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O céu está azul com nuvens vermelhas

por Rodrigo Campanella

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Comentar um filme que se apresenta como experimental no catálogo de uma Mostra ou Festival é um enorme risco de injustiça. Iniciar o comentário com o número de pessoas que saíram durante a sessão é ainda mais injusto, sem ironia. Se fosse assim, seria preciso falar do público que se levantou e saiu da sessão de um “Cinema, Aspirinas e Urubus” ou um “Brokeback Mountain”, respeitadas as diferenças e incômodos de cada um dos filmes. Mas é preciso fazer a tentativa.

A pré-estréia (anunciada como nacional) do longa do diretor mineiro Dellani Lima, “O Céu está Azul com Nuvens Vermelhas” complica ainda mais essa tarefa pois parece um filme feito entre amigos, e para eles. Mais do que um trabalho ainda em progresso, inconcluso (com tudo que a definição guarda de negativo e de qualidades possíveis), parece um grande painel de tentativas que não necessariamente pede ou se dirige para um público aglomerado nas cadeiras de uma sala escura. Dá a pensar que é o tipo de filme construído milimetricamente para gerar artigos e ensaios que o discutam e expandam, ou para filmes que peguem seus pedaços e construam outros – e nessa abertura ao canibalismo é que ele tem seu melhor ponto.


Entendeu a parte do azul e do vermelho?

Mesmo porque assisti-lo nessas condições, como espectador em um cinema, é uma experiência ruim. O filme se revela como o catálogo de todos os filmes que ele poderia ser e decidiu negar. É um não-filme, e com certeza há quem possa defender, argumentar e enxergar beleza aí. Mas como cinema (ou vídeo), essa falta de conclusão também não se abre para canto algum. O momento crucial é aquele em que, posto a decidir entre o azul e o vermelho como a cor que representa o amor, um rapaz justifica sua escolha misturando o amor-sentimento com seu amor ao clube de coração, o Flamengo. Ao escolher manter esse plano, o filme amplia o sentido que poderia ter como discussão/sensação do amor. O mesmo vale para o belíssimo plano onde palitos de dente se fecham numa estrela com o toque de uma gota d’água.


Experimentação pede um pouco de desfoque.

Ao mesmo tempo, esses planos agem contra o próprio filme, ao revelar o que ele não desejou ser. Não faltam exemplos de quando se pode reconhecer bom cinema na experimentação – talvez um dos melhores filmes de todos os tempos, “Nível 5”, de Chris Marker, é uma grande experiência em vídeo. Pode-se alinhar tranqüilamente aí uma ficção como “Dogville”, um curta como “Da Janela do Meu Quarto”, um documentário (“Disneyland – Mon Vieux Pays Natal”), ou filmes mais ‘clássicos’ que possuem um toque essencial de experimentação, mesmo controlada ( de “Touro Indomável” a “Cinemas, Aspirinas e Urubus”). É diante dessas tentativas, usualmente bem acertadas, que o filme de Dellani fica com aquela sensação esquisita de ser exibido para uma audiência que não compreende seu discurso – coisa que ele faz questão de exibir de dois em dois segundos. É um exemplar de algo que, se exibido numa galeria, pode realmente ser inovador – e interessante. A sala escura talvez não seja o lugar certo.




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