diversificaram seus negócios. E a questão é essa, mesmo quando o filme fracassa: como fazer para não perder dinheiro.”




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